Desconfiar. (Des)con-fiar. Fiar só.
Sem alguém com quem fiar, perdemos nosso interlocutor, nosso ouvinte, aquele a quem podemos confiar - confiar nossas experiências, nossas histórias, façanhas, medos. Para narrar é preciso se estabelecer uma relação de confiança. Sem ela, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes (BENJAMIN, 1996:205). Em quem confiamos na escola? As falas das professoras parece responder a essa pergunta inequivocamente: a poucas pessoas.
A desconfiança parece provocar um imenso abismo entre todas nós, professoras do grupo da alfabetização e do outro grupo. Desconfiança que vibra nas palavras, em nossas recordações de um tempo que vai sendo escavado, ainda sob escombros mas que também provoca novas ruínas. Uma desconfiança na qual nos deixamos abandonar para ver no outro o nosso quase inimigo. O choque entre nós e
eles parece inevitável. Nós que queremos mais da escola, e eles que desejam sempre o
retrocesso. Nós que somos a salvação. Eles que são o nosso inferno.
É preciso olhar bem. Olhar de novo o que vivemos para, quem sabe, ver as origens das desconfianças, nossas e deles. Para ver nos rostos dos nossos antagonistas as marcas de nossos próprios rostos. Olhar novamente o passado para reencontrar nossas cegueiras, mas também nossas virtudes. E as dos outros. Olhar para o passado para entender o porquê de boa parte da hostilidade que nos habitava, e que ainda vive em nós.
Olhar bem para o passado para descobrir porque ainda sofremos do mal da desconfiança, da repulsa, da intolerância.
O suposto atraso que a chamada prática alfabetizadora tradicional imputa a escola aparece nos discursos de muitas professoras ao longo dos anos, no cotidianos da escola, nas entrevistas que fiz no mestrado e ao longo dos encontros do Grupo de Estudos, Gefel, como necessitando ser denunciado e eliminado do cotidiano da instituição escolar. São as práticas tradicionais as supostamente responsáveis pela crise que o ensino vive, crêem algumas professoras. Então, é preciso eliminá-las.
As professoras do pré-escolar que chegam ao 1º segmento se auto-anunciam como o novo, como a modernidade que quer espaço para se estabelecer. Se opõem as práticas das professoras do 1º segmentos, estas vistas como tradicionais, ou seja, alinhadas as formas de ensino supostamente improdutivas e ineficazes. A tradição se configura como atraso. O novo como progresso. Digo isso sabendo que na minha
modernas, reafirmando o discurso da incompetência do outro. Digo isso sabendo que é preciso, por outro lado, uma certa compreensão com o que fizemos e dissemos pois que era o possível para nós naquele momento. Digo isso sabendo que de certa forma éramos reféns do discurso que produzíamos sobre o outro, um discurso que tínhamos que vigiar, alimentar, cuidar para que se mantivesse acordado. E também o outro em relação a nós. Quem domina: os discursos sobre o outro nos dominam, ou nós a eles?
Na escola, identidades fixas: grupo do pré. Pessoal de 3ª e 4ª. Professoras
construtivistas. Professoras tradicionais. Grupo do CA e 1ª série.
Identidades cravadas em sistemas de verdade, sem, portanto, negociações possíveis. Identidades pensadas como oposições. Como marcas, fechadas em um sistema simplificador. Identidades simplificadoras dos sujeitos, de suas histórias, de suas práticas.
O outro traduzido como estranho. Tornada familiar por nossa simplificação. O outro como ilegível. Ou com uma legibilidade opaca. O que vejo no outro? Sabemos que o olhar do outro não é neutro, é uma percepção que provoca um alerta emocional, uma
sensação de convite ou de intrusão. (CYRULNIK, 1995:42). Convidamos o outro ou o
obrigamos a nos seguir? De que maneira queríamos a adesão das outras professoras a nossa causa? Em que medida nossas ações mais afastaram que aproximaram as outras professoras? Em nós não moraria uma ameaça constante: ao desconsiderar as práticas e concepções de ensino das outras professoras, não estaríamos desejando torná-las iguais a nós, matando suas experiências, eliminando suas histórias? Não estaríamos produzindo uma relação onde nos colocamos como modelo salvador para o outro? Não estaríamos com nossos procedimentos e discursos, mesmo sem saber, prometendo a morte de quem é a professora sou e sua posterior ressurreição em um novo eu: de tradicional à construtivistas. De incompetente à modelo docente. Não terá sido isso que fizemos sem saber?
O que isso me leva a pensar? Na distância. Não aquela que cria o cronotopos
(BAKHTIN, 2000), mas a que evidencia a cegueira que nos toma a vista e na qual não
enxergamos no outro nada além daquilo que queremos. Pensar a escola e o que nela ocorre não é apenas investigar as práticas pedagógicas mas é também buscar entender como as relações complexas que entre os sujeitos acontece. E isso exige tempo, um mergulho no cotidiano, como diz Alves (2001). Ao mesmo tempo, pensar em um projeto de formação continuada de professores, especialmente aqueles que pretendem focar suas ações na escola, necessita levar em conta todas essas tensões e conflitos que ora se explicitam ora se ocultam, especialmente para aqueles que não conhecem o lugar: a escola real.
As falas que trago como colecionadora, nos mostra que identificar o outro, nomeando-o, é de certa forma exercer sobre ele um certo poder: o poder de dizer quem ele é. E de reter esse existir em uma imagem fixa. Identificar o outro produz certas verdades sobre este, ao mesmo tempo que sobre quem o identifica. Ao nomear de tradicional ou construtivista, revelamos conhecimentos e desconhecimentos sobre o sujeito nomeado, posto que a nomeação raramente é aleatória, mas ancorada em alguma experiência concreta entre aquele que diz e aquele sobre quem se diz. Esta experiência, no entanto, acaba por cristalizar o sujeito, apagando os múltiplos processos de mudança, de ruptura, de deslize, movimento, cruzamento, encontro e reencontro que caracteriza a existência de cada um de nós. Skliar (2003) nos desconcerta ao dizer que todos somos, em certa medida, outros (p.23)
O que revelaria a resistência das professoras, de ambos os grupos? Que o outro é ao mesmo tempo aquele que rejeito e que desejo encontrar? Que busco o diálogo mas com quem não consigo falar? A resistência denunciada em muitas das falas das professoras, não seria parte de um processo onde a contradição nos habita? Resistir e aceitar. Acolher e afastar. Ouvir e só falar.
Que testemunhos damos do nosso passado? O que dizemos sobre ele? O que fazemos dessa rememoração? As memórias vão em prosseguimento, agora com o dizer sobre o trabalho das classes de alfabetização. As professoras que compunham esse trabalho no início dão seu testemunho.