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O subdesenvolvimento pode ser caracterizado por três elementos que se inter- relacionam, a saber:

I. Na relação da oferta com a demanda: a existência de uma disparidade entre o dinamismo da demanda e uma incapacidade de suas forças produtivas de satisfazê-la;

II. Na oferta, isto é, do lado da produção: a subutilização de recursos produtivos; III. Na demanda: a diferenciação do consumo.

O dinamismo da demanda mencionado no primeiro ponto é o que diversos autores chamam de “modernização” do estilo de vida, isto é, a adoção (que têm lugar em praticamente todos os povos) da forma de viver engendrada pela industrialização nos países que a lideram.22 A ausência de condições de atender – com a produção interna, ou melhor, pertencente a residentes – a esses requisitos impostos pela “modernização” conduz a uma dependência de outras economias fundada no diferencial tecnológico.

Já com relação ao segundo ponto, subutilizar recursos é uma especificidade da economia capitalista subdesenvolvida. Isso se dá por razões como a escassez relativa de capital, fazendo com que se tenha uma oferta ilimitada de mão-de-obra, particularmente a desqualificada, a um determinado salário.23 Outro fator importante refere-se à tecnologia utilizada, devendo-se reconhecer que “as técnicas mais eficientes para a expansão industrial são concebidas como se o trabalho fosse uma mercadoria rara” (SANTOS, 1979). Tal situação já era verdade quando a noção industrial se centrava num parque de base metal-mecânica e, numa era eletro-eletrônica, não tem motivos para modificar senão no sentido de agravar-se. Desse modo, a parcela dos requisitos de

22 Para consultar um estudo que explore essa questão, verificar Nurkse (1973).

23 Lewis (1969) oferece uma abordagem de desenvolvimento apoiada na idéia de oferta ilimitada de mão-

modernização que é suprida internamente se apóia primordialmente em tecnologia poupadora de trabalho, o que impulsiona os problemas do subemprego e do desemprego.

No lado da demanda, há a diferenciação do consumo. Conforme Furtado (2000), identificam-se claramente dois tipos de consumidores. O primeiro tipo engloba a massa rural e a urbana dedicadas às atividades diversas da economia popular e que só marginalmente estão nos mercados organizados de mão-de-obra. Também neste tipo estariam os assalariados com remuneração próxima do salário mínimo. Ao todo, esses consumidores podem representar 80% da população e sua demanda se caracteriza por haver poucas modificações na lista de bens, sendo as alterações ocasionais mais decorrentes de mudanças de preços relativos. Já a demanda do segundo tipo de consumidor está em permanente diversificação. Esta demanda cresce verticalmente, enquanto que a do primeiro tipo cresce horizontalmente, com a massa. Este tipo, isto é, a minoria beneficiária do excedente, ao todo equivale a mais ou menos 20% da população e é composto de dois subgrupos: assalariados médios, trabalhadores autônomos e pequenos rentistas (15% do total); e assalariados superiores, profissionais liberais e mais ricos detentores de título de propriedade, chegando a algo em torno de 5% da população.

Os três elementos citados se inter-relacionam como podemos perceber com os dizeres de Santos (Op. cit., p. 69), “assim estabeleceu-se um círculo vicioso: à medida que a renda continua a se concentrar, o consumo de grupos de alta renda diversifica-se cada vez mais e o desenvolvimento do perfil de demanda torna-se ainda mais inadequado, produzindo uma subutilização dos fatores de produção.” 24

O quadro composto por tais elementos produz efeitos nas instituições formatadas pela sociedade, tendendo a ser concebidas de modo a contribuir para a manutenção

24 Nota-se que, de acordo com a caracterização que vimos delineando, uma aldeia indígena isolada nunca

seria subdesenvolvida, já que o subdesenvolvimento se pautaria pela referida disparidade. Pode-se imaginar que essa caracterização do subdesenvolvimento caminha apenas para um argumento de proteção de mercado travestido, o que não é verdade. Ao comércio é reservado o papel importante de potencializar aumentos de produtividade. Entretanto esses aumentos são de duas naturezas: decorrentes de melhor aproveitamento dos recursos já existentes e decorrentes de um caminho de oportunidades abertas para a inovação técnica. A falha de teoremas de vantagens comparativas reside em focar apenas aumentos da primeira qualidade. Uma nação desenvolvida comercializa muito e obviamente deve fazê-lo, contudo, há de se reconhecer que ela não depende fundamentalmente de nenhuma outra. E se há matérias-primas de que necessita e produtos que opta por não produzir porque não é vantajoso, ela não está com isso abrindo mão dos caminhos de maior oportunidade para a inovação técnica.

desse panorama, vale dizer, da perpetuação em essência de um modo de utilização do excedente, que traduz o projeto de uma coletividade.25

Entretanto não convém, para os fins perseguidos neste trabalho, estender-se à busca dos desdobramentos que uma concepção do subdesenvolvimento como a exposta pode captar e oferecer, bastando ater-nos aos esteios principais do diagnóstico em si. Podemos, constatando que os elementos (II) e (III) atuam no sentido de reforçar o primeiro, resumir o subdesenvolvimento como uma dessimetria existente entre a modernização no consumo e o atraso no desenvolvimento das forças produtivas, tendo em mente que isso significa que “existe uma incompatibilidade entre oferta potencial de fatores, tecnologia incorporada aos equipamentos utilizados e a composição da demanda que se pretende satisfazer” (NURKSE apud FURTADO, 2000, p. 36)

Essa dessimetria, não devemos esquecer, está visceralmente ligada à questão do processo de inovação técnica. Pensemos no caso dos países desenvolvidos: ora, os atores que administram ou comandam as atividades econômicas raramente o fazem de maneira articulada, visando um objetivo comum. O que ocorre, em realidade, é a competição entre eles. Essa competição tende a diminuir a margem de lucro, conduzindo a uma pressão pelo aumento da parcela da renda apropriada pelo trabalho. Tal tendência favorece sobremaneira aqueles agentes que lograram inovar, poupando trabalho (FURTADO, 2000). Fica muito claro, dessa maneira, que são favorecidas na apropriação do produto as empresas que alcançaram estar à frente no processo de inovação técnica.26

Agora, enfoquemos a questão mundial da existência de diversos países subdesenvolvidos e alguns desenvolvidos e, dada a tendência à maior apropriação pelas empresas à frente da inovação técnica, como não compreender a tendência na economia capitalista a concentrar renda em favor de países que exportam produtos que incorporam a técnica mais avançada?

25 Desvendar o processo de formação e principalmente de utilização do excedente seria uma chave para

apreender o projeto de uma coletividade social. O excedente pode ser canalizado para o consumo e/ou para a acumulação. A acumulação por sua vez pode ser produtiva ou não ligada à produção. Na Grécia antiga, por exemplo, boa parte do excedente seria utilizada para financiar a acumulação de saber no plano estético. Já na periferia do capitalismo, boa parte do excedente financia a modernização. “Afirmar que o desenvolvimento das forças produtivas é freado na periferia pela escassez de poupança é pretender ignorar que aí um considerável excedente é canalizado para a acumulação improdutiva ligada à diferenciação das formas de consumo” (FURTADO, 2000, p. 88).

Então o subdesenvolvimento, além de ser expresso por uma disparidade entre oferta e demanda, ligada ao paradoxo subutilização-modernização, estaria inserido no plano externo numa divisão internacional do trabalho que contribui para a concentração de renda em favor de países desenvolvidos e se articularia, de outro lado, internamente alimentando instituições orientadas à conservação da forma de desfrute do produto social.

Apesar de haver programas de microcrédito como o empreendido pelo BRAC que chegam a apresentar certa preocupação com os encadeamentos para frente e para trás que as atividades financiadas possam promover; percebe-se que iniciativas microfinanceiras, em princípio, nada têm a ver com o combate ao subdesenvolvimento, visto que não atacam a dita disparidade nem os principais elementos que com ela se articulam.

Embora possa haver opções de combate ao subdesenvolvimento, congruentes com a caracterização feita, não é tarefa a que nos propomos aqui especular sobre possíveis ações nesse sentido, intencionamos apenas enfeixar num contexto as possibilidades e impossibilidades de iniciativas financeiras voltadas aos pobres.

Embora as iniciativas financeiras voltadas aos pobres continuem sendo um antro para a experimentação social aberto a novas evoluções, é possível dizer no presente momento, pelo discutido especificamente nesta seção e neste capítulo, que as microfinanças e o microcrédito podem ter a ver com o alívio e mesmo com o combate da pobreza, isso porém num quadro permanência e mesmo de perpetuação do subdesenvolvimento, como também da pobreza, na medida em que esta decorra daquele.

4 COMPREENDENDO MELHOR O AMBIENTE

Até aqui argumentamos teoricamente a respeito da direção em que iniciativas financeiras voltadas aos pobres podem gerar benefícios ou melhoria das condições de vida desta parcela da população, bem como discorremos sobre a natureza de sua limitação. Contudo, desejamos ainda refinar o embasamento teórico, a fim de extrair uma hipótese prévia com nível de especificidade tal que possa orientar a breve leitura, a ser feita no capítulo seguinte, sobre evidências oferecidas pelos estudos de impacto da atuação dessas organizações.

Este capítulo contém duas seções. A primeira seção aborda a elaboração de Milton Santos (1971) fundada na noção de circuitos superior e inferior e tem por objetivo auxiliar na compreensão da vida econômica dos pobres. Apesar do grande mérito dessa elaboração e de seu autor argumentar que tal distinção possui total validade para qualquer país subdesenvolvido, deve ficar claro que essa contribuição envolve apenas o mundo urbano, ao passo que as iniciativas microfinanceiras atuam no urbano e no rural. A segunda seção visa delinear uma hipótese teórica específica em relação ao impacto de iniciativas microfinanceiras, no que será, em parte, ajudada pela seção que a precede.

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