Em Portugal foi estreado a 7 de outubro de 1963 a versão italiana com legendas em português.
7) Algumas opiniões avançam com o argumento de que a dobragem
cinematográfica não é viável em Portugal, devido ao seu reduzido mercado. Qual a sua opinião?
Acho que somos um público habituado à legendagem e que a dobragem se torna estranha para nós.
8) Em 1948, os distribuidores e exibidores portugueses foram dos
poucos a defenderem a dobragem contra a lei que iria proibi-la até 1993. Hoje face à diminuição quer de salas quer de público(-de 50% dos portugueses vai 1 vez ao cinema por ano) pensa, como então pensavam os distribuidores, que a dobragem poderia levar mais gente ao cinema?
Não (mas atenção, porque hoje não temos uma sociedade com o nível de analfabetismo de então, pelo que as motivações e fundamentações de opiniões podem não ser comparáveis!). O facto das pessoas não irem ao cinema regularmente não me parece que se prenda com a legendagem, mas sim, por exemplo, com o caso de hoje existirem alternativas para ver filmes em casa (com uma oferta mais diversificada) e dos orçamentos familiares serem magros.
9) O progresso tecnológico permite a edição de vídeos e videojogos em formato multilingue, quer dobrados quer legendados. O que falta para que o português também esteja sempre incluído nestas opções? (Em especial nos videojogos, há inúmeros casos em que temos as regras em português mas depois todo o conteúdo do jogo é numa língua estrangeira.) Deveria o Parlamento legislar e tornar obrigatória a venda
XX em Portugal destes produtos audiovisuais com versões completas em português?
Não conheço bem a realidade dos videojogos, pelo que me custa pronunciar- me.
XXI Entrevista 4
ENTREVISTA SOBRE A DOBRAGEM (por email, 28-07-14) Comissão Parlamentar de Educação, Ciência
e Cultura
Nome: Inês de Medeiros
Cargo: Deputada do Partido Socialista
Agradeço as perguntas que me permitiram rever um pouco mais em detalhe a legislação ao nível da dobragem, tema que esteve totalmente ausente das discussões em torna da revisão da Lei do cinema.
1)
A dobragem de uma língua estrangeira para uma língua nacional, foi inicialmente uma forma da indústria do cinema ultrapassar as barreiras linguísticas que decorreram do aparecimento do cinema sonoro. Pensa que a dobragem poderia facilitar a internacionalização do cinema português, nomeadamente em países como a Espanha, a Itália, a França e a Alemanha, onde os filmes são exibidos no cinema e na televisão maioritariamente dobrados?Se me permite, começo por acrescentar um elemento em relação à história do surgimento e generalização da dobragem que me parece essencial para percebemos o que está aqui em causa. Se é verdade que a dobragem é importante para ultrapassar a barreira da língua, os objetivos são:
- Em primeiro lugar, económicos, para reduzir custos. Até aos finais dos anos 20 os filmes eram refilmados em várias versões nas diferentes línguas. Foi o caso dos filmes humorísticos de Laurel e Hardy (os famosos Bucha e Estica) que chegaram a representar foneticamente em várias línguas ou o Anjo Azul de Josef von Stenberg em 1930 que teve duas versões, uma alemã, outra inglesa. Embora com resultados muito positivos em termos de público, isto significava um investimento considerável que impedia a expansão da indústria.
- O segundo objetivo, e mais substancial, era o de melhorar a afluência nas salas dos filmes estrangeiros e permitir uma melhor entrada dos filmes estrangeiros nos mercados nacionais.
Ainda hoje em França, onde 80% da exploração de longas-metragens se faz em versão dobrada, segundo a televisão privada francesa TF1 existe uma perda automática de 30% de público para um filme não dobrado.
XXII Concluindo: a dobragem deve sempre ser encarada como elemento decisivo para a exploração de um filme no mercado nacional, pois ao eliminar a barreira linguista beneficia a “familiaridade” (em mercados dinâmicos em termos cinematográficos…) de um filme falado em língua original e aumenta o seu poder de influência.
Permita-me lembrar que a indústria cinematográfica nazi, dirigida por Goebbels, mestre em propaganda, o percebeu muito rapidamente e o famoso Jud Suss estreia no Festival de Veneza em setembro de 1940 com versões dobradas e legendadas, batendo aliás um triste recorde de público, 20 milhões de espectadores…
Não estou obviamente a fazer qualquer paralelo entre o pensamento nazi e a dobragem (importa ser clara) mas não podemos falar da questão da dobragem sem ter em conta que ela é um elemento decisivo para a avaliação de políticas culturais e de proteção económica de cada país e mercado.
Antes ainda de responder concretamente à sua questão, para se perceber o sucesso da dobragem no espaço europeu, importa também lembrar o que foi o plano Marshall, os acordos celebrados entre James Byrne e Léon Blum em maio de 1946 onde a questão da abertura do mercado europeu à indústria cinematográfica americana é central. Os EUA não estavam apenas a conquistar um mercado, estavam com uma clara e assumida campanha para alargar a sua esfera de influência. E a dobragem tem um papel essencial nessa estratégia. Talvez por isso os produtores estrangeiros continuam sem conseguir impor a dobragem dos seus filmes no território americano e no mercado anglo-saxónico. Finda esta pequena introdução vou à sua pergunta: Considero que a dobragem pode eventualmente facilitar a internacionalização do cinema português, nomeadamente em países como a Espanha, a Itália, a França e a Alemanha, onde os filmes são exibidos no cinema e na televisão maioritariamente dobrados, mas essa questão só depende da vontade dos distribuidores e exibidores em cada um desses países, pois são eles que decidem se querem estrear os filmes em versão original ou dobrada.
No entanto devo também dizer que preferia esta hipótese do que a generalização de produções portuguesas originalmente faladas em inglês, em nome da internacionalização.
Uma questão muito diferente é a de saber se os filmes estrangeiros devem ser dobrados em Portugal, mas a isso responderei nas outras perguntas.
2)
Eduardo Geada, realizador de cinema, escreveu em 1978 um livro intitulado “O imperialismo e o fascismo no cinema”, no qual afirma queXXIII “…a consequência económica e social mais importante da proibição da dobragem foi, sem dúvida, a estagnação a que se viu votada a indústria e o comércio do cinema em Portugal, situação que hoje se reflete na inexistência de estruturas de produção e difusão das películas, na reduzida frequência cinematográfica e até na estranheza com que o público ouve falar português nos filmes.” Este diagnóstico só teve efeito na lei do cinema de 1993, onde desaparece pela 1ª vez a proibição da dobragem. Porque demorou tanto tempo a ser extinta a proibição da dobragem? Depois do 25 de abril, esta questão nunca foi debatida, ou existia um forte apoio parlamentar a esta proibição?
Não sei responder com exatidão a estas perguntas pois para tal deveria fazer um estudo mais aprofundado dos debates na altura expressas na imprensa. Dado que a alteração legislativa de 93 foi feita por Decreto-Lei, só haveria debate no parlamento se tivesse havido um pedido de apreciação parlamentar que eu não encontrei. Por isso farei apenas uma interpretação pessoal, até em função do pequeno historial que fiz no inicio.
Não espanta que a Lei 2027 de 1948, do SNI de António Ferro tenha proibido a dobragem. Sob o pretexto de proteger uma indústria nacional, parece evidente a vontade de limitar a exibição de filmes estrangeiros, excluindo parte significativa da população que não sabia sequer ler, e assim minimizar o seu poder de influência considerada perniciosa num regime que gostava de se pensar “orgulhosamente só”.
Esta justificação política é tanto mais evidente que, como o relata Luis de Pina na sua História do Cinema Português, as poucas tentativas de dobrar filmes não receberam o acolhimento do público.
Convém no entanto fazer aqui uma correção: a proibição de dobragem foi teoricamente abolida em 1971, tal como o demonstra o excerto da Lei 7/71 que anexo. Curiosa é a observação que acompanha a autorização de dobragem: “desde que não afete a qualidade do filme”… Haverá critério mais subjetivo? Uma versão legendada permanece obrigatória mas, embora não sendo jurista, creio que esta deve ser entendida como a impossibilidade de exibir comercialmente uma obra estrangeira sem qualquer forma de tradução.
Não sei por que razão a dobragem permaneceu condicionada até 93. Eu não excluiria a inatenção, mas talvez seja ingenuidade da minha parte…
Mas a questão da dobragem ainda hoje levanta questões políticas e questões de direitos fundamentais. Existe hoje um debate em torno das “adaptações” na
XXIV tradução dos textos que alguns consideram como um controlo (leia-se eventual censura) sobretudo por parte das televisões.
Resta a questão do protecionismo económico. O facto é que a dobragem permitiu que a indústria americana passasse a dominar o mercado europeu e que os EUA, alegando que nenhum americano suporta a dobragem, proíbam (ou limitem ao máximo, não consegui verificar se a proibição se mantem) a importação de filmes dobrados. E a razão é clara: proteger o seu próprio mercado interno.