2.2 MAX SCHELER
2.2.1 Algumas reflexões sobre a filosofia de Max Scheler
O intuito principal aqui não é apresentar uma análise detalhada da filosofia e das obras de Max Scheler (1874-1928)11, mas poder situar alguns aspectos pertencentes à sua filosofia que se fazem necessários para o entendimento do principal tema aqui estudado: os valores. O propósito é expor alguns aspectos de sua vida, destacando alguns estudos do filósofo que foram expostas em suas obras e apresentar sinteticamente a maneira como Scheler percebia a filosofia no seu tempo e seu lugar na história.
Max Scheler é considerado um filósofo contemporâneo e no “pensamento contemporâneo são dois temas culminantes: o valor e a pessoa” (SOUZA, 1953, p. 07), sendo que o valor da pessoa é superior a todo valor de coisas. Assim, Scheler dedicou-se, principalmente, a aprofundar estes dois temas oferecendo um amplo estudo sobre os mesmos. “Dos filósofos contemporâneos poucos encaram com mais vivência, com mais concretitude prática esses dois temas como Max Scheler.” (SOUZA, 1953, p. 07). De início, cabe destacar que sua vida foi dedicada a escrever para filosofar. A filosofia, para Scheler, caracterizava-se pelo amor ao saber; amor àquilo que nos toca, que é percebido e sentido. Para Scheler, o saber realiza o homem.
Nesse sentido, Scheler era um filósofo questionador, reflexivo, procurava o sentido da vida e o lugar do homem no mundo. Max Scheler viveu num momento conturbado, de tensões na Alemanha. Ao final da Guerra, entre 1914-1918, ficou encarregado pelo Ministério das Relações Exteriores de representar a Alemanha durante as negociações de paz em Haia e Genebra (MATHEUS, 2010, p. 16). O capitalismo crescia aceleradamente e havia um crescente processo de industrialização na Alemanha. Neste cenário, foi escrita a sua obra mais importante, entre 1913 e 1916, sustentada na teoria da percepção emocional dos valores. Intitula-se O formalismo na ética e a ética material dos valores, no qual faz a distinção entre o caráter a priori dos valores e sua materialidade, sendo que o a priori material é definido como o princípio de todo conhecimento possível. “[...] existem qualidades axiológicas autênticas e verdadeiras que constituem um domínio próprio de objetos que guardam entre si relações e correlações válidas a priori.” (COSTA, 1996, p. 41). Nesse sentido, os valores são objetivos e materiais, como qualquer outra classe de objetos, pois independem do sujeito que os percebe.
Em, O formalismo na ética e a ética material dos valores, Scheler desenvolve uma vastíssima investigação sobre o fenômeno do valor, das essências em geral, entre as
11 Max Ferdinand Scheler nasceu em 1874 em Munique, na Alemanha. Morreu aos 54 anos em 1928. É
considerado um filósofo contemporâneo e dedicou-se a vários temas da filosofia, entre eles: valores, ética, homem, saber.
quais se situa o valor com primeira intuição pura de essência, anterior a toda posição de existência e de qualquer delimitação de objetos; as relações entre os conceitos de a priori, formal e material; os fundamentos antropológicos da intuição sentimental do valor, situada entre os vários estratos da vida perceptiva do espírito, as relações de grau e hierarquia dos valores entre si, comparativamente, com o que desenvolve uma antropologia da pessoa, o seu ‘personalismo ético’. Também a relação de fundamentação do valor com os objetos chamados bens, com os deveres e finalidades, enfim, com uma ampla teoria do preferir e do agir humanos, e da caracterização da pessoa moral. Scheler desenvolve esta investigação fazendo ao mesmo tempo uma crítica comparativa aos fundamentos de várias éticas propostas na história do pensamento, como a ética dos bens, a ética imperativa e formalista, a ética utilitarista. É a partir deste confronto com as demais proposições de fundamentação ética que vai se delineando o primado do valor como fundamento de qualquer conhecimento, entre os quais o conhecimento da razão prática ou ética (VOLKMER, 2006, p. 89).
Entendendo a filosofia como fundamentação necessária a todas as áreas do conhecimento humano, Scheler tematiza muitos assuntos relativos à filosofia. Sua metodologia adaptava-se a diversos temas, contando com o conhecimento de outras ciências, mas sempre aprofundando seus interesses temáticos na filosofia. Entendia que a filosofia deveria servir ao homem para este compreender a vida e o mundo e, por isso, necessitava de um enfoque para investigar. A obra scheleriana conta com uma multiplicidade de temas. Nesse sentido, a fenomenologia12, para Scheler, não se caracteriza como método, mas como enfoque. É um olhar mais atento a um determinado objeto.
O pensamento de Max Scheler é profundamente marcado pelo fato de receber o seu impulso e orientação mais das coisas e dos problemas do que propriamente
12 Fenomenologia é um enfoque metodológico das ciências humanas. È considerada a escola do pensamento
contemporâneo por buscar ênfase ao mundo da vida cotidiana, um retorno à totalidade do mundo vivido. Não se apega totalmente às coisas observáveis, mas corresponde às questões de natureza não-fáticas. A fenomenologia teve como precursor Franz Brentano, sendo, no entanto, o filósofo Edmund Husserl o formulador das principais linhas dessa abordagem, abrindo caminhos para outros pensadores contemporâneos. O método fenomenológico busca relacionar os fenômenos e a essência. Tem como objeto de investigação o fenômeno, o que se mostra a si e em si mesmo tal como é. Exalta a interpretação do mundo que surge intencionalmente à consciência, enfatizando a experiência do sujeito. (Cf. COLTRO, 2000, p. 37- 9). A Fenomenologia entende que “A Consciência não é mais, consequentemente, uma parte do mundo, mas o lugar de seu desdobramento no campo original da intencionalidade. Isso significa que o mundo não é em primeiro lugar e em si mesmo o que explicam as filosofias especulativas ou as ciências da natureza, já que essas explicações são posteriores à abertura do campo primordial, mas sim que ele é em primeiro lugar o que aparece à consciência e a ela se dá na evidência irrecusável de sua vivência. O mundo não é assim nada mais que o que ele é para a consciência. ‘O mundo na atitude fenomenológica, não é uma existência, mas um simples fenômeno’” (Cf. DARTIGUES, 2008, p. 25).
das filosofias e dos pensadores. Nele a vida se confundia com a filosofia e a filosofia com a vida. Apesar disso, é necessário levar em conta o contexto filosófico e cultural da época, pois seu pensamento foi por ela condicionado, senão em termos de conteúdo, pelo menos no que se refere a temática e método. [...]. Se situa no centro do movimento que marcou mais profundamente a filosofia e a cultura contemporânea: o movimento fenomenológico. Embora seu pensamento reflita as preocupações da época, não perde, por isso, o alcance universal das abordagens autenticamente filosóficas. (COSTA, 1996, p. 10).
Scheler, ao lado de Husserl, inicia o movimento da Fenomenologia. “Max Scheler era um ‘gênio’ vulcânico. Duas coisas o ligaram à fenomenologia: ‘a aversão pelas construções abstratas e a capacidade de captar intuitivamente a verdade da essência’.” (REALE, 1991, p. 567). Entretanto, havia uma diferença entre a filosofia de Husserl e a filosofia de Scheler: “Enquanto Husserl se ocupava das coisas como entes essenciais acessíveis à consciência, Scheler se ocupa dos valores como essências valiosas acessíveis aos conhecimentos” (VOLKMER, 2006, p. 16), ou seja, com a objetividade das coisas, possibilitando descrever vivências subjetivas da consciência. Para Scheler, a percepção das essências se dá intuitivamente e não são produzidas pelo sujeito.
Portanto, a fenomenologia não estabelece um fim. Ela deve estar aberta a qualquer caminho que se apresenta para atingir seu objetivo. Scheler acredita que a filosofia baseada na fenomenologia deve ter um contato vivencial com o mundo, com os objetos em questão. “Esse contato deve ser vivo, intensivo e imediato no mais alto grau com os objetos tal como se oferecem de forma imediata na vivência, ou seja, no ato da vivência, e tal como eles mesmos existem nesse ato e somente nele.” (COSTA, 1996, p. 85).
Como fenomenólogo, Scheler parte do dado primário da realidade, fazendo uma investigação do valor, sendo que o dado primário é apreendido antes de qualquer sensação ou qualquer pensar. Desse modo, o que interessa é o dado a priori, ou seja, aquilo que é intuído, não constituído. É sempre dado na experiência e nunca é anterior a ela. Esse dado a priori é um objeto que intuímos na experiência de intuição do espírito, podendo ser emocional ou racional. Nesta filosofia, o ato emocional intui o conteúdo que ainda não nos é acessível pela razão. O sentimento de amor ou de ódio é que vai nos direcionar a este conteúdo. “O primeiro objeto da filosofia nos é dado por uma intuição emocional.” (VOLKMER, 2006, p. 34). Além disso, investigou os fundamentos epistemológicos do processo de construção social dos valores, pois acreditava que os valores não se apreendem por questões universais, mas se constituem através do grupo social, ao qual o indivíduo pertence. Dependendo da sociedade e da época vivida, os valores diferem. São objetos reais, que podem ser percebidos através da sua realização ou partir da intuição emocional.
Na fenomenologia, novos objetos surgem para investigação. Então, Scheler, com a fenomenologia
encontra a possibilidade de elucidar as vias de conhecimento de objetos que foram progressivamente desprezados pelas emergentes ciências positivas, ou mesmo nunca foram adequadamente distinguidos, como os valores, os afetos, os fatos culturais, por serem considerados pouco objetiváveis. (VOLKMER, 2006, p. 16).
Na sua filosofia, ele procura explicar aquilo que a fenomenologia somente descreveria, pois a filosofia tem a função de criar, construir, criticar, investigar, analisar, funções assumidas pelo homem, em cada época. Esta atitude filosófica permeia todas as etapas das obras de Scheler e carrega um sentido ético.
Seguindo sua postura fenomenológica, Scheler enfatiza que as diversas visões filosóficas servem para descrever os fenômenos em questão. Ele não descarta as definições de outras visões filosóficas. Ao contrário, em todos os seus estudos, ele coloca sua visão, lado a lado, com essas outras perspectivas filosóficas.
Considerando seus temas de interesse, além de apresentar uma importante teoria dos valores, destacam-se, também, os estudos sobre a vida cotidiana do homem e suas ações, referenciando sempre a ideia de um homem total. Desse modo, a antropologia também se torna um tema de bastante relevância nas suas obras, sempre associado com a temática da ética.
Poderíamos dizer, no entanto, que Scheler foi um dos primeiros filósofos a utilizar temas transdisciplinares para elaborar uma completa antropologia de caráter filosófico, porém sustentada pela efetividade das diversas esferas de ser presentes no homem e suas relações internas. Teve por isto que dialogar com o método e os conhecimentos adquiridos nas diversas ciências particulares sobre o homem, como a medicina, a biologia, a psicologia, e a sociologia. (VOLKMER, 2006, p. 47).
Juntamente com a questão do homem, o saber também ocupa destaque nos estudos de Scheler e, a partir deste tema, ele articula a questão da educação, tema em que se discorre mais adiante.
Sobre suas obras e sobre sua vida de filósofo, Schaefer (1995) enfatiza que há grupos de teóricos que sustentam que, durante os estudos de Scheler, não há uma divisão em fases, mas uma continuidade e unidade da sua obra. Outros, porém, enfatizam que há duas fases bastante distintas, havendo uma ruptura na sua filosofia. Mais precisamente, em
1922, haveria uma fase de decadência de seus estudos. Há ainda outro grupo de teóricos que aponta a divisão de três fases na filosofia scheleriana, não havendo rupturas. Schaefer concorda com a última posição, destacando que, após 1922, há uma mudança de orientação, mas, por sua vez, havendo manutenção dos temas anteriormente desenvolvidos. Após 1922, Scheler preocupa-se com a questão do homem, construindo seus estudos na antropologia como ciência filosófica fundamental. Esta ciência objetiva definir a “essência do homem, suas relações com a natureza e sua situação no ser.” (SCHAEFER, 1995, p. 33).
Scheler tornou-se crítico de Kant por entender que antes da razão, o ser humano possui sentimentos que não são condicionados pela mesma. Scheler reconhece que a razão pura não compreendeu os atos espirituais como intencionais, nem os objetos destes atos. Colocou-as fora da cognoscibilidade. A razão pura, para Scheler, está ligada a vivências e relações. Kant exclui o material do fundamento de todo o conhecimento, confundindo-o com o a posteriori. Relaciona o a priori somente com o formal. Rejeita o dado material a priori, sendo que o formal é dado como constituído e o material, ao contrário, é autodado, dado por si mesmo anterior a toda constituição de objeto constituído. Scheler destaca que os valores serão, pois o a priori material e objetivo de todo conhecimento teórico. É com a fenomenologia que Scheler descobre um a priori diferente de Kant.
O equívoco fundamental da ética kantiana está configurado no que Scheler denomina formalismo, ao qual opõe a ética material fundada na objetividade dos valores. O apriorismo que caracteriza toda filosofia e garante a universalidade e necessidade do conhecimento filosófico não se identifica, segundo Scheler, com o formalismo proposto por Kant, pois existe o mundo dos valores que também goza de uma validade a priori e, no entanto, é absolutamente objetivo e material. (COSTA, 1996, p. 42).
Da mesma maneira, Scheler procurava descrever as dimensões do pensamento, nas intuições de caráter emocional e na materialidade do conhecimento desenvolvido nas bases sócio-culturais. O conhecimento, para Scheler, parte da experiência, tanto a experiência emocional quanto a experiência vivida na sociedade. Nessa perspectiva, os valores são intuídos através da experiência emocional e social.
Dentre suas principais obras, além da obra já citada O formalismo na ética e a ética material dos valores; destacam-se: Da Reviravolta dos Valores; Posição do homem no cosmo; Visão Filosófica do Mundo; Essência e formas de Simpatia.
A sucinta descrição da vida e obras de Max Scheler serve para auxiliar na compreensão e entendimento sobre alguns pontos de vista e ideias pertinentes à sua filosofia, aos seus objetos de estudo, suas preocupações enquanto filósofo e enquanto pesquisador da vida do homem e suas relações com o mundo, bem como, outros interesses como a cultura, o saber, a educação, os valores e a ética, detalhes esses que auxiliam no conjunto do texto.