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SEÇÃO 3: A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM NA PERSPECTIVA

3.1 Algumas orientações sobre pensamento e linguagem, palavra e signos e sentidos e

Levando em consideração que a consciência é sempre social e que, por sua vez, o signo é a “materia prima” desta, entendemos que refletir sobre o processo de construção do pensamento e da linguagem consiste em ir muito além do que categorizar e/ou pré determinar este processo em termos cronológicos do desenvolvimento.

Os estudos de Vigotski (2001) sobre A construção do Pensamento e da Linguagem nos revelam uma crítica em relação as crenças e discussões de sua época, ou seja, o referido autor se contrapôs a ideia de que Pensamento e Linguagem tomavam funções no desenvolvimento psiquico distintas, assim como, a ideia de que se tratava de uma fusão, desde o momento da origem até todo o transcurso do desenvolvimento.

Esse posicionamento aponta para a falha da maioria dos estudos relacionados ao pensamento e linguagem. A falha encontra-se no modo de considerar os dois processos como dois elementos distintos autônomos, independentes e isolados. Nesse sentido, compreendemos que Vigotski lançou a ideia, de modo peculiar, de que o pensamento e a linguagem não se apresentam como uma fusão linear e, tampouco são indepedentes. Trata-se nesse caso de uma relação histórica e dialeticamente construída que se configura através da atividade do sujeito no mundo.

Esta é uma conclusão que nos faz remeter a falha da maioria dos estudos relacionados ao pensamento e a linguagem que os consideram processos distintos, quando na verdade eles coexistem e se mantêm relacionados, embora distintos. Conforme aponta Vigotski (2001):

A falha metodológica principal da imensa maioria de investigações do pensamento e da linguagem – falha essa que determinou a esterelidade deste trabalho – está justamente naquela concepção das relações entre o pensamento e palavra que considera esses dois processos como dois elementos autônomos, independentes e isolados, cuja unificação externa faz surgir o pensamento verbalizado com todas as suas propriedades inerentes (VIGOTSKI, 2001, p.395).

De acordo com Vigotski (2001), esses processos não são unidos desde o momento em que a criança nasce, mas que a partir das relações sociais ocorre uma fusão entre ambos –os quais não se separam mais - e, a partir desta, as palavras e signos que as correspondem vão se constituindo. Importa destacar que esse processo não se dá do específico para o todo, como apontavam os associacionistas, mas ao contrário. É necessário se entender o todo, para que o específico seja vivenciado pelo sujeito e, posteriormente, este possa realizar as suas próprias construções.

Mais tarde, essa fusão entre pensamento e linguagem passa a ser mediada por relações entre outros homens pela palavra que contém a possibilidade de agregar signos. Assim, a palavra não define por si só o pensamento, uma vez que não pensamos apenas por estas, porém, o pensamento, quando não externalizado por palavras, remanesce nas sombras. Como destaca Vigotski (2001, p.10), “ sem significado a palavra não é palavra mas som vazio”.

É importante pensar que esta realidade para as pessoas com surdez não se distingue, visto que a funsão entre pensamento e linguagem irá se estabelecer a partir também das relações sociais, entretanto, mediadas pelos sinais e pelos significados constituídos em torno destes.

Nesse sentido, a palavra/sinal precisa ser entendida através dos signos que, por sua vez surge da relação com outros homens, portanto, esta relação entre pensamento, linguagem, palavra e signos só irá acontecer a partir e/ou através do coletivo, das relações sociais e, por conseguinte, históricas.

Isto posto, os estudos de Vigotski (2001) apontam para que:

O novo e o essencial que essa investigação introduz na teoria do pensamento e da linguagem é a descoberta de que os significados das palavras se desenvolvem. A descoberta da mudança dos significados das palavras e do seu desenvolvimento é a nossa descoberta principal, que permite, pela primeira vez, superar definitivamente o postulado da constância e da imutabilidade do significado da palavra (VIGOTSKI, 2001, p.402).

Visto isto, compartilhamos da ideia de que a palavra nos infude a lembrança do seu significado, no entanto, a palavra em si não é ou não constitui o pensamento, entranto, é através dela que o pensamento se realiza.

Em seu livro sobre a construção do pensamento e da linguagem, Vigotski (2001) cita o exemplo de que ao imaginarmos determinada ação como um homem vestido de amarelo, passando pela rua em determinada direção, em palavras organizamos a ação de uma maneira, mas o pensamento, não se iguala nesses termos de organização, ou seja, ordem, cores como ainda em palavras.

Nesse momento, Vigotski diz que o pensamento pode ser comparado a uma nuvem carregada de chuva e as palavras seriam o momento em que essa nuvem descarrega “sua chuva”. Portanto, “a relação entre o pensamento e a palavra é, antes de tudo, não uma coisa mas um processo, é um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamento” (VIGOTSKI, 2001, p. 401).

Nesses termos, como realça Vigotski (2001):

O significado da palavra, como tentamos elucidar anteriormente, é uma unidade indecomponível de ambos os processos e não podemos dizer que ele seja um fenômeno da linguagem ou um fenômeno do pensamento. A palavra desprovida de significado não é uma palavra, é um som vazio. Logo, o significado é um traço constitutivo e indispensável da palavra. E a própria palavra vista no seu aspecto interior (VIGOTSKI, 2001, p.396).

Considerando esse recorte como orientador de nossas discussões, como ainda, buscando por compreensões, apoiamos-nos em Aguiar (2007), quando encontra explicação em Vigotski ao afirmar acreditar ser a palavra o ponto de partida para compreender as subjetividades do sujeito mediante esta realidade objetiva, destacando a importância dos signos e enfatizando a linguagem como materialização do mundo das significações.

Nesse sentido, ao pensarmos nessa relação estabelecida entre palavra e significado, nos firmamos em concordância com o pensamento de Soares (2011) acerca da posição de Vigotski sobre o fato de não serem os significados entidades estáticas. Eles se modificam em meio às transformações da sociedade, do povo, da cultura, onde ao mesmo tempo em que está sendo mediado, também medeia as transformações.

Mediante este pressuposto, compreendemos que o significado traz uma junção do pensamento e da linguagem, somando assim a este processo. No entanto, é importante destacar que o significado traz uma junção do pensamento e

da linguagem e ao mesmo tempo traz uma negação/superação do significado anterior. Melhor explicando, ele incorpora o significado anterior como uma superação, pois ele cria um novo significado. Vale destacar que o termo superação não tem a ver com algo melhor ou pior, mas sim com um terceiro elemento que surge.

Assim, entende-se que os significados são constituídos com base nas condições objetivas e subjetivas de um determinado povo ou contexto. No entanto, existem as condições objetivas a subjetividade, em que esta é construída de maneira mais particular, guiada pela forma em que o sujeito afeta e é afetado pela realidade objetiva, ao longo de sua história. Estas apropriações particulares, guiadas por essas relações dialéticas, constituem os sentidos.

Os sentidos estão mais vinculados ao que aquele sujeito sente e como ele significa. No entanto, é necessário tomar o cuidado de saber que os sentidos não estão apenas atrelados ao aspecto interno do pensamento, assim como não é um fruto diretamente proporcional apenas das influências externas. É um processo muito mais longo, que está associado a uma série de acontecimentos e/ou eventos que se formam ao longo do desenvolvimento.

Vejamos um exemplo: Se pedíssemos para os alunos de uma sala de aula inteira falar ao mesmo tempo sobre um determinado tema, tentando conceituá-lo, não haveria nessa organização um consenso de uso de palavras e, tudo aquilo que ouvíssemos provocaria dentro de nós outros sentidos. Assim, apoiados nessa situação traduzimos que “o sentido é inconstante e, por isso, a depender da situação na qual a palavra seja pronunciada, ele pode revelar formas diversas de pensamento e afetos do sujeito” (SOARES, 2011, p.89).

Para explicar melhor essa diferenciação, contamos com os dizeres, mais uma vez de Soares (2011):

Sobre a diferença entre sentido e significado, é possível dizer que enquanto este é mais empírico, de modo que se explicita nos gestos e nas palavras ditas/enunciadas, aquele é oculto, de modo que, para elucidá-lo, faz-se necessário um esforço de análise e abstração teoricamente mais profundo acerca do que é expresso pelo sujeito (SOARES, 2011, p.179)

Isso mostra que a unidade sentidos e significados são um processo do próprio sujeito que é histórico. Nesses termos, “o indivíduo modifica o social, transforma o psicológico e, assim, cria a possibilidade do novo. Isto posto, podemos afirmar que a

linguagem seria o instrumento fundamental nesse processo de constituição do homem” (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 225).

Se compreendermos que este processo de transformação se faz necessário para todos, especialmente para quem se debruça nos estudos da Psicologia, nos perguntamos: se vivemos em uma sociedade orientada em suas imposições pela necessidade do som, como se daria este processo de construção – entre pensamento e palavra e sentidos e significados - em pessoas com surdez usuárias de Língua Brasileira de Sinais, uma vez que biologicamente são privadas desse acesso? Como entender as significações desse sujeito em ambientes em que informações lhes são ocultadas e vivências/experiências negadas pelas forças naturalizantes do fenômeno social? É possível pensar sobre esta perspectiva?

Acreditamos que para buscar um direcionamento para tais questionamentos, em uma primeira instância devemos compreender as experiências sobre a surdez, conjuntamente com as reflexões por nós já direcionadas. Assim, seguimos com o próximo subtópico.