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2. A GESTÃO AUTÔNOMA DA MEDICAÇÃO E O CUIDADO

3.2. Algumas pistas da objetificação do cuidado

Neste capítulo desejamos empreender uma análise das práticas de cuidado pautadas no ideal de normalidade. Não apenas porque esse ideal tantas vezes atravessa as discussões e experiências do grupo GAM de familiares, mas também porque, hegemonicamente, comparece nas práticas no campo da saúde e ainda da saúde mental de modo geral.

A normalidade, segundo Foucault (2010) adentrou na sociedade ocidental através da norma, da medicina e de processos de normalização e se constitui no seu atual modo de funcionamento. Noutro momento, o mesmo autor refere-se a essa passagem, enunciando a racionalidade médica que emerge no fim do século XVIII (FOUCAULT, 1998). Nessa lógica de cuidado (médico-centrada) todas as relações estão parasitadas pela preocupação, pensamento ou racionalidade médica.

Se o pensamento jurídico distinguia-se em lícito e ilícito, a racionalidade médica distinguia-se em normalidade e anormalidade, modo de pensamento que se funda pela norma, ou melhor, na oposição entre normalidade e desvio (FOUCAULT, 2010; CAPONI, 2009). Marcamos aqui a concepção de uma passagem/embricamento da sociedade de soberania ao poder disciplinar e do poder disciplinar ao controle biopolítico dos corpos. Essa passagem se dá, inclusive, pela via da medicalização (FOUCAULT, 2010).

55 Com a medicalização, a normalização, obtém-se uma espécie de hierarquia de indivíduos capazes ou menos capazes, aquele que obedece a uma certa norma, aquele que se desvia, aquele que se pode corrigir, aquele que não se pode corrigir, aquele que se pode corrigir com tal meio, aquele para o qual é preciso empregar outros meios. É tudo isso, essa espécie de tomada de consideração dos indivíduos em função de sua normalidade (FOUCAULT, 2010, p. 161).

O funcionamento normal ou anormal só podia ser justificado com referência a uma forma preexistente ou a um tipo específico e a norma entra nesse jogo como uma ‘regra natural’ (FOUCAULT, 1998). É definido como normal um sujeito que não se desvia para lado algum, um sujeito que se conserva como a maioria, que anda conforme a regra, um sujeito regular (CANGUILHEM, 2002).

É bom lembrar que, no vocabulário foucaultiano, a noção de norma está relacionada à noção de disciplina, isso implica dizer da passagem dos códigos jurídico-legais edificados pelo direito para o código da normalização sob o domínio das ciências humanas, a saber, pela jurisprudência do saber clínico, pelo poder sobre a vida e pelas formas de governamentalidade (FOUCAULT, 1989; REVEL, 2005).

A norma pode ser conceituada como um peso que se aplica tanto a um corpo que se quer disciplinar quanto a uma população que se deseja regulamentar, ou seja, as normas são coações que atravessam o corpo social e pesam sobre os indivíduos (FOUCAULT, 2010; FOUCAULT, 2002).

A norma corresponde à aparição de um bio-poder, isto é, de um poder obre a vida e das formas de governamentalidade que a ela estão ligadas: o modelo jurídico da sociedade, elaborado entre os séculos XVII e XVIII, sucumbe a um modelo médico, em sentido amplo, e assiste-se ao nascimento de uma verdadeira "medicina social" que se ocupa de campos de intervenção que vão bem além do doente e da doença. O estabelecimento de um aparelho de medicalização coletiva que gere as "populações" por meio da instituição de mecanismo de administração médica, de controle da saúde, da demografia, da higiene ou da alimentação, permite aplicar à sociedade toda uma di tinção permanente entre o normal e o patológico e impor um sistema de normalização dos comportamentos e das existências, dos trabalhos e dos afetos (REVEL, 2005, p.65).

É possível que o cuidado reitere práticas normalizadoras? Quais interferências tais práticas de cuidado produzem? Quando o cuidado é feito sob a égide da norma, ele traz consigo um ideal de normalidade que gira em torno do que é considerado aceitável num contexto sócio-histórico específico. A

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normalidade é o retorno contínuo a modelos ideais – por exemplo, de saúde, de

vida, de família, de infância – que ela busca conservar por meio de defesas.

Podemos dizer ainda que não existe normalização sem sofrimento: no lugar da criação de novas normas, o sujeito produz defesas e, de forma reativa, vai limitando ainda mais as possibilidades de vida (ATHAYDE & BRITO, 2011).

Modelos substancializados (de cuidado, de criança, de saúde, de família) no exercício do cuidado se engendram ao ideal de normalidade e reproduzem uma relação objetificada, em que, o sujeito é transformado em objeto, separado de sua história, de seus esforços, de seu meio (CANGUILHEM, 2002), sendo o cuidado exercido por outros sobre este, configurando, por vezes uma relação sujeito-objeto.

Nessa direção o cuidado atualiza-se como ação de retorno a um estado de saúde anterior, que se pensa perdido ou alterado e mesmo como busca por adaptação a um estado que se pensa ser o mais correto (ideal). Um cuidado normalizante, portanto, que se pretende substancializado, idealizado, adaptador, objetivado e tecnicista.

Então, podemos dizer que o modelo assistencial que opera hoje nos nossos serviços é centralmente organizado a partir dos problemas específicos, dentro da ótica hegemônica do modelo médico neoliberal, e que subordina claramente a dimensão cuidadora a um papel irrelevante e complementar. Além disso, podemos também afirmar que neste modelo assistencial a ação dos outros profissionais de uma equipe de saúde são subjugadas a esta lógica dominante, tendo seus núcleos específicos e profissionais subsumidos à lógica médica, com o seu núcleo cuidador também empobrecido (MERHY, 1999, p. 5).

Assim, compreendendo que a lógica dominante de cuidado parece indicar para um ideal de normalidade, o que empobrece e reduz a dimensão do cuidar, buscamos analisar quais efeitos essa lógica produz no trabalho que aqui problematizamos.

Traremos como analisador a questão da sobrecarga familiar, surgida no processo grupal, para pensar os efeitos da objetificação do cuidado que atravessam o grupo GAM.

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