Os conflitos provocados pela Segunda Guerra Mundial deixaram um terrível saldo em perdas humanas. A propósito, indicou Eric Hobsbawm (2007, p.20): “O século XX foi o mais mortífero de toda a história documentada. O número total de mortes causados pelas guerras do século ou associadas a elas foi estimada em 187 milhões de pessoas”.Contudo a ideia de reconstrução também era forte. No caso das potências capitalistas, capitaneadas pelos Estados Unidos, buscavam garantir seu modo de vida, a chamada civilização ocidental e cristã. Por sua vez, a União Soviética, que fora profundamente devastada pela guerra, procurou solidificar o espaço recém-conquistado no Leste europeu, assim como ampliar sua área de influência para outras regiões do globo. Era o socialismo avançando e colocando-se como alternativa ao capitalismo.
Apesar de existirem acordos sobre territórios, definidos ainda no curso da guerra, os Estados Unidos e seus aliados europeus não aceitavam correr o risco de que a URSS, com o prestígio de que dispunha ao final do conflito, pudesse se tornar referência para parte expressiva dos novos Estados que se formavam. Assim é que, em 1947, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, decidiu intervir na guerra civil travada na Grécia e que poderia levar este país para o campo do socialismo. Sobre isso,recordaHobsbawm (1995, p. 224): “A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade mergulhou no que se pode encarar, razoavelmente, como uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar”. Afinal, só em alguns momentos ela se tornou “quente”, como durante a Guerra da Coreia, no início dos anos 50, ou mesmo durante a Guerra do Vietnã.
De qualquer modo, essa disputa constante de caráter político, ideológico, econômico, diplomático, cultural, militar, nuclear, esportivo, em qualquer campo esteve presente e
influenciou as relações internacionais e específicas, nos diferentes países. No caso dos países ocidentais, foi se intensificando a ideia, que já existia mesmo antes de 1917, do “perigo comunista”. Na América Latina, e particularmente no Brasil, essa justificativa foi usada com o objetivo de tentar controlar os movimentos sociais e impedir reformas, mesmo quando essas lutas eram amplas e tinham um caráter meramente reivindicativo, contando com a participação não apenas de comunistas, mas de democratas ou de setores organizados, como os sindicatos e os estudantes. Nesses casos, particularmente, os setores conservadores, os proprietários rurais, as grandes empresas associadas ao capital estrangeiro temiam a capacidade de organização e de luta dos trabalhadores em geral.
Sendo assim, de 1945 a 1964, o Brasil, apesar de se assumir como um país democrático, até porque 1945 marca também o fim da ditadura do Estado Novo, teve uma democracia, sob muitos aspectos, bastante limitada. Se em 1945 o Partido Comunista foi legalizado, com o início da Guerra Fria, em 1947, já foi colocado novamente na ilegalidade. Durante o governo Dutra, houve intervenções em vários sindicatos, e a repressão foi utilizada ao longo de todo o período quando as forças conservadoras assim consideraram necessário.
Nos governos de Getúlio Vargas e, principalmente, de Juscelino Kubtschek, procurou- se incentivar a industrialização e a modernização do país. O capital nacional cresceu, mas, principalmente, o capital estrangeiro. A classe trabalhadora aumentou em número e organização, assim como suas reivindicações e lutas. Importantes greves foram efetivadas, com milhares de trabalhadores cruzando os braços, em especial nas regiões de maior industrialização, conquistando, muitas vezes, melhores condições de vida e trabalho. No campo, contudo, uma maior organização dos trabalhadores só se efetivaria a partir da década de 60, através principalmente da fundação de sindicatos rurais ou de ligas camponesas, embora tenham existido outras entidades e lutas específicas em alguns estados, segundo afirmaSocorro Abreu Lima(2005). Os grandes proprietários rurais, contudo, particularmente no Nordeste, não viam com bons olhos essas lutas, pois não admitiam mudanças no status quo que, com certeza, os levariam a perder seculares privilégios, podendo pôr em risco a manutenção de imensos latifúndios, muitas vezes improdutivos.
Havia diferentes projetos de desenvolvimento para o país. De um lado, a visão liberal, que defendia uma proposta de associação ao capital estrangeiro, particularmente o norte- americano, e que tinha como referência principal a União Democrática Nacional (UDN). De outro, a visão reformista, que considerava importante fortalecer o capital nacional, ao mesmo tempo em que apoiava as reivindicações dos trabalhadores. No Congresso Nacional, este grupo formava a Frente Parlamentar Nacionalista, que atuou entre 1956 e 1964 e era
hegemonizada por parlamentares do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), embora contasse com deputados e senadores de outros partidos, conforme Lucília Delgado (2003). De acordo com a mesma autora, no campo liberal, foi importante a atuação do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), fundado em 1959, que era financiado por empresários brasileiros e estrangeiros. Sendo anticomunista, apoiava e financiava iniciativas e candidatos contrários às ideias nacionalistas e às reformas de base. Também foi criado o Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes), que “fazia cerrada propaganda contra o governo Goulart e oposição aos projetos sociais por ele encampados”(DELGADO, 2003, p. 151).
Houve também algumas críticas a “teoria da revolução brasileira” a partir do PCB – Partido Comunista Brasileiro, conforme Caio Prado Jr. (1978, p.29) indo de acordo com os acontecimentos conjunturais. O autor aponta: “[...] a teoria marxista da revolução brasileira se elaborou sob o signo de abstrações, isto é, de conceitos formulados a priori e sem considerações adequadas dos fatos; procurando-se posteriormente, e somente assim – o que é mais grave – encaixar nesses conceitos a realidade concreta”. O autor se refere ao caráter praticista, num meio “carente de preparação científica”, ou seja os comunistas brasileiros incluíam fatores culturais e ideológicos vindos de fora, sem se adequar à realidade brasileira.
Essas questões marcaram profundamente a juventude mais estudada e politizada do país, principalmente a partir dos anos 60.