• Nenhum resultado encontrado

5. A CONCEPÇÃO SARTREANA DE LIBERDADE

5.2. LIBERDADE POSITIVA

5.2.1. ALGUNS PROBLEMAS ACERCA DO PROJETO FUNDAMENTAL

Sartre geralmente fala como se nossas escolhas originais dos projetos fundamentais fossem ―genuínos atos, decisões ou eventos historicamente datáveis‖, por exemplo, uma pessoa é abordada na rua: ―Você é um vigarista‖. Contudo, o que podemos dizer do indivíduo antes desse momento de escolha? Se a minha escolha de um projeto fundamental é uma escolha de mim, quem escolhe? Uma vez que as ações são por definição intencionais e, portanto, dirigidas em direção a um fim, como pode o indivíduo agir antes de sua escolha de um fim? Poderíamos evitar esse problema de escolha se supuséssemos que o projeto é escolhido, digamos, no momento do nascimento, ou antes; porém, como podemos falar da escolha de alguém em uma idade na qual a própria idéia de escolha, isto é, uma escolha para a qual se pode ser responsabilizado, parece inaplicável? Além disso, não pode haver nunca, ao que parece, nenhuma razão ou motivo para escolher ou mudar um projeto fundamental, uma vez que um projeto fundamental é, dentre outras coisas, uma escolha do que vai contar como razão para alguém. Isso não torna gratuita a escolha ou a mudança do projeto fundamental?

Talvez ajude se admitimos diretamente que a noção de escolha aqui é muito diferente de qualquer noção ordinária de escolha: não há, por exemplo, nenhuma deliberação, nenhuma escolha entre opções. Todavia há um ponto mais sutil que deve ser desenvolvido: enquanto ordinariamente Sartre identifica escolhas e ações, a escolha do projeto fundamental não é uma ação, ele também chama o projeto, talvez mais precisamente, de uma ―atitude fundamental‖ (SN, p.700), um modo de ser-no-mundo.

Ela não é mais uma ação do que um estilo de um pintor é um dos quadros que ele pinta, para usar uma analogia que Sartre insinua (SN, p. 97). Se a escolha original de um projeto fundamental não é uma ação, então questões acerca de quando ela foi feita estão fora de lugar. Embora ao contar a história da vida de alguém – incluindo a própria – um momento particular possa ficar como aquele que cristaliza o sentido daquele padrão, que todo evento recordado tem sentido somente à luz do que vem depois. A ―palavra atordoante‖ ―vigarista‖, em si mesma é insignificante, pode tornar-se o núcleo para a cristalização de sentido somente por causa do subseqüente padrão da vida da pessoa em questão (MORRIS, 1976, p.54). Também fora de lugar são questões acerca de por que – por quais razões e motivos a ―escolha‖ foi feita: não podemos perguntar por que Monet pintou no estilo em que ele pintou, quais eram as suas razões. Podemos perguntar talvez por que ele pintou ―no estilo impressionista‖, mas não por que ele criou pinturas impressionistas em seu estilo único e próprio, um estilo que o distingue de cada um dos outros pintores impressionistas. Contudo, na medida em que a noção de escolha está conectada à de responsabilidade, esta também tem um pé aqui: em certo sentido, não consideramos as pessoas responsáveis pelo seu estilo, não as elogiamos e culpamos?

Essa analogia com o estilo pode ser levada um pouco adiante para nos ajudar a compreender por que uma mudança do projeto fundamental é difícil. Não é fácil mudar

o estilo de alguém, desde que não tomemos a palavra ―estilo‖ de um modo muito superficial. Isso poderia ser explicado em parte através da noção de Merleau-Ponty de sedimentação: a maneira pela qual meu ―ser habitual no mundo‖ (MERLEAU-PONTY, 1999 p.591), sendo sedimentado no corpo faz com que meu passado tenha um peso.6 Um tipo de ação (por exemplo, fumar) ou um modo de ser (por exemplo, ter um complexo de inferioridade), se repetido muitas vezes, adquire um tipo de peso que torna difícil – embora não impossível – agir de uma outra maneira. Temos de:

Reconhecer um tipo de sedimentação de nossa vida: uma atitude em direção ao mundo, quando ela recebeu confirmação freqüente, adquire um status favorecido para nós (...). Tendo construído nossa vida sobre um complexo de inferioridade que foi operacional durante vinte anos, não é provável que nós venhamos a mudar. (MERLEAU-PONTY disposto a reconhecer a mariquice como um padrão em sua vida – muito menos que a

―resistência inicial contra o meu corpo é o em-si inanimado‖ - e pode ser incapaz de fazer isso sem a psicanálise existencial.7 Além disso, a natureza global de um projeto fundamental, ― projeto que não pode ser interpretado em termos de nenhum outro e que é total‖ (SN, p.591), torna difícil tanto reconhecer quanto alterar: ―minha roupa (um uniforme ou um terno social, uma camisa leve ou formal), não importa se cuidada ou

6 Sartre afirma que “o corpo como facticidade em que se refere originalmente ao nascimento” (SN, p.413). Entretanto, nessa idéia do meu corpo como a realização concreta do meu passado permanece pouco desenvolvida.

7 Sartre delineia os parâmetros dessa psicanálise existencial em O Ser e o nada.

negligenciada, escolhida cuidadosamente ou ordinária, minha mobília, a rua onde vivo, a cidade na qual eu resido, os livros que me circundam, a recreação que me diverte‖ são todos unificados pelo meu projeto fundamental (SN, p.571). Porém, mais importante de tudo, o projeto fundamental original é um projeto de má-fé; e para mudar esse padrão, eu tenho de reconhecer a minha responsabilidade pelo padrão da minha vida. Isso significa que, de novo com a ajuda da psicanálise existencial, eu tenho de refletir puramente. Eu tenho de reconhecer minha responsabilidade não apenas pelo meu estilo de me vestir, pelas minhas habilidades em cuidar da casa e pela minha preferência por torrada sem manteiga, mas também pelos meus traços de caráter, tais como mariquice e covardia.

Essas considerações apenas roçam a superfície; há muitos outros pontos a serem explorados vis-à-vis a noção de projeto fundamental. Mas ela, assim ao menos me parece, ilumina de uma maneira fenomenologicamente convincente tanto o sentido da afirmação do praticante da caminhada de que ele não poderia não parar quanto o sentido da afirmação do seu amigo de que ele poderia ter feito diferente.