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O estudo sobre esta noção tem também sua própria história. O marco da teoria é o clássico trabalho de Marshall (1967), “Cidadania, Classe Social e Status”. É nesta obra que se desenvolve a visão tripartite da cidadania, em uma ordem cronológica: primeiro teriam surgido os direitos civis, advindos das Revoluções Burguesas no século XVIII, logo após os direitos políticos, com as Revoluções do século XIX, e por fim os direitos sociais com as lutas trabalhistas do século XX. Embora os estudos atuais tomem rumos diversos, esta obra é referência básica para a maior parte dos teóricos da cidadania.

Giddens é o crítico da teoria do conceito de cidadania de Marshall, mesmo reconhecendo sua análise importante para a teoria social e política contemporânea. Critica-o por seus elementos teleológicos e evolucionistas. Também considera que Marshall simplifica o papel da política e do Estado, esquecendo-se das conquistas obtidas por meio de lutas. Argumenta ainda sobre a desconsideração do fato de que o favorecimento das classes subordinadas ocorre de forma mais positiva em épocas de guerras.

Held (1999) discorda das críticas giddenianas com relação a Marshall, encontrando na obra deste autor, como um todo, fortes comprovações de referências a lutas que conduziram a conquistas, de preposições sobre as possibilidades de mudanças no quadro das conquistas, em detrimento das mesmas, além de considerar em suas obras a existência de especificidades relacionadas a cada contexto. No entanto, o autor destaca a importância do trabalho de Giddens, ainda que não seja satisfatório, no campo das contribuições para um novo marco explicativo do desenvolvimento dos direitos.

Na perspectiva giddeniana, o conflito de classe é o meio de ampliação dos direitos dos cidadãos, assim como constitui a base da criação de uma economia autônoma, juntamente com a poliarquia e o Estado de bem-estar. O impulso para a luta pelos direitos e para a remodelação da cidadania foi a conformação da soberania estatal. Giddens considera que “o crescimento do poder administrativo do Estado conduziu o aparecimento de novas aspirações e demandas e o desenvolvimento de instituições que as atenderam com eficácia” (Held, 1999, p. 213). Assinala ainda que, mesmo representando grandes transformações históricas, estas conquistas são frágeis.

Marshall e Giddens, entre outros problemas, possuem uma grande limitação ao abordarem a questão apenas na relação do cidadão com o Estado-Nação: “O direito internacional reconhece direitos e deveres que transcendem a jurisdição dos Estados-Nação e que, mesmo que possam carecer de poderes coercitivos de execução, têm conseqüências de vasto alcance” (Held, 1999, p. 219). Held propõe que uma discussão sobre cidadania deve transcender os termos de referência estabelecidos por Marshall e Giddens.

Coutinho, em seu artigo “Cidadania e Modernidade” (1999), aborda a dinamicidade e as contradições do processo histórico-político da cidadania na modernidade, admitindo um “antagonismo estrutural” entre universalização da cidadania e lógica do capitalismo:

“(...) eu diria que uma das principais características da modernidade é a presença nela de um processo dinâmico e contraditório, mas de certo modo constante, de aprofundamento e universalização da cidadania, ou, em outras palavras, de crescente democratização das relações sociais. Esse processo é contraditório, sujeito a avanços e recuos, porque no limite, como vimos, há um antagonismo estrutural entre essa universalização de cidadania e a lógica de funcionamento do modo de produção capitalista, cuja implantação, consolidação e expansão foi, decerto, outra das características marcantes da modernidade” (Coutinho, 1999, p. 58).

Nogueira (1999) analisa a luta pela extensão da cidadania inserida no conflito social da época moderna e como ela se situa hoje na reinvenção da política e de uma recuperação do Estado. Esclarece sua visão do conceito de cidadania como algo em processo contínuo, envolvido em conflitos com ganhos e recuos. Constata a importância do Estado neste processo, pois direitos sem Estado”nada mais são do que sombras” (ibidem, p. 58). Admite também a especificidade na organização e construção da cidadania, variando de país para país, e de grupos para grupos, dentro de um mesmo país.

Nogueira (idem) aponta dois focos importantes a se considerar na modernidade. O primeiro diz respeito ao neoliberalismo, que reduz a confiança dos cidadãos na política, como também assinala Carvalho (2001). Um segundo foco é a dificuldade de governar nesta nova fase de organização das relações internacionais, de um novo padrão produtivo e de um novo sistema de produção e difusão de informações:

“A perda de confiança na política deriva de um projeto de dominação e de uma hegemonia, dedicados a superpor o mercado ao Estado, o econômico ao político, o privado ao público. Mas é também, creio, sobretudo, a extensão direta de uma mudança estrutural, de uma modificação na forma mesma como se passou a viver na era da informação e da comunicação em que nos encontramos” (Nogueira, 1999, p. 63).

Nogueira defende também que se amplie este debate, na direção dos “diversificados interesses difusos”, multidimensionais, ou seja, direitos referentes ao gênero, às fases da vida (crianças, idosos, entre outros), aos estados excepcionais (enfermos, deficientes, etc), ao meio ambiente e à natureza, e outros. Mais do que nunca, hoje dependemos de políticas sociais ativas:

“Do que se trata, em suma, é de forjar instituições radicalmente comprometidas com o cidadão (...). Instituições com as quais seja possível materializar a idéia de uma representação alargada, artífice de uma situação na qual indivíduos e sujeitos sociais tenham voz ativa, participem das decisões governamentais e submetam a si a política, o Estado, o poder” (Nogueira, 1999, p. 77).

Neste estudo, de forma específica, nossa base teórica encontra sustentação principalmente - não somente - em Dagnino (1994), com a “nova noção de cidadania”, e em Santos (2001), com sua proposta de visão da Modernidade vinculada aos pilares da regulação e emancipação (ambos serão explicitados a seguir). Dialogando com o objeto, a partir de questões que se constituirão,

vamos nos remetendo aos estudos sobre a cidadania, tentando investigar como o material didático constrói esta noção.

Iniciamos com este recorte, percorrendo um dos caminhos da história da cidadania, com a finalidade de envolver o leitor em nossos passos nesta pesquisa. Vale lembrar que não é nossa intenção dar uma contribuição à teoria e à história das noções aqui abrangidas: cidadania e livro didático.