A estrutura NprepN atende ao padrão sintático regular em português, como se pode observar nos exemplos arrolados por Mattoso Câmara Jr. (1979, p. 213): estrada de ferro, mestre de cerimônia e oficial de justiça. A flexão de número, incidindo sobre o núcleo, evidencia essa aproximação com sintagmas livres: estradas de ferro, mestres de cerimônia, oficiais de justiça7.
Trata-se, portanto, como aponta Bustos Gisbert (1986, p. 72), de compostos que mais se assemelham a sintagmas nominais da sintaxe livre, caracterizados pelo “degré faible de figement” (LE PESANT, 2003, p. 105). O fato de serem, em regra, semanticamente composicionais – e, portanto, endocêntricos – e de poderem constituir séries léxicas alargadas, em que o termo da direita, não nuclear, é comutável no âmbito de determinado paradigma lexical, torna, sem dúvida, essa estrutura produtiva, principalmente no domínio da criação lexical terminológica (LE PESANT, 2003, p. 105, 108)8.
Compostos com a configuração NprepN não são abonados na gramática da língua portuguesa de João de Barros, de 1540, onde a composição é descrita, relativamente ao número de unidades envolvidas, como sendo de “duas partes”
significativas (como em «rede-fole», «arquibanco», «torçicólo» etc.)9, mas há referência a construções envolvendo uma preposição e um nome («tràspé, de trás e pé»). Na gramática filosófica de Jerônimo Barbosa (1881 [1822], p.
85), é referido que o composto pode envolver «três palavras», sendo a terceira palavra, como se depreende dos exemplos arrolados pelo autor (capaemcollo, fidalgo, malmequer, vent’apôpa), um elemento gramatical.
Em Nunes (1956, p. 368), a referência ao padrão português NprepN aparece relacionada com a substituição do genitivo pela preposição de. A res-peito da forma condestável, Nunes levanta a questão de que ela poderia provir
7 Nesse mesmo sentido, Said Ali (1964, p. 261) afirma, sobre a estrutura NprepN, que «[c]
ondiz a formação desta espécie de palavras compostas muito com a índole da língua».
8 Le Pesant (2003, p. 108) exemplifica com o esquema verre à N<boisson>, partindo da su-posição de que os compostos a seguir não estão atestados em vocabulários específicos: verre à xérès, verre à marsala..., verre à tokay, verre à pinot noir..., verre à beaujolais, verre à chianti.... Essas palavras compostas foram criadas a partir do paradigma lexical dos nomes de vinho (verre à bordeaux, verre à bourgogne, verre à champagne, verre à porto etc.) e estão prontas para suprir eventuais necessidades terminológicas dos setores ligados à produção e comercialização desses possíveis produtos.
9 João de Barros (1971 [1524], p. 307-308) refere-se à grande facilidade dos gregos na formação de nomes compostos, acrescentando que «às vezes compõem ũa diçám de quátro significádos
diretamente do latim Com(i)testaBuli ou poderia ter se formado no período arcaico da língua, em que era comum omitir a preposição de, diferentemente do uso atual, «que sempre a põe clara, como se vê em mão-dobra, espírito-de--vinho, etc.»10. Também gramáticas do português contemporâneo, como a de Cunha e Lindley Cintra (1985), por exemplo, contemplam, em capítulo sobre a composição, a estrutura NprepN.
É importante salientar que algumas formas aglutinadas (fidalgo, por exemplo) são o resultado de um processo de coalescência morfofonológica de estruturas justapostas NprepN11 (SANTOS, 2012), já semanticamente lexicalizadas, o que permite a inclusão desse tipo de estrutura no estudo dos compostos, embora tais formas não estejam sujeitas a uma análise morfoló-gica sincrônica por ocorrer a perda de fronteiras entre morfemas (BRINTON;
TRAUGOTT, 2005, p. 54). Por outro lado, a estrutura-base dessas unidades monoacentuadas não pode ser tratada apenas como uma estrutura “petrifica-da”, também resultante de um processo histórico, mas como o resultado da escolha de um determinado sintagma para um determinado referente, como aponta Bustos Gisbert (1986, p. 73)12.
10 Vasconcellos (1959, p. 308) se refere à perda da preposição de em nomes geográficos compostos: «A tendência geral da língua, quando o complemento começa por consoante, é simplificar estes compostos, suprimindo a preposição (e até fazendo outras alterações)», como em Casal-Tras-Cova < Casal de Tras da Cova; Porto-Mós < Porto de Mós < Porto das mós;
Ribatejo < Riba do Tejo. Acrescenta Vasconcellos (p. 310) que o que ocorre no onomástico também ocorre na linguagem corrente: beira-mar < beira do mar; pontapé < ponta do pé;
madre-Deus < madre de Deus.
11 Nesse caso, não ocorre uma transformação de sistemas como se observa em NprepN > NN (mestre de escola > mestre-escola, por exemplo), mas perda de material fonológico, desca-racterizando morfologicamente a estrutura interna do composto. Segundo Val Álvaro (1999, p. 4826), as possibilidades de coesão formal são menores nos compostos NprepN, em relação aos compostos NA e AN, porque é exigida a elisão da preposição, categoria funcional. No entanto, trata-se de uma coesão com um grau de perfeição maior: hojalata (de hoja de lata) vs. guardiacivil/guardias civiles, guardiaciviles. O português fidalgo (e o espanhol hidalgo) é grande exemplo dessa fusão perfeita, visto que se remete historicamente ao sintagma filho de algo (hijo de algo). Aqui, no entanto, não ocorre a elisão total da preposição, sendo mais notória a perda da última sílaba de filho.
12 Scalise (1994, p. 124, n. 13) acrescenta à lista de combinações possíveis para os compostos, em nota de rodapé, a estrutura [N + prep + N] (pomodoro), entre outras. No caso de pomo-doro ‘tomate’, trata-se de uma redução morfofonológica de pomo d’amore (cf. Dizionario Etimologico Online, s.u. pomodoro). Estruturas sintagmáticas NprepN, no entanto, parecem não ser consideradas compostos por Scalise, como se depreende da seguinte afirmação do autor: «Infine, forme come ferro da stira, coda di cavallo ecc., sono considerate composti da Dardano [1978]».
Não sendo ampla a aceitação do grupo NprepN como um verdadeiro me-canismo de composição, as propostas de classificação desse tipo de estrutura são um pouco tímidas. Línguas como francês, espanhol e português conhecem bem compostos com essa configuração, mas a particularidade flexional por eles apresentada suscita a discordância entre alguns autores em considerá-los como compostos, como Booij (2005, p. 83), por exemplo, que prefere denominá-los de “constructional idiom”, definido como:
A constructional idiom is a fixed syntactic pattern in which some positions may be filled by all kinds of words of the right category, whereas other positions are filled by specific morphemes or words.
Assim, estruturas como N de N (fr. chambre d’hôtes ‘casa de hóspedes’, com plural chambre-s d’hôtes), N à N (fr. salle à manger ‘sala de jantar’, com plural salle-s à manger) possuiriam posições abertas para os nomes e uma preposição fixa, de ou à. Trata-se de um padrão sintático que se lexicalizou e que serve como modelo para a criação de novas unidades plurilexicais. No entanto, combinações do tipo NprepN são qualificadas como “construções”, e não como compostos, tendo em vista a flexão interna incidindo sobre o núcleo nominal13, que, no caso do português, corresponde ao constituinte da esquer-da14. Construções NprepN têm estatuto sintático, o que explica a variação de número (e gênero) no primeiro elemento, e estatuto lexical, uma vez que formam um conjunto de expressões estabelecidas, que ampliam o léxico da língua. É possível, portanto, propor um tratamento sintático e lexical a essas combinações de palavras.
13 Segundo Rio-Torto (2013, p. 34), “As many authors (Scalise & Bisetto 1999, Fábregas 2005, Lieber & Scalise 2007) assume, internal inflection is not an adequate and applicable criterion for Romance languages; internal and double plural does not deny the ‘Integrity Principle’ of Romance compounds. Agreement is a syntactic device with scope on the whole structure;
sometimes agreement is visible in some of the constituents and other times it is visible in all the constituents. Nevertheless, inflectional patterns are crucial for the delimitation of com-pound classes”.
14 Em português, a generalização da categoria sintática do composto é determinada pelo cons-tituinte da esquerda, caracterizado como o núcleo da expressão. Do ponto de vista semântico, o núcleo constitui, no caso de compostos endocêntricos, uma espécie de hiperônimo: por exemplo, máquina de lavar é um tipo de máquina, substantivo que representa o núcleo da
No entanto, trabalhos como o de Bustos Gisbert (1986), para o espanhol, e o de Ribeiro (2006, 2010) e Ribeiro e Rio-Torto (2010), para o português, evocam o estatuto de composto para construções NprepN, caracterizando-as, no âmbito de uma hipótese da escalaridade, como menos prototípicas ou menos opacas do ponto de vista configuracional:
+ opaco [compostos morfológicos > VN > NN > AN > NA > NprepN] – opaco
No que se refere às relações intracomposto, observa-se que o sintagma preposicional que se adjunge ao núcleo nominal o especifica, modificando (ao restringi-lo) o seu âmbito de referência. Contudo, além de funcionar como um modificador restritivo, esse sintagma pode desempenhar a função de comple-mento do núcleo nominal, que, no caso, apresenta a forma de um deverbal, como nos exemplos acelerador de partículas e recuperador de calor (RIBEIRO;
RIO-TORTO, 2010).
Rio-Torto e Ribeiro, em artigos de 2012 e 2013, apresentam uma classifica-ção dos compostos de acordo com a natureza morfolexical dos constituintes in-ternos e com a obediência (ou não) da construção compositiva a regras sintáticas da língua. Têm-se, assim, compostos morfológicos, compostos morfossintáticos e compostos sintagmáticos ou sintáticos15 (em inglês phrasal compounds16).
Os compostos morfológicos envolvem pelo menos um radical não au-tônomo, em geral de origem grega ou latina, e se caracterizam pela presença de uma vogal de ligação: cardiopatia, hidromassagem, sambódromo, franco--alemão (RIBEIRO; RIO-TORTO, 2013, p. 393).
Os compostos morfossintáticos envolvem formas livres e se caracterizam por apresentarem uma estrutura em desacordo ou não totalmente de acordo com os padrões sintáticos típicos da língua: seguro-saúde, morto-vivo, vaivém, beija-mão (RIBEIRO; RIO-TORTO, 2013, p. 399).
O termo compostos sintagmáticos ou sintáticos é aplicado a compostos com as configurações NA (mesa-redonda), AN (alto-relevo), NprepN (ferro a vapor), NprepV (máquina de lavar), Vpron (faz-tudo), NumN (mil-folhas) e
15 Para Booij (2009, p. 216), o uso da noção de “construção” permite um tratamento adequado da natureza tanto lexical quanto sintática da combinação de palavras, enquanto “composto sintático” constitui um conceito híbrido.
16 De acordo com Moyna (2013, p. 38), “The term ‘phrasal compound’ has been used to refer to constructions [...] which have an internal structure undistinguishable from regularly cons-tructed syntactic phrases (e.g., nominal phrases such as [N + prep + N]N and [N + A]N or [A + N]N)”.
alguns compostos com a configuração VN (limpa-vidros)17. São assim chama-dos pois “exibem um padrão estrutural que se coaduna com o que é próprio das estruturas sintáticas correspondentes” (RIBEIRO; RIO-TORTO, 2013, p.
401), ou seja, esses compostos apresentam a mesma estrutura da sintaxe livre, o que torna a delimitação de fronteiras entre compostos e as estruturas sintáticas livres dependente da aplicação de critérios principalmente de natureza sintática.
Dessa forma, por corresponderem a estruturas sintáticas, os compostos NprepN são submetidos a alguns testes com a finalidade de se verificar o seu estatuto léxico. O primeiro teste diz respeito à impossibilidade de inserção de modificadores entre os elementos nominais do composto: [livro de cozinha]
fascinante/*livro fascinante de cozinha (LANG, 1997, p. 119), bem como à modificação parcial por um adjetivo: [livro de cozinha] novo/*livro de [cozinha nova]. Outro critério, sobre o qual nos debruçaremos, diz respeito à impossibili-dade de o segundo elemento ser precedido por um determinante, o que, de certa forma, corresponde a uma alteração no interior do composto18. No caso mais geral, a contração da preposição de com o artigo definido (fim de semana/*fim da semana). Como apontam Ribeiro e Rio-Torto (2013, p. 388), “o composto fim de semana denota o conjunto de dias de lazer no intervalo entre as sema-nas, ou seja, o período de descanso que vai do final de semana de trabalho até o final de domingo”, enquanto fim da semana, apresentando valor anafórico,
“compreende os últimos dias de trabalho e/ou de lazer da semana de que se fala”. De fato, a presença do artigo diante de segundo constituinte nominal
“desconstrói” a unidade léxica do sintagma, como observado no exemplo. Da mesma forma, não teríamos “fim dessa semana” nem a comutação do núcleo por outro termo sinonímico: “término de semana”.
Nos dados do português arcaico, ocorrem estruturas NprepN com varia-ção no sintagma preposicional, isto é, preposições com e sem o artigo definido acoplado (selo de puridade ~ selo da [de + a > da] puridade). Nesses casos, ainda poder-se-ia falar de estruturas composicionais? Defendemos que sim,
17 Ribeiro e Rio-Torto (2013, p. 401) distinguem compostos VN do tipo abre-latas, guarda--joias, limpa-vidros de compostos VN do tipo beija-mão e finca-pé. Enquanto os primeiros correspondem ao padrão próprio das estruturas sintáticas do português (Ele abre latas com facilidade; Ele guarda joias raras em casa; Este produto limpa vidros e outras superfícies com grande eficiência), os segundos, para funcionarem como sintagmas verbais, necessitam do determinante diante do nome (O noivo beija a mão da noiva/*O noivo beija mão da noiva).
18 Segundo Ribeiro e Rio-Torto (2009), “In Portuguese compounding changes in the
atribuindo a essa variação a instabilidade gráfica e linguística que caracteriza os textos portugueses do período medieval.