CAPÍTULO 4 SÍNTESES INTERPRETATIVAS DAS TESES: UM OLHAR PARA O
4.3 Síntese interpretativa do estudo de Merlini (2012)
4.3.1 Alguns aspectos metodológicos da investigação e o processo formativo
A experiência inicial de Merlini como formadora em projeto de formação continuada93 de professores, acrescida aos questionamentos após os estudos do mestrado,
despertou seu interesse por investigar e trabalhar com formação de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Visando investigar as possibilidades de o professor, a partir de um processo de formação, expandir seus conhecimentos da prática pedagógica em matemática, estabelece como objetivo de sua pesquisa de doutorado:
investigar as contribuições e os limites que um processo formativo, com dimensões colaborativas, proporciona no que tange à reflexão na e sobre a prática de uma professora das séries iniciais do Ensino Fundamental, no âmbito do Campo Conceitual Multiplicativo. (MERLINI, 2012, p. 24)
Seu estudo apoiou-se fundamentalmente na Teoria dos Campos Conceituais (VERGNAUD, 1988, 1990) e, de modo mais específico, nas categorias de base do Campo Conceitual Multiplicativo (CCM) (VERGNAUD, 1983). Em relação à formação de professores, adotou como principais aportes teóricos: Candau (1996), Fiorentini (2008, 2009),
93 Projeto denominado “Curso de Especialização em Educação Matemática”.
Esse curso foi financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), uma rede global de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas, presente em 166 países. O curso, além de gratuito, oferecia aos seus participantes materiais didáticos e apoio financeiro para sua locomoção.
Fiorentini e Nacarato (2002), Pimenta (2010), Ponte (2009), Schön (2000), Serrazina (2010), Zeichner (1993, 2008), dentre outros.
A pesquisa, desenvolvida em contexto de formação continuada, apresenta um estudo de caso em que a pesquisadora atuou como um dos formadores de um processo formativo com dimensões colaborativas, cujo objetivo era contemplar estratégias formativas contidas na espiral REPARE em três dimensões: reflexão, planejamento e ação.
Merlini acompanhou uma professora94 da 3ª série95, integrante de um grupo formado por 14 professoras atuantes em diferentes séries do Ensino Fundamental, em três momentos distintos:
Inicialmente no processo formativo em que a professora atuava com um subgrupo de professores da 3ª série do Ensino Fundamental.
Em seguida, em momentos de observação nas aulas da professora, nos quais eram aplicadas situações relativas ao Campo Conceitual Multiplicativo – CCM - desenvolvidas no subgrupo da 3ª série.
E finalmente, em entrevistas semiestruturadas realizadas logo após as aulas observadas.
Com vistas a discutir os elementos tratados nesses diferentes momentos, a pesquisadora sintetiza um estudo de caso, especificando, detalhadamente, as atividades desenvolvidas no decorrer do processo formativo de uma das professoras ao longo de três fases denominadas por: 1) Conhecendo a professora Maria; 2) Acompanhando a professora
Maria; e 3) Fechamento do processo formativo de Maria.
A primeira fase, Conhecendo a professora Maria, permitiu traçar um diagnóstico das professoras, dividido em duas etapas. Inicialmente foi aplicado um questionário com intuito de traçar o perfil profissional das professoras participantes. A segunda etapa dessa fase foi subdividida em três momentos nos quais foram propostas às professoras: i) a elaboração, individual, de seis problemas distintos relativos ao CCM; ii) a realização, individual, de um prognóstico do desempenho de seus alunos em relação às 13 situações envolvendo diferentes
94 A professora Maria.
95A escola em que a pesquisa de Merlini foi realizada, ainda não havia sido reorganizada de acordo com a Lei nº
11 274, aprovada em fevereiro de 2006, que regulamentou o Ensino Fundamental de nove anos. Deste modo, a escola ainda mantinha a divisão dos anos iniciais em quatro séries.
eixos do campo multiplicativo; iii) as atividades em grupo em que Maria e as professoras do 3º ano classificariam as situações propostas aos alunos.
Na primeira fase, após a aplicação96 do instrumento diagnóstico para os alunos das professoras participantes do processo formativo, um dos encontros foi disponibilizado à socialização dessa experiência pelas professoras. Nessa reunião, foi definida, em comum acordo pelo grupo e a formadora, a dinâmica dos encontros, considerando: a) Subgrupos com professoras de uma mesma série; b) Apresentação em painel aberto do registro e das discussões dos subgrupos. Definida a dinâmica, os subgrupos se organizaram por série e cada um deles passou a expor a classificação e as análises das 13 situações do diagnóstico.
Ao final das apresentações, a pesquisadora explicitou o intuito em realizar um estudo de caso, fazendo o convite às professoras que tivessem interesse em colaborar. Embora tivesse havido o aceite de duas professoras, uma da 1ª série e outra da 3ª série, como a pesquisadora tivesse interesse em acompanhar uma professora da 3ª série, cujos alunos já tivessem estudado o Campo Conceitual Multiplicativo formalmente, Merlini encaminhou o estudo de caso com a profa. Maria da 3ª série.
A segunda fase - Acompanhando a professora Maria - teve seu desenvolvimento em três momentos: O primeiro deles no decorrer do processo formativo em que esteve inserida no grupo do 3º ano – G3; o segundo, em sua prática pedagógica; e por último, na entrevista.
O foco do primeiro momento desta segunda fase direcionou a discussão dos seguintes eixos97 do Campo Conceitual Multiplicativo: eixo 1: proporção simples; eixo 3: comparação multiplicativa; eixo 4: produto de medidas (4A configuração retangular e 4B combinatória). Merlini (2012) subdividiu as estratégias do processo formativo em três etapas: ação teórica; ação prática; e ação reflexiva, as quais se encontram detalhadas em seu estudo.
Ao final de cada encontro, pautada nas discussões teóricas dos diferentes eixos, no segundo momento, Maria elaborou com o G3 duas situações que seriam aplicadas a seus alunos, sendo sua prática pedagógica observada pela formadora-pesquisadora.
96 Dois instrumentos precederam o processo formativo: um prognóstico respondido pelas professoras em relação
ao desempenho de seus alunos acerca das questões contidas no instrumento diagnóstico a ser aplicado aos alunos; e um instrumento diagnóstico contendo situações do Campo Conceitual Multiplicativo, aplicado aos alunos por cada uma das professoras participantes.
97 Diante do envolvimento de ideias matemáticas mais complexas das situações pertencentes ao eixo da
proporção múltipla (eixo 2), que, segundo Merlini (2012), extrapolavam o nível de ensino em que se trabalhava, este não foi foco no processo formativo.
O terceiro momento refere-se às entrevistas semiestruturadas, realizadas após o término de cada aula observada, cujo roteiro tinha o intuito de promover reflexões da professora Maria sobre sua prática pedagógica com seus alunos.
Na terceira e última fase do processo formativo, denominada Fechamento do
processo formativo, foram desenvolvidas as duas últimas atividades realizadas
individualmente não apenas pela professora Maria, mas também pelas demais professoras, ou seja: 1) elaboração de seis problemas relacionados ao Campo Conceitual Multiplicativo; 2) questionário relativo à avaliação do processo formativo. Enquanto a primeira atividade objetivou comparar o tipo de situações elaboradas antes do processo formativo e depois dele, a segunda contribuiria para repensar novas ações aos processos formativos.
Considerando os distintos momentos contemplados no processo formativo da tese de Merlini, selecionamos três recortes que abordam a temática da nossa pesquisa, sob os quais teceremos nossas interpretações relativas ao conhecimento especializado do PEM nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
4.3.2 Conhecimento especializado para ensinar multiplicação: alguns indícios identificados na