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ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A VIDA ESCOLAR E SOCIAL

5. OS SUJEITOS E SUAS HISTÓRIAS: ENTRE A FANTASIA E A REALIDADE

5.3. A HISTÓRIA DE JOÃO

5.3.4. ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A VIDA ESCOLAR E SOCIAL

Como não foi possível realizar a entrevista com a professora de João, posteriormente, após a desistência da criança e da família, resolvi pesquisar alguns documentos (prontuários) que relatavam a situação do menino na escola e também no programa social que frequentava. Desta forma, colocarei abaixo o relatório de uma professora que trabalhou com ele:

“O aluno João recebe medicamento ao chegar na escola (Ritalina). Entra na sala, não cumprimenta ninguém.

Senta-se, deita-se na carteira e lá permanece até o fim da aula.

Não consegue acompanhar as atividades, pois é pré-silábico e não sabe ler.

A professora propõe atividades de alfabetização, mas ele recusa-se a fazer. Joga as atividades no lixo.

Não interage com os colegas. Não participa oralmente.

Até hoje, só apresentou um quadro de agressividade, em um dia em que ficou sem medicamento.

Não há queixas do aluno durante o recreio ”.

Podemos observar, por meio do relatório da professora, o quanto a escola associa o medicamento à contenção da agressividade. Na perspectiva da escola, sem a Ritalina ou a Respiridona, a criança fica agressiva e perde o controle.

Também chama a atenção o fato de a criança frequentar o 4º ano do Ensino Fundamental e ainda não ser alfabetizada.

Segue abaixo agora o relato de uma estagiária do Serviço Social, a qual observou seu comportamento em um programa social:

[...] João não quis entrar na atividade de capoeira onde está matriculado no primeiro horário nos dias de terça e quinta feiras, no primeiro horário ele ficou no laboratório de informática, quando acabou o primeiro horário da turma que estava na sala ele não queria sair. A Psicóloga foi até a sala conversar com ele e ele disse que não iria sair. Falou então para ele que iria desligar o computador e ele a ameaçou dizendo: “desliga para você vê”.

A diretora do programa foi até lá e desligou, o chamamos em uma sala e conversamos que ali tinha regras e que ele tinha que respeitar. Logo após ele bateu em uma criança. Então ligamos para a mãe que veio até o programa junto com o padrasto, conversamos com eles e o que ficou claro é que a mãe não aceita que o padrasto corrija o menino e nem a família da mãe, falam que ele não é o pai dele.

O relato acima retrata melhor o modo como João relaciona-se com o seu meio e a forma como lida com as frustrações. No programa em que frequentava tinha atividades de capoeira e informática, também, a psicóloga que foi chamada neste contexto, não tinha a função ali de realizar psicodiagnóstico ou atender em psicoterapia, pois suas atividades estão mais ligadas a projetos socioeducativos e acompanhamento dos trabalhos de outros educadores que trabalham na instituição.

5.3.5. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO CASO

Fiquei em silêncio, como o caçador que espera o vôo da caça, pois esta é a minha profissão: sou um caçador de palavras. (RUBEM ALVES)

Infelizmente não foi possível finalizar o psicodiagnóstico de João porque depois da hora de jogo ele não voltou mais, também a mãe não compareceu pessoalmente para conversarmos sobre a desistência, dissera-me apenas que o filho estava mais tranquilo na escola e não queria vir ao atendimento psicológico. Cheguei a pedir auxílio para a psicóloga escolar que o encaminhou, mas não percebi interesse da parte dela em motivar a família para finalizar o trabalho que fora iniciado. A profissional informou que o município agora contava com um atendimento especializado para as crianças que tinham o diagnóstico de TDAH e Transtornos de Aprendizagem; ela mesma ia começar a trabalhar neste local atendendo as queixas escolares e provavelmente João seria transferido para lá.

Depois disso tive a oportunidade de observar João em um programa social voltado para crianças e adolescentes. Pude conversar com os educadores que trabalharam com ele, os quais me disseram que João era extremamente agressivo, facilmente se envolvia em brigas e parecia não ter medo de ninguém. Quando ficava bravo, não tinha quem o segurasse, ele enfrentava os meninos mais velhos, os adultos e batia no primeiro que aparecesse em sua frente. Uma educadora pensou em convocar o pai que morava no município, já que a mãe dele afirmou que João sentia raiva desse pai e, para essa educadora, a ideia de convidar o pai para participar da vida do filho era uma tentativa de recuperar o vínculo paterno.

Janin (2010b) afirma que algumas crianças consideradas hiperativas, mas que apresentam algumas questões peculiares, como desafiar a autoridade e rebelar-se diante das normas, podem possuir um déficit na introjeção de normas e proibições. Para a autora, tais crianças são submetidas a uma força que não podem controlar, é como se tivessem parado em um momento anterior à estruturação do superego como instância psíquica.

Creio que podemos utilizar a hipótese de Janin (2010b) para investigarmos os determinantes da sintomatologia de João. Pudemos verificar em

sua biografia como funcionou o processo de desmame, que segundo Winnicott (1975) não se confunde com o simples término da alimentação ao seio e pode ser compreendido como a reunião das frustrações, um processo gradativo de desilusão.

Ainda para Winnicott (1975, p.70), a mãe suficientemente boa “[...] se acha num permanente oscilar entre ser o que o bebê tem capacidade de encontrar e (alternativamente) ser ela própria, aguardando ser encontrada.” Deste modo, baseando-me nesses autores, posso inferir que - no caso de João - sua mãe não conseguia ser ela própria, mas sim toda para o filho. Ela alimentou João ao seio, concomitantemente com o filho caçula, até os cinco anos do primeiro.

Foi também muito marcante a fala da mãe de que João “peitava” a diretora e os professores, expressando um destemor diante de qualquer figura de autoridade, principalmente quando se encontrava invadido por sentimentos de ódio e frustração. Neste sentido resolvi pesquisar a etimologia da palavra “peito” e o que encontrei foi o seguinte:

Do lat. Pectus-oris. Expector. ação. Do fr. Expectoration. Expector.ante. Isto é, a palavra “peito” tem uma forte ligação com a palavra “expectorar”, que traz o seguinte significado no dicionário Aurélio: 1. Expelir do peito; escarrar 2. Proferir, dizer, com ira ou violência.

Penso que investigar a polissemia da palavra “peito” pode nos ajudar a compreender os vários aspectos do funcionamento psíquico de João. É bastante interessante observar a variação do significante “peito” que simultaneamente pode significar alimentação (alimentar ao peito) e eliminação (de dejetos, escarros, palavras proferidas com violência). É o que acontece nos primórdios do desenvolvimento infantil, o bebê sob a vigência dos processos primários, introjeta o leite bom e projeta para dentro de sua mãe aquilo que ele não pode digerir. Bion e Winnicott, cada um à sua maneira, vai dizer da importância do ambiente para que entre em cena o processo secundário e o nascimento de uma capacidade de pensar. Nas palavras de Winnicott (1975, p. 25): “Não há possibilidade alguma de um bebê progredir do princípio de prazer para o princípio de realidade ou no sentido, e para além dela, da identificação primária [...] a menos que exista uma mãe suficientemente boa”.

A mãe suficientemente boa é aquela que também proporciona a desilusão, ajuda a construir um psiquismo que pode transformar frustração em pensamento ou em outros termos, possibilitar que o bebê transforme o não-seio em

pensamento. Assim, se o bebê não é colocado em situações gradativas de frustração, de modo que aprenda a tolerá-las, ele pode ficar na ilusão de que tem um seio inesgotável ou de que é o próprio seio onipotente.

Deste modo, podemos compreender os sintomas de João, suas dificuldades para ler e escrever, a impulsividade e hiperatividade como frutos de uma mente que não desenvolveu a tolerância à frustração, que funciona predominantemente sob o regime do princípio do prazer: “[...] uma psique que opera sobre o princípio de que a evacuação de um seio mau é sinônimo de obter alimento de um seio bom”. (BION, 1991, p. 187).