Sempre que penso em racionalizar sobre as motivações e os caminhos que adotei durante minha
pesquisa, volto velha questão: “Ninguém sabe ao certo como fe z seu trabalho de cam po”. Tudo o que
podemos oferecer é um quadro parcial e seletivo.
No entanto, acredito que esse esforço reflexivo é profícuo, na medida em que desvenda, seja
contando, seja tentando ocultar, “quem” fala. E uma tentativa de "na representação do outro, quando
contamos nossas histórias, ... nos perguntar que história contamos, como a contamos e para quem a contamos” (Salazar,1991:9).
Um objetivo limitado pelo alcance e proposta dessa dissertação, mas uma intenção inegável,
frente a um a antropologia que empreende um grande esforço reflexivo.
Em relação essa pesquisa, creio que o nó m aior se deu em função de m inha identidade, ou
melhor, de m inha identificação em relação não só aos informantes, mas também ao jornalismo. Essa
identificação truncada, permeada por dúvidas próprias relativas ao assumir ou não a profissão,
engendrou situações e impasses.
Num primeiro momento, o impasse era a dificuldade de conseguir estranhar o grupo estudado.
Se essa preocupação foi vívencíada enquanto real por muito tempo, hoje percebo que ela se transformou
durante a pesquisa, através dos encontros com os jornalistas. O estranhamento, ou o terreno fértil onde
ele poderia se desenvolver já estava colocado desde o inicio — foi ele que motivou a pesquisa.
Ao mesmo tempo, minhas indagações acerca da construção do “outro” foram amortizadas pela
constatação de que, principalmente quando era jornalista eu era pesquisadora. Ou seja, o distanciamento
não se produzia negando a identificação com os jornalistas. Ele estava colocado, de antemão, pela
construção do objeto de estudo, uma construção que é constantemente refeita e aprimorada a partir da
pesquisa.
Foi apenas quando me descobri jornalista, que pude continuar a ser pesquisadora. E os encontros
mais produtivos do ponto de vista da observação e da percepção do que pode mover os jornalistas, se
deram quando assumi inteiramente a profissão, porque me permitiram um íoczis privilegiado de
Em relação a essa questão cabe ainda mencionar que o fato de ter mantido encontros com
jom alistas amigos, não afetou significativamente a pesquisa. Ou melhor, talvez tenha afetado, mas num
sentido diverso; hoje, superdimensiono a em patia necessária aos encontros etnográficos.
Nesse sentido, concordo com Sidney M intz (1984) quando adverte que não podemos tomar como
pressuposto do estranhamento que ‘relações sem afeto ” produzam maior honestidade do que relações
com afeto. Não podemos mensurar a veracidade do que é dito pelo afeto desenvolvido na relação
estabelecida. Mesmo porque nem sempre estamos interessados em saber até que ponto o dito
corresponde ao real.
Mas também não podemos deixar de observar que o tipo de envolvimento que temos com os
informantes, suscita diferenças. Em meu caso especifico, as entrevistas com amigos foram mais faceis,
mais tranqüilas.
Penso que a análise que faz Vicent Crapanzano (1991), acerca das possibilidades de diálogo,
talvez explique essa diferença. Analisando os pressupostos de Gadamer, Crapanzano identifica três
tipos de diálogo, “três modos de se entender o outro”. O primeiro busca entender o típico, o previsível
no outro; o segundo entende o outro “enquanto p esso a ”, mas referenciado em si mesmo; o terceiro
modo “imediato, autêntico”, difere do segundo porque não possui a pretensão de entender o outro. “Os
falantes, no entanto, têm consciência de suas situações históricas - suas idéias e pré-compreensões - e, assim, estão abertos s questões e intenções de seus interlocutores” (1991:62).
A diferença cmcial entre os dois últimos modos é a mesma diferença entre “te r” uma conversa e
“engajar-se " numa conversa e, para Crapanzano, “a livre associação e as entrevistas abertas são. geralmente, um meio termo entre as duas "(idem: 63 .
Pensando em minhas conversas e entrevistas com os jom alistas percebo que, quanto maior a
empatia, mais fácil era engajar-se na conversa.
Esse engajamento, no entanto, era matizado pelo tipo de conversa que iríamos estabelecer: com
os jom alistas mais próximos os encontros informais, independente do conteúdo de nossas falas, era rico,
produzia o que Crapanzano chama de “fa to criativo, fa to fé r til”.
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Sua análise dos “diálogos ocultos” que mantemos com “para quem escrevemos" também é bastante interessante.
Se, ao contrário, era formal, com um gravador, operava uma retração. Mudávamos eu, que
sempre sofria do mal da esquizofrenia metodológica, e os jornalistas, que se investiam da postura de
entrevistados.
Em relação essa questão, cabe ainda mencionar que não me preocuf>ei muito com questões
éticas^" sobre o que utilizar ou não das falas que colhi durante o fieldwork. Talvez porque tenhamos nos
restringido principalmente aos assuntos ligados diretamente ao exercício da profissão, fícando outros,
fundamentais para compormos um quadro, como pano de fiindo. Talvez porque, sendo todos jornalistas,
saibam o risco que correm ao se revelar^ numa entrevista, seja para um a reportagem, seja para uma
dissertação^*.
De tudo o que foi posto, creio que o risco maior, que sempre esteve presente em meu trabalho, é o
mesmo que se coloca para outros pesquisadores: assumir o senso comum daquele universo para explicá-
lo. Em outras palavras, revestir de verdade científica as explicações do próprio campo acerca de seus
mecanismos.
Esse senso comum, expresso nos discursos que transitam no campo, sejam eles falados ou
escritos, revelados ou não, permeiam toda a pesquisa. No caso do campo jornalístico, formado por
agentes caracteristicamente discursivos, existe um a grande profusão de meta-discursos.
Como uma pesquisadora, ainda mais sendo jornalista, pode encontrar outras explicações (que
não as já correntes), para problemas colocados dentro daquele universo, ou, melhor ainda, encontrar
outros problemas para aquele universo?
Confesso que não sei se conseguirei este intento. É um movimento aparentemente óbvio e
simples, mas que requer um a im ensa dose de suspeição, de reflexividade, no dizer de Giddens (1991).
Exige um suspeitar corriqueiro do que é dito e mostrado e, principalmente, do que passamos a dizer.
Talvez devêssemos trocar o distanciamento por suspeição. Acerca do que ouvimos, vemos e,
principalmente, acerca das questões que nos colocamos enquanto pesquisadores que se propõem a dizer
algo, sobre alguma coisa.
Sobre as dificuldades éticas em se usar depoimentos de “amigos”, indico a leitura de Roseli Buffon (citada)
'^Janet Malcom, em seu interessante "O jornalista e o assassino”, no entanto, faz algumas ponderações: “Alguma coisa parece acontecer com as pessoas quando elas conhecem um jornalista e o
que acontece é exatamente o oposto do que seria de se esperar. O mais lógico seria que uma extrema cautela e prudência estivessem na ordem do dia, mas a conjiança infantil e a impetuosidade são de fa to muito com uns” {\990.3Z)
Talvez, também, porque eu tenha um viés jornalístico romântico tão arraigado, que meu compromisso com as fontes esteja de antemão colocado.
Enquanto pesquisadores que desejam elaborar um discurso científico, mesmo que nossa noção de