• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO IV. O PANORAMA DA PROFISSÃO DOCENTE NO BRASIL

5.2. Alguns conceitos que explicam o insucesso

De acordo com Fernandes (2012, p. 11) “A expressão ‘insucesso escolar’ entrou na literatura pedagógica após a obrigatoriedade do ensino escolar”. Ao longo dos anos, e nos diferentes países, vários foram os conceitos associados ao insucesso: insucesso escolar, abandono escolar, abandono escolar precoce, desafetação escolar, jovens não empregados que não estão em educação ou formação (NEEF). Por vezes, a terminologia usada tem uma conotação

82

pejorativa, como é o caso da palavra fracasso, impregnada de uma forte carga de discriminação e separação.

A expressão insucesso escolar começou a ser utilizada em meados dos anos 40, logo, não pode ser considerada antiga. Inicialmente, o insucesso escolar era visto apenas como algo individual, uma vez que a escola era privilégio das classes média e alta. A psicologia, por isso, utilizava a expressão, analisando-a individualmente (Sil, 2004). Após a 2ª guerra, porém, ela foi ganhando outras conotações; em virtude de se ter passado a acreditar que o crescimento económico estava diretamente ligado com a escolarização, a educação tornou-se extensiva à classe baixa, principal fornecedora da mão-de-obra necessária ao desenvolvimento da economia.

É neste contexto de desigual acesso à educação que nascem muitos dos estudos sobre o processo de acesso e permanência na escola (Duarte, 2000) e se começa a falar em insucesso/fracasso escolar.

Para Fernandes (2012), o insucesso escolar representa um desafio para a escola e para a sociedade. O autor realça que, quando se fala em insucesso, invoca-se um confronto entre a escola e a personalidade do aluno, porque há visivelmente uma atitude de rejeição inferioridade por parte do aluno que não se sente capaz ou se sente inferior aos demais colegas da classe. A partir de uma visão antropológica, Duarte (2000) mostra que a cultura propagada pela escola não condiz com o conhecimento que o aluno possui e que o insucesso resulta do facto do aluno não ser capaz de acompanhar a cultura da escola.

O conceito de insucesso parece, assim, depender de uma cultura letrada, uma ideia não defendida nesta tese. Há todo um conjunto de fatores que podem conduzir a uma situação de insucesso. Desde logo, questões de natureza social que não afetam apenas uma das partes. Com efeito, Benavente e Correia (1980) justificam o insucesso a partir de uma ação de todos os envolvidos no processo: alunos, família, escola, professores e políticas educativas.

O conceito de insucesso escolar pode estar centrado no aluno, como se pode ver através da definição da REDE EURYDICE que, há cerca de 20 anos atrás, definia o insucesso escolar “como a incapacidade que o aluno revela em atingir os objetivos globais definidos para cada ciclo de estudos” (1995, p.47); ou pode abranger outros atores, sendo avaliado no contexto de uma grande abrangência de perceções - dos pais, dos alunos, dos professores - e a partir das práticas de avaliação e certificação promovidas pelo sistema de ensino (Montagner,1998).

83

Outros autores vão para além da conceptualização do termo insucesso. É o caso de Cortesão e Torres (1990, p.35), que afirmam que:

O insucesso revela a situação de mal-estar dos alunos na instituição escolar, como: a agressividade, o desinteresse, a violência e a delinquência. Por seu turno, a incapacidade de mobilização dos conhecimentos adquiridos, após o término da escolaridade, é também um indicador de que a educação não se cumpriu.

Pode-se depreender de todos estes conceitos que o insucesso é um problema de ordem social, económica e política que deve ser enfrentado por todos os envolvidos, avaliando-se as suas causas e procurando entendê-las, a fim de solucioná-las ou atenuá-las. O insucesso é tratado ainda como desafetação escolar, isto é, a ausência de compromisso com a escola, a falta de dedicação para com o ensino. Neste caso, os estudantes podem chegar a abandonar os estudos ou a não obter resultados satisfatórios ao final de um período de estudos (Carrito, 2014).

Considera-se em situação de insucesso os alunos que não conseguem acompanhar as aulas com bom aproveitamento, não apenas em relação ao final de um ano letivo, mas, também, em relação a outra etapa/nível de estudos, no que concerne às avaliações realizadas no final de cada bimestre estudado.

Outro termo bastante empregado quando o assunto é insucesso, é a sigla NEEF (traduzida do Inglês NEET – Not in Education, Employment or Training, que se refere a jovens sem educação, emprego ou formação). NEEF é utilizado pela maior parte dos países europeus para referir os jovens entre os 15 e os 24 anos que não têm um emprego e não estão inscritos em qualquer plano de estudos ou formação (EUROFOUND, 2012). Estes jovens podem ter procurado anteriormente respostas ou satisfação numa escola e não ter encontrado. Podem sentir-se atualmente frustrados e serem vítimas do insucesso. A escola pode, pois, não ter correspondido às suas expectativas.

Não só os jovens que se encontram na situação de NEEF constituem preocupação e são objeto de estudo. Há ainda outros conceitos que o insucesso pode ocasionar, como “abandono escolar”, “abandono escolar precoce” (ESL) e “abandono precoce do ensino e da formação” (ESLers) (Dale apud Costa et al. 2013, p. 169). Estas designações são, indubitavelmente, fruto de um constante progresso da problemática do insucesso. Costa et al. (2013, p.170) sistematizam, desta forma, as várias designações:

84 • O abandono escolar (abandono escolar) refere-se ao abandono do sistema de ensino,

antes de completar a escolaridade obrigatória, dentro dos limites de idade legal (INE, 2013) - este termo evoluiu para ESL e NEET, embora seja amplamente utilizado como "sinónimo" da sua evolução.

• Abandono escolar precoce (AEP) é usado para se referir aos que se situam na faixa etária 18-24 que deixam a educação e a formação com ensino secundário ou menos, que não estão mais em educação ou formação (CEU, 2011).

• Os jovens que não estão empregados nem em educação e formação (NEET) refere-se à população de uma determinada faixa etária que atende às seguintes condições - (a) não estão empregados (ou seja, desempregados ou inativos de acordo com a definição da Organização Internacional do Trabalho) e (b) que não receberam qualquer tipo de educação ou formação nas quatro semanas anteriores ao inquérito (EUROSTAT, 2013).

Como se pode observar, a evolução dos vários conceitos relativos ao insucesso escolar demonstram o quanto a escola deve aos jovens e o quanto é necessário proceder a mudanças no currículo, na metodologia, na didática, nos sistemas de avaliação; e depois de tudo isso, talvez continue a faltar o aspeto principal: ouvir quem está em situação de insucesso e pensar e encontrar métodos que consigam a inversão desse quadro.

A partir da análise de todos os resultados que o insucesso pode apresentar, é legítimo inferir que o insucesso representa a não concretização dos objetivos a serem alcançados durante a vida escolar, tanto em relação aos resultados obtidos, quanto ao acompanhamento das turmas onde estes alunos estão inseridos, pelo facto de demonstrarem um desfasamento na aprendizagem. Em situação de insucesso, o aluno chega ao final do ciclo de estudos sem alcançar as metas quantitativas e qualitativas. É urgente, nestes casos, que o governo, a escola, e até a própria família tomem medidas para que o insucesso não venha a ter consequências lastimáveis na vida social, educacional e até psicológica daqueles que dele já foram vítimas.