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CAPÍTULO IV : INTERLÚDIO TEÓRICO

3. Expectativas e Perspectivas

3.2. Algumas razões de esperanças

As informações colhidas na pesquisa, e outras decorrentes da nossa vivência e observação pessoal, possibilitam afirmar que há horizontes possíveis, apesar das contradições apontadas.

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Acacia Zeneida KUENZER. Reforma do Ensino Técnico no Brasil e suas Conseqüências. ENSAIO; Avaliação e Políticas em Educação. Rio de Janeiro, 6 (20); 374-380, Julho/Setembro, 1998.

O otimismo manifestado pelo corpo docente decorre do fato de que as Escolas Técnicas, em especial as da rede CEETEPS estão empenhadas em promover profundas alterações em seus cursos, na grade curricular e na promoção das atividades educacionais.

Não estamos sozinhos nesta leitura otimista das Escolas Técnicas. SOUZA dá notícia de um recente estudo de BONAMINO & PINHEIRO – ao qual infelizmente não tivemos acesso – no qual os autores, como nós, “sinalizam para as transformações que as Escolas Técnicas Estaduais e Federais estão promovendo em seus cursos, notadamente em termos de reformas e alterações na grade curricular, perseguindo ainda a diversificação de atividades educacionais”70. O objetivo é formar profissionais com um novo perfil, que segundo os autores “se apoia na ampliação da base geral de conhecimentos científicos e das habilidades cognitivas. Nessa perspectiva, são implementadas estratégias com diferentes graus de abrangência, que vão desde a adoção de propostas inspiradas na politecnia, passando pela articulação entre formação geral e profissionalizante, até a simples introdução de disciplinas como Filosofia e Sociologia, que se caracterizam por apelar ao pensamento reflexivo”71.

Entretanto, vale alertar que se trata de uma luta intensa travada nas Escolas Técnicas contra as investidas e os riscos de fragmentação decorrentes dos rumos da política governamental, que poderão até advir das Diretrizes Curriculares Nacionais oficializadas pelo Conselho Nacional de Educação.

Em reportagem na Coluna Educação da Folha de São Paulo do dia 11/10/99, MARTA AVANCINI afirma que o nível técnico passará a ser organizado por áreas e não mais em cursos curriculares rigidamente estruturados. Tal modalidade já teria sido aprovada pelo Conselho Nacional de Educação no dia 05/10/99 e já estaria inserido nas Diretrizes Curriculares Nacionais para educação profissional de nível técnico.

MARTA AVANCINI, em sua reportagem, refere as palavras do Professor ULYSSES DE OLIVEIRA PANISSET, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação: “As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de nível técnico, aprovadas em 05/10/99 pelo Conselho Nacional de Educação-câmara de Educação Básica, não estabelecem quais disciplinas devem constar dos currículos, só falam

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Donaldo Bello de SOUZA; Marco Aurélio SANTANA; Neise DELUIZ: Trabalho e Educação: Centrais Sindicais e

Reestruturação Produtiva no Brasil, p. 84

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Donaldo Bello de SOUZA; Marco Aurélio SANTANA; Neise DELUIZ: Trabalho e Educação: Centrais Sindicais e

em cargas horárias mínimas globais e elas são uma matriz a partir da qual as escolas vão estruturar seus cursos e currículos”. Nas palavras do Relator das Diretrizes, FRANCISCO APARECIDO CORDÃO, “As diretrizes devem tornar-se objeto de ampla discussão entre os dirigentes das escolas”. CORDÃO acredita ser importante que as escolas desenvolvam Projetos Pedagógicos de Qualidade e que atendam às necessidades do mercado de trabalho, da sociedade e dos alunos. Debates deverão ocorrer durante o ano 2000, convivendo durante o mesmo ano as regras antigas e novas. A previsão é a de que o prazo de transição para as novas diretrizes termine no ano 2001. O diretor geral do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica) do Rio de Janeiro, Professor MARCO ANTONIO LUCIDI, diz: “Antes o aluno era formado para uma profissão estanque, fechada. Agora ele tem liberdade para estruturar sua formação dentro de um leque de opções”.

MARTA AVANCINI fecha a sua reportagem com palavras do Coordenador de Ensino Técnico do Centro Paula Souza, Professor ALMÉRIO MELQUIADES DE ARAÚJO: “Sem uma mudança de mentalidade, a Reforma tende a ficar num nível superficial e talvez a proposta seja muito avançada. Há uma cultura tradicional muito forte no que se refere à estrutura de cursos”.

Ao nosso ver, essa política poderá desembocar em uma lamentável fragmentação do Ensino Técnico. É certo que as Escolas Técnicas, em especial aquelas ligadas ao CEETEPS, estão cientes desse risco e já vêm firmando, na sua reestruturação, políticas preventivas para evitar a desarticulação educacional do futuro profissional técnico. Nesse clima de alerta, elas estão atentas aos seguintes indicativos:

1. As relações entre a formação profissional em nível médio e Ensino Técnico, considerando, especialmente, o problema da parte diversificada do currículo;

2. A proposta de flexibilização do currículo, organizando-o em uma base nacional comum e uma parte diversificada, destinada à preparação para o trabalho, deve ser avaliada para que as mudanças não signifiquem um continuísmo da política educacional brasileira de seleção e exclusão;

3. A proposição da base nacional comum em áreas de conhecimento é indicativo relevante contra a fragmentação de currículo em disciplinas mas pode redundar em um esvaziamento dos conteúdos curriculares;

4. A formação humanística entendida como suporte para a cidadania abrange Filosofia, Sociologia, Psicologia, Arte e Educação Física. Entretanto estas disciplinas estão hoje ameaçadas de redução de carga-horária o que pode significar a extinção delas num curto espaço de tempo;

5. A concretização do currículo organizado por áreas de conhecimento articuladas com a tecnologia e com base na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade depende de conhecimento e sobretudo de condições intelectuais e materiais, o que exige uma definição clara do estado quanto à política de formação docente e valorização profissional, além de infra-estrutura dos estabelecimentos de ensino e condições materiais de trabalho;

6. A elaboração da proposta pedagógica com base na flexibilização curricular pressupõe o trabalho coletivo organizado sobre as relações democráticas de poder no interior da escola, que devem perpassar, também, a relação dos órgãos da administração do Ensino Técnico com as unidades escolares.

Considerados os limites e possibilidades da educação escolar, nossa opinião, a partir dos dados colhidos na pesquisa e em contatos posteriores com os docentes das Escolas vinculadas ao CEETEPS, é que a atual reestruturação em curso nessas escolas poderá conduzir a um perfil de profissional, que eu qualificaria como “cidadão-técnico”, com as seguintes características:

a) Desenvolvimento de uma razoável percepção crítica (aqui entendida como superação do “senso comum”), da realidade brasileira e seus problemas estruturais e conjunturais;

b) Compreensão crítica das complexas relações entre educação, trabalho, mercado de trabalho, Estado brasileiro e a conjuntura mundial;

c) Capacidade de identificar, analisar e apresentar propostas para a superação de problemas dentro de sua especialidade profissional, aqui envolvida a competência para aplicação dos conhecimentos aprendidos durante o seu curso de origem;

d) Perceber que a sua prática profissional, enquanto aluno egresso de um curso técnico de nível médio, é, em essência, uma prática social, portanto, comprometida com a sua própria sobrevivência e também, com a transformação da

realidade, tendo em vista o bem comum;

e) Desenvolvimento mínimo de competência profissional, visto que o desenvolvimento pleno é um processo contínuo, permanente, dentro do contexto histórico, o que deverá ocorrer nas condições objetivas do trabalho;

f) Perceber e interiorizar, sob a forma de atitudes e comportamentos, que a competência apresenta uma tríplice dimensão: técnico / ética / política. Não existindo, portanto, neutralidade nela. Ela estará sempre a serviço de uma causa e não de outra, dependendo, pois, da postura do trabalhador diante da vida e do mundo.

Essas características revelam um certo “ideal de aluno” que se pretende formar. Entretanto, é óbvio que o processo de formação é mais amplo do que a escola, envolvendo toda a prática social do cidadão. A escola informa e forma dentro de sua especificidade e autonomia relativa.

O fato de explicitarmos essas expectativas, que poderão despontar da prática educacional dos cursos técnicos, não significa, de forma alguma, uma idealização ingênua daquilo que entendemos ser o trabalho educativo. Significa, sim, lidar com a realidade objetiva como ponto de partida, a realidade do aluno que, de fato, procura, entra e freqüenta as Escolas Técnicas e em particular a rede Paula Souza. E é com este aluno que a Reforma Curricular buscará um caminho, tendo a reflexão – consciência crítica – como mediadora permanente de todo o processo.

A educação, apesar de todos os limites a ela impostos pela estrutura e funcionamento da sociedade brasileira, deve assumir o desafio de construir uma proposta curricular para o Ensino Técnico com uma qualidade capaz de propiciar aos alunos e professores um exercício diário de crescimento e desenvolvimento da teoria e prática das relações entre cidadania, trabalho e transformação social, tendo como horizonte a melhoria da qualidade de vida da população como um todo.

Em síntese, confiamos na possibilidade da educação técnica se tornar uma experiência significativa na vida do aluno, algo que o qualifique para a cidadania e para o trabalho.

Em consonância com a missão e diretrizes do CEETEPS, e dentro de suas atribuições gerais de orientar e coordenar o planejamento e a execução das atividades de ensino nas unidades do Ensino Médio por meio dos Grupos Técnicos de Planejamento Escolar (GTPE), Grupo Supervisão Escolar (GSE) e Grupo de Atividades Técnico Culturais (GATC), acreditamos que esteja se implantando, no âmbito do CETEC (Centro Tecnológico), um trabalho político-pedagógico nas escolas, voltado para a formação de um cidadão-técnico competente.

Por cidadão-técnico competente entendemos o jovem com sólida formação geral, domínio de conhecimentos e habilidades e desenvolvimento de atitudes que possibilitem a qualificação de profissionais com capacidade crítica, inovadora, de responsabilidade e compromisso social.

É importante observar que os aspectos explicitados trazem na sua articulação uma concepção do ser humano, situado no tempo e no espaço, síntese de múltiplas e contraditórias influências, isto é, percebido na sua totalidade, inserida num contexto mais amplo.

Afastando a tentação do desânimo, as escolas técnicas deverão persistir na direção proposta com a preocupação e um trabalho direcionados para a formação de um profissional- técnico de nível médio – tendo como eixo central a formação da cidadania, o que inclui, é claro, o preparo para o mercado e para o mundo do trabalho, visto que é pelo trabalho que o sujeito exerce sua cidadania, enquanto consciência e prática de direitos e deveres, comprometido em fazer da sua atividade laborativa um meio de realização profissional, auto- sustentação, como também ter uma participação na transformação da sociedade como um todo. Em outras palavras, todo o esforço institucional deverá estar voltado para uma outra concepção de ser profissional que supere aquelas restritas à “formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho”.

Acreditamos que poderiam servir como sugestão para todo o Ensino Técnico Nacional as seguintes diretrizes definidas pelo CEETEPS:

1 – Currículos permanentemente atualizados nos seus aspectos científicos, tecnológicos e didático-pedagógicos, que atendam às necessidades compartilhadas pelo trabalhador e pela empresa;

2 – Gestão participativa, por meio da definição conjunta das propostas de trabalho, assegurando a democratização do processo de ensino e aprendizagem;

3 – Política de recursos humanos que assegure a valorização dos docentes e do corpo técnico- administrativo, por meio de capacitação, regime de trabalho, evolução funcional e recrutamento;

4 – Relações de parceria escola-comunidade, por meio de convênios, prestação e extensão de serviços vinculados ao ensino, e desenvolvimento de pesquisa científica e tecnológica.