• Nenhum resultado encontrado

1. Cidadania ou o que não seja

3.5 Algumas palavras sobre representatividade na esfera

como exemplos mais estreitos de espaços de decisão ligados a escola, externa e internamente, os já citados conselhos escolares, dentro do espaço da escola. Também, o espaço do conselho tutelar, que, pelas demandas que busca atender, se liga mais especialmente com a realidade das escolas; cuja união de focos e diretivas nos trabalhos empreendidos pode apresentar resultados positivos para a escola e para o próprio conselho.

Nesta compreensão, observa-se que o conselho escola desempenha um papel fundamental tanto na consolidação da autonomia das escolas, como no papel de integrar a formação para cidadania dos/as educandos/as através da integração destes/as nos espaços decisórios internos da escola. Observe-se que, conforme já levantamos anteriormente, ao exemplificar a situação da escolha de representantes de sala (a forma mais antiga e visível de um aspecto democrático trabalhado em sala), não se esgota no espaço do conselho escolar a possibilidade de proporcionar entendimento e debate aos alunos e alunas da gestão da própria escola, e sim uma oportunidade de envolver discussões sobre poder decisório, relações democráticas e construção de cidadania de todos/as os/as participantes, equipe escolas, responsáveis pelos/as discentes e mesmos/as estes/as. Outros espaços podem e devem ser proporcionados para fortalecimento de uma concepção não apenas de democracia, mas de cidadania, que podem ir desde cursos de formação, eventos, ações, grêmios escolares ou rádios educativas no espaço da escola.

Observam com propriedade os autores Edson Andrade e Alfredo Gomes que

o exercício da autonomia como valor intrínseco à instituição escolar deve- se voltar, necessariamente, para a função maior da escola que é o processo de ensino aprendizagem e a formação da cidadania. Neste sentido, a autonomia constitui e é constituída como prática político- pedagógica, prática essa cujo foco central é o próprio fortalecimento da instituição escolar e sua inserção crítica na sociedade167.(grifos nossos)

Note-se que os autores vão criticamente ao ponto ao analisarem a questão de que o conselho escolar não servirá apenas à autonomia da escola enquanto instituição, mas como espaço para o processo de formação da cidadania.

167

ANDRADE, Edson Francisco e GOMES, Alfredo Macedo. Autonomia da escola:dimensões e

contradições no sistema municipal de Recife. Disponível

em<http://www.redecaes.com.br/bibliografia_alfredo/Autonomia%20da%20Escola%20dimensoes%20 e%20contradicoes%20no%20SMR.pdf>. Acesso em onze de dezembro de 2010.

Esta percepção é relevante uma vez que o conselho compreende um espaço privilegiado de construção de relações democráticas, de educação para cidadania, ainda que não seja o único possível, naturalmente168. O conselho escolar bem estruturado, equilibrado, e cuja escola se envolva na capacitação para sua participação para todos/as os/as integrantes, preocupando-se em publicizá-lo e compartilhá-lo com o corpo discente de forma atraente e acessível, proporciona uma educação para cidadania que freqüentemente nenhuma disciplina com esse título consegue proporcionar. Mais: além de proporcionar oportunidade de conhecimento para alunos e alunas, essa existência produtiva proporciona experiências educativas para a comunidade escolar como um todo; incluindo a equipe docente, que poderá se apropriar melhor da transversalidade do conteúdo em suas disciplinas, demais profissionais da educação envolvidos/as na escola e mesmo a comunidade na figura de familiares. Os efeitos podem alcançar portanto, uma real formação para cidadania, quando estas mesmas pessoas irão contribuir com suas experiências e competências adquiridas nos demais espaços fora da escola, como os conselhos de direitos. Não é difícil observar que um/a participante de um conselho escolar em bom funcionamento, supondo-se um avô de um aluno, por exemplo, que obteve acesso a capacitações para compreender seus instrumentos, enriquecê-lo com suas idéias e experiências, a quem foi oportunizado compartilhar novos conhecimentos sobre seu funcionamento, debates e direitos, poderá futuramente sentir-se motivado a participar e posteriormente intervir com mais propriedade e competência em um conselho de direitos de idosos/as de seu município. Naturalmente, nem todas as experiências serão necessariamente exitosas nesse sentido, todavia o alcance do fortalecimento dos espaços de decisão e capacitação em direitos na escola terá muito mais sentido e alcance para a construção de uma educação para cidadania que possamos encontrar do que um debate teórico em sala de aula.

Andrade e Gomes acrescentam à reflexão que

Outro aspecto que precisa ser observado é o falso reducionismo da noção de autonomia aos muros da escola. Não existe prática de autonomia para consumo interno da escola, uma vez que a escola pública não é apenas parte, mas uma das dimensões constituintes da esfera pública; é também parte de uma rede articulada de escolas que se alimenta, se identifica e se diferencia substantivamente, aspectos geralmente ignorados pelas políticas homogeneizadoras de gestão escolar. A prática da autonomia não pode e nem deve ser auto-referente; é referente ao contexto do sistema educativo

168

É fato que as escolas privadas não costumam investir na construção deste espaço com o mesmo perfil. Todavia, outros espaços, como associações de pais e mestres, encontros freqüentes de representantes de turmas, incentivo a manutenção de grêmios também são criados.

do qual a escola é parte constituinte, e ao contexto social, político, econômico e cultural, no qual não apenas a escola está inserida, mas o próprio sistema de políticas educativas. Assim,o presente texto enfatiza o exercício da autonomia da escola na perspectiva da

participação de seus sujeitos nos processos de decisão e formulação das políticas educacionais a serem implementadas na e pela escola169

Na reflexão, os autores reconhecem e enfatizam a compreensão de corpo vivo da escola, em sintonia com a sociedade na qual se insere. Nesse sentido, a educação para cidadania não pode ter como finalidade única a melhor participação no conselho escolar, por exemplo. A uma, porque o conselho escolar, a despeito de sua importância, não pode ser considerado o único lugar de relações democráticas ou instância de poder, outros espaços podem e devem coexistir, proporcionando discussão das contribuições e demandas. A duas porque a formação para cidadania excede a participação no espaço semi-público da escola, apresentando ecos nos demais espaços que as pessoas ocupam e travam relações.

A polêmica da questão talvez possa se inserir na imagem da cobra que morde a cauda: há uma demanda sentida pelas pessoas que se dispõem a participar dos conselhos escolares de capacitação e formação para melhor compreender e atuar neste espaço. Por outro lado, a formação almejada necessita da existência de espaços democráticos nas escolas para se efetivarem. Na pesquisa empreendida pelos autores citados, foi unânime nas falas dos/as participantes esse sentimento, chegando mesmo aos autores afirmarem: “pode-se dizer que destaca, de forma clara, que mais do que autonomia financeira, os conselheiros reconhecem e reclamam uma capacitação para poderem exercer bem a autonomia”. Tal percepção é enfatizada ainda na afirmação: “nas quatro escolas que acompanhamos, essa mesma posição foi insistentemente mencionada por diferentes segmentos. Portanto, consideramos a mesma fundamental”170

.

É prioritário, por conseguinte, focar a relevância deste pela questão da formação no sentido da competência como condição para o exercício autônomo, e não meramente formal da participação no espaço. Nesse sentido é que defendemos que é inegável que a educação para cidadania necessita apropriação de conteúdo, e que apenas a boa intenção de participar dos espaços, seja na forma transversal que defendemos para educação para cidadania (onde a formação é vivenciada concomitantemente com o fortalecimento dos espaços democráticos na escola); ou a

169

Idem.

170

boa intenção do/a docente na abordagem da disciplina para discursar sobre os problemas sociais brasileiros, não atinge de forma efetiva a questão.

Ao notarem que o reconhecimento de participantes desta lacuna na formação revela a compreensão de associar a vivência da autonomia aos conhecimentos das temáticas em educação e em direitos, estas pessoas assumem uma posição consciente de que participar do espaço público. Não requer apenas vontade de participar, mas, nas palavras dos autores, aqui segue em transcrição literal, “o exercício da autonomia também requer aprendizado das regras que organizam o jogo democrático para que cada sujeito possa efetivamente ocupar espaço em condições, inclusive, de propor a revisão dessas regras171”.

Infelizmente, os obstáculos nos conselhos escolares não se esgotam na dificuldade de formação de seus/uas participantes, ou de sua inexistência em unidades privadas. Outras pedras têm se colocado neste caminho, sendo algumas delas muito semelhantes às encontradas nos demais espaços cujas críticas se alinharam nos itens anteriores deste capítulo, como a preponderação do Estado e seus agentes nos espaços, a limitação da fala pública, entre outros motivos, por sentimentos (muitos motivados) de despreparo ou desconhecimento das temáticas ou mesmo do domínio formal de questões mais comezinhas, como linguajar, timidez, ou da norma padrão. Obstáculos como o caráter excessivamente deliberativo, impactando a autonomia do conselho, por exemplo, também são vivenciadas nos conselhos escolares. Há empecilhos significativos, que nas pesquisas empreendidas pelos autores citados aparecem como impostos pela Secretaria de Educação às escolas, para a realização de ações e projetos formulados ou ressignificados no âmbito da escola, numa forma negativa de reação controladora de um dos centros de poder do sistema. Destacando uma das falas da dirigente escolar e presidente do conselho de uma das escolas, percebe-se que esta aponta que algumas coisas que foram decididas pelo conselho escolar não tiveram prosseguimento porque esbarraram em questões apresentadas como óbices pela Secretaria de Educação. Em seu discurso, chega a demonstrar que falta clareza ao próprio corpo normativo: “os limites se materializam em coisas legais que talvez não esteja escrito, mas tem uma determinação interna de como funciona segundo o sistema da Secretaria de Educação de Recife”, diz172

. 171 Idem. 172 Idem.

Desta maneira, é interessante notar que, a despeito de alguns problemas mais específicos enfrentados pelos conselhos, existe certa identidade de obstáculos nos espaços dos conselhos no espaço público, e no conselho dentro do espaço da escola. Dificuldades de formação de compreensão dos instrumentos e direitos pelas pessoas que o compõem, autonomia que se esgota em outras instâncias, reprodução de relações de poder com a concentração de presidência e direção (o que nos leva a recordar a presidência de conselhos de direitos concentrada em representantes do Estado ou a votação de conselheiros tutelares como trampolim para demais cargos ou calcadas em relações pouco claras) são partes dos desafios encontrados no funcionamento dos conselhos escolares. É complexo observar um caminho a percorrer na formação apenas do corpo discente, quando, por exemplo, nas palavras do professor da Escola Sul (que se diferenciara das demais amostras por possuir formação profissional na área de Direito) respondera, por enfim: “sinceramente desconheço mais profundamente esses espaços e não compreendo a relação destes com a educação para cidadania”.

4. EDUCAR PARA CIDADANIA

4.1 Paradigmas e contexto escolar da educação para cidadania numa república