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3. APLICABILIDADE DO DANO IMATERIAL NO BRASIL

3.2 ALGUNS CASOS INUSITADOS DE DANOS IMATERIAIS

A título de exemplificação de como os danos imateriais não encontram uma única orientação jurisprudencial serão vistos a seguir alguns casos que chamam a atenção, inclusive da mídia, por suas características inusitadas. Mas antes de tecer algumas considerações sobre casos no Brasil (neste capítulo) e em Portugal (no próximo capítulo) cabe uma breve exemplificação de casos norte-americanos para fins de comparação. Nos Estados Unidos os danos imateriais não se resumem a apenas esta responsabilização podendo ainda ter acrescidos os chamados danos punitivos (punitive damages), sendo que:

Os danos punitivos são geralmente estipulados em casos extremos, envolvendo dolo e culpa grave por parte do ofensor/agente, constituindo-se em valor muito superior ao estipulado a título de danos materiais e morais, como no caso Grefer vs. Alpha Technical Services Inc., Nº 97-15003, da Corte Distrital de Los Angeles, onde a indenização pelos danos materiais e morais foi fixada em US$ 250 mil e a indenização pelos danos punitivos chegou à casa do US$ 1 bilhão (citado em “Top Plaintiff's Verdicts”, publicado no site www.law.com em 11/02/2002).96

Também nos Estados Unidos, como já foi citado anteriormente, houve o caso BMW of North America, Inc. vs. Gore (94-896), 517 U.S. 559 (1996) que no final teve a verba condenatória a título de danos punitivos excedendo em 500 vezes a verba condenatória a título de danos compensatórios. A BMW North America Inc. foi condenada a pagar US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares) a título de danos punitivos ao consumidor que se sentiu lesado pela falta de comunicação prévia sobre a nova pintura realizada em seu veículo

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GERMANO, Alberto. Sentença em ação de dano moral não pode assumir caráter punitivo. [em linha]. [consultado em 27 out. 2014]. Disponível em: http://www.conjur.com.br/ 2008-jul-02/sentenca_acao_dano_moral_nao_carater_punitivo.

decorrente de pequenas avarias resultantes da importação do veículo da fábrica alemã.97

Como pode ser observado as cifras são em valores nitidamente exorbitantes, extrapolando em muito o caráter de compensação apenas material, superando em muitas vezes o mesmo quanto ao caráter de danos punitivos.

No Brasil, não são utilizados os danos punitivos na sua essência. Eventualmente os julgados indicam que o quantum estipulado atingiu uma cifra que considerou o máximo arbitramento do eventual dano sofrido na busca por um caráter também didático. Porém, tais valores são incorporados à noção de danos imateriais, enquanto totalidade, não extrapolando seus limites. Ou seja, as cifras são bastante conservadoras e limitadas aos casos fáticos.

Neste sentido, sem dúvida um dos casos que mais chamou a atenção em 2013 foi o processo98 movido pela cantora Wanessa Camargo, então grávida, e seu marido, Marcus Buaiz, contra o humorista Rafinha Bastos. O caso iniciou em setembro de 2012, quando o humorista do programa televisivo CQC fez uma afirmação infeliz e vulgar de que “comeria ela e o bebê”99

e, ainda que haja a liberdade de imprensa, segundo o juiz Luiz Beethoven, a mesma deve respeitar os direitos e garantias fundamentais de qualquer cidadão, algo que segundo ele não aconteceu neste caso. Para o juiz a frase "em linguagem vulgar" insultou a moral da família, atingindo inclusive o nascituro: "De todos os presentes que Deus proporcionou aos homens, nenhum é maior que uma criança... - mas disso, lamentavelmente, nem sequer cuidou o irreverente Suplicado"100. Afirma ainda que “fazer humor dessa forma,

com grosserias de rasteira conotação sexual, não é difícil”. O humorista foi condenado a indenizar em dez salários mínimos cada um dos autores da ação

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CONJUR - Consultor Jurídico. O caráter punitivo da indenização por dano moral nos EUA. [em linha]. [consultado em 27 out. 2014]. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2002- jul-06/carater_pu nitivo_indenizacao_dano_moral.

98

MIGALHAS. Caso Wanessa Camargo: Justiça condena Rafinha Bastos por danos morais. [em linha]. [consultado em 28 out. 2014]. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/Quentes/ 17,MI148238,31047-Caso+Wanessa+Camargo+Justica+condena+Rafinha+Bastos+por+danos +morais.

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Sua declaração pode ser achada em: YOUTUBE. Rafinha bastos disse que comeria Wanessa Camargo e até seu bebê. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ruUkB6clakA.

100

MIGALHAS. Sentença - Processo nº 11.201939-5. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/arquivo_artigo/art20120118-01.pdf.

(Wanessa, seu marido e o filho do casal), cujo valor à época correspondia a cerca de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) devido seu comentário de menos de 3 segundos. A condenação civil não eximiu o humorista de responder a um processo criminal.

Outra decisão recente que causa estranheza foi a condenação de um advogado de Ribeirão Preto, São Paulo, que teve como sentença o pagamento de R$ 100.000,00 (cem mil reais), acrescidos dos custos do processo e os honorários advocatícios da defesa do filho que moveu a ação contra ele devido ao “abandono afetivo”101

que alegou sofrer. O filho, fruto de uma relação extraconjugal, disse que não recebeu por parte do pai o mesmo apoio financeiro, afetivo e moral como os outros irmãos biológicos. Segundo a sentença:

O réu resistiu de todas as formas possíveis em reconhecer o autor como seu filho, tendo se furtado a prestar alimentos, a colaborar com a criação, a educação e todas as demais obrigações que decorrem da paternidade, as quais, diga-se de passagem, vão muito além do mero fornecimento de bens materiais. [...] Segundo fatos incontroversos, o autor não gozou dos benefícios e do afeto dispensados aos demais filhos do réu, restando evidentes a segregação e a rejeição contra ele manifestadas de forma exclusiva, o que caracteriza ofensa à sua personalidade, honra e dignidade.102

Pesou ainda o fato de que o réu, durante 17 anos, negou-se a realizar o teste de paternidade “bem como sempre se furtou em fornecer qualquer tipo de ajuda ao autor” teve sua condenação devido ao entendimento do juiz Francisco Camara Marques Pereira, da 1ª Vara Cível de Ribeirão, de que seus outros filhos tiveram todo apoio necessário, diferentemente do autor da ação. O reconhecimento da paternidade só foi realizado via judicial e após anos de espera por parte do filho, já que o réu sempre se recusava a realizar o teste de DNA que confirmaria a paternidade. Acrescente-se que não houve neste processo de indenização qualquer contestação por parte do réu, o que gera o entendimento de ficta confessio, ou em outras palavras que as alegações do

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G1 - redação. Justiça obriga pai a pagar R$ 100 mil por abandono afetivo de filho em SP. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. 08 set. 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2015/09/justica-obriga-pai-pagar-r-100-mil- por-abandono-afetivo-de-filho-em-sp-ribeirao-preto.html.

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autor são entendidas como verdadeiras. O réu condenado havia sido procurado pela imprensa, mas não quis dar declarações sobre sua condenação, da qual ainda caberia recurso ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Porém, o que chama a atenção é que tem começado a ser comum este tipo de ação por abandono afetivo dos filhos. Como se os anos da não convivência fossem sanados por uma indenização financeira, resolvendo o problema afetivo, em vez de agravá-lo.

Decisão que também chamou a atenção pelo inusitado do fato ocorrido foi a condenação de um noivo em danos imateriais por ter rompido o relacionamento apenas minutos antes do casamento civil.103 O caso inusitado foi julgado pela 7ª câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e o ex-noivo que não teve o nome revelado foi condenado a pagar R$ 5.000,00 (cinco mil reais), acrescidos de juros, correção monetária e custas processuais. Segundo a ex-noiva, o casal planejou o casamento logo após o nascimento do filho deles, tendo tomado todos os cuidados para a cerimônia, contratando convites, salão de festas, decoração, buffet, DJ, filmagem e demais providências. Porém, vinte dias antes do casamento religioso e minutos antes do casamento civil o ex-noivo ligou para informar que não queria mais realizar o casamento e que a ex-noiva deveria informar o fato aos convidados bem como rescindir os contratos realizados. A ex-noiva estava no cartório e recebeu a ligação em seu telefone celular. Em sua defesa o ex-noivo alegou que sofreu prejuízos, pois arcou com as despesas da festa e com o término dos contratos e que não foi ressarcido destes custos. Também alegou que a iniciativa para realizar o casamento teria sido apenas por parte da ex-noiva, que se iludiu com isto sem motivos. Por seu lado, a ex-noiva alega que virou alvo de piadas pelo ocorrido. Para o relator do processo, o desembargador Miguel Brandi, entendeu-se pelos autos que ambos empreenderam conjuntamente as providências para a realização do casamento. Ainda segundo ele, tanto a doutrina quanto a jurisprudência entendem que a quebra injustificada e abrupta da promessa de casamento possibilita a responsabilização na esfera cível:

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MIGALHAS. Homem que terminou relacionamento minutos antes do casamento terá de indenizar ex-noiva. 26 ago. 2015. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI225878,21048-Homem+que+terminou+relaciona mento+minutos+antes+do+casamento+tera+de.

Assegurada a liberdade de qualquer das partes de se arrepender da escolha feita, não se pode perder de vista a responsabilidade do arrependido para com o sentimento e a afeição alheios construídos ao longo do caminho percorrido juntos.104

O desembargador ainda acrescentou que o fato ocorrido foi "avassalador para a parte que não o esperava, causando profundas e talvez irrecuperáveis marcas em sua integridade emocional".

A decisão foi unânime mas ainda caberia recurso em relação à mesma. Mesmo assim, trata-se de um fato pouco corriqueiro nos tribunais brasileiros mas que ensejou a uma reparação causada por uma promessa não cumprida.

Também inusitada a condenação de uma empresa de tratamento de esgoto devido ao mau cheiro gerado pela mesma nos arredores da sua sede. A Apelação Cível Nº 70039321393 gerou o Acórdão no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, na 9ª Câmara Cível em 23 de março de 2011105. Inicialmente o valor da condenação havia sido estipulado em R$ 2.040,00 (dois mil e quarenta reais) sendo posteriormente majorado para R$ 5.000,00 (cinco mil reais) com as devidas correções legais. O desconforto pelo odor fétido gerado por problemas técnicos na estação de tratamento gerou aos moradores vizinhos uma indenização por danos imateriais, devido a ofensa à “dignidade humana”, conforme pode ser observado na ementa do acórdão:

A responsabilidade civil imputada à CORSAN é objetiva, nos termos do art. 37, § 6º, da Constituição Federal, já que, a demandada é uma sociedade de economia mista, que faz parte da administração indireta do Estado. Na espécie, os elementos de prova acostados aos autos são contundentes para demonstrar que a estação de tratamento de esgoto apresentou problemas técnicos que acarretaram a emissão de substâncias odoríferas na atmosfera provenientes da inadequação do projeto que acarretou o mau funcionamento do processo industrial orgânico utilizado na estação de tratamento. Caracterizado o dever de indenizar, haja vista que a poluição vivenciada pelos moradores vizinhos a ETE Navegante, decorrente da ausência do desenvolvimento das bactérias

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MIGALHAS. Homem que terminou relacionamento minutos antes do casamento terá de indenizar ex-noiva. 26 ago. 2015. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI225878,21048-Homem+que+terminou+relaciona mento+minutos+antes+do+casamento+tera+de.

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BRASIL. Acórdão 9ª TURMA TJ Rio Grande do Sul – 23 de março de 2011. [em linha]. [consultado em 16 set. 2015]. Disponível em: http://www.tjrs.jus.br/site_php/consulta/download/ exibe_documento.php?ano=2011&codigo=393512.

capazes de promover de modo eficiente a digestão da matéria orgânica. À degradação do ambiental, ofende também a dignidade do ser humano, condenado a conviver com esgoto, inalando mau cheiro, além de micróbios, bactérias e insetos indiscutivelmente agressivos à saúde pública, haja vista que a coletividade tem - assegurado na ordem constitucional - o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, forte nos termos do art. 225, da Carta Republicana. QUANTUM INDENIZATÓRIO. CRITÉRIOS. Considerando as peculiaridades do caso, danos morais derivados do mau cheiro advindo da instalação de uma estação de tratamento de esgotos nas cercanias da residência dos demandantes, e os parâmetros adotados por este Órgão Fracionário para o julgamento de casos análogos, bem assim os princípios da proporcionalidade e razoabilidade e a natureza jurídica da condenação, viável a majoração do valor da indenização. NEGARAM PROVIMENTO AO APELO DA RÉ E PROVERAM O RECURSO DOS AUTORES. UNÂNIME.”106 Neste caso mais do que o desconforto gerado trata-se de uma questão de saúde pública e a indenização gerada é não apenas uma forma de minimizar o desconforto sofrido mas também tem o caráter pedagógico quanto à necessidade de empresas tomarem os devidos cuidados quanto a seus dejetos, pois sua responsabilidade é objetiva, ou seja, trata-se de uma responsabilidade advinda da prática de um ato ilícito ou violação de direito que independe da medição de culpa ou do grau de envolvimento do causador do dano para ser provada em juízo, basta haver o nexo causal. Mas o valor é consideravelmente baixo considerando-se o alcance dos danos.

Por fim cabe citar um inusitado caso no qual se comprova que os pedidos por danos imateriais por vezes extrapolam o limite do razoável. O caso ocorreu em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, em 2008107. Wanderson Rodrigues de Freitas, à época com 22 anos, invadiu uma padaria da cidade, de posse de um pedaço de madeira usado embaixo da camisa simulando uma arma. Roubou R$ 45,00 (quarenta e cinco reais) após render uma funcionária, mas quando estava saindo foi surpreendido pelo dono da padaria, com quem entrou em luta corporal. O comerciante tinha um histórico de mais de 10 assaltos em sete anos e já não suportava mais esta situação.

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MARQUES, Carlos Alexandre Michaello. A reparação do dano e a dignidade humana. Âmbito Jurídico. [em linha]. [consultado em 15 set. 2015]. Disponível em: http://www.ambito- juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11312.

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MEGA Jurídico. Ladrão processou a vítima por lesões corporais e danos morais. [em linha]. [consultado em 16 set. 2015]. Disponível em: http://www.megajuridico.com/ladrao- processa-vitima-por-lesoes-corporais-e-danos-morais/.

Agiu em legítima defesa e outras pessoas, ao perceberem o fato, também passaram a agredir o invasor sendo que alguns ainda o reconheceram de outros assaltos. A polícia foi chamada e o ladrão foi preso. Mas este se sentiu humilhado e injustiçado por ter apanhado do dono do estabelecimento que tentou assaltar. Ajuizou uma queixa-crime, na justiça criminal por ter sido lesionado e ainda quis ganhar uma indenização por danos imateriais. Na decisão do Juiz Jayme Silvestre Corrêa Camargo, da 2ª Vara Criminal da Comarca de Lafayete, afirmou que “após longos anos no exercício da magistratura, talvez seja o caso de maior aberração postulatória. A pretensão do indivíduo, criminoso confesso nos termos da própria inicial, apresenta-se como um indubitável deboche.”108

Logicamente incabível o pedido, mesmo porque um princípio básico do Direito é o de que ninguém pode ser beneficiar da própria torpeza. Neste caso, o ladrão busca inverter a ordem jurídica tentando angariar uma vantagem de um ato que é ilícito, quando a possibilidade do pedido de indenização tem como uma das exigências que o ato praticado pelo autor seja lícito. O entendimento acertado do juiz foi de que o comerciante agiu em legítima defesa, sendo que “teria apenas buscado garantir a integridade física de sua funcionária e, por desdobramento, seu próprio patrimônio”.

Ainda que pareça piada o caso é verídico e apenas comprova que se por um lado há a prerrogativa de buscar-se uma compensação por danos sofridos, por outro há que se cuidar em que não haja excessos ou pedidos sem qualquer fundamentação.