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Assim, em torno das discussões de Michel Foucault sobre a sexualidade e relações de poder, Judith Butler propõe outros debates, considerando o gênero como ponto importante (e não somente o sexo). Para ela, não se pode configurar os sexos em termos de substância, pois são produzidos discursivamente, sem status ontológico. Assim, sexo e gênero são discursivamente construídos e não há nenhuma linearidade biológica, cultural ou uma hierarquia fundacional.

Explicar as categorias fundacionais de sexo, gênero e desejo como efeitos de uma formação específica de poder supõe uma forma de investigação crítica, a qual Foucault, reformulando Nietzsche, chamou de “genealogia”. A crítica genealógica recusa-se a buscar as origens do gênero, a verdade íntima do desejo feminino, uma identidade sexual genuína e autêntica que a repressão impede de ver; em vez disso, ela investiga as apostas políticas, designando como origem e causa as categorias de identidade que, na verdade, são efeitos de instituições, práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos. A tarefa dessa investigação é centrar-se – e descentrar-se – nessas instituições definidoras: o falocentrismo e a heterossexualidade compulsória (BUTLER, 2015, p. 10, grifos da autora).

Assim, tecendo algumas considerações sobre a genealogia de Michel Foucault, Butler (2015) vai além na análise mais detalhada dos efeitos de poder na construção da categoria

gênero. Quando a autora aponta o falocentrismo11 e a heterossexualidade compulsória12 como fatores de produção de gênero, ela quer apontar o caráter discursivo de normas sociais instituídas como “naturais” aos sujeitos. Seja pela via da constituição do psiquismo (falocentrismo) ou pela inscrição biológica (heterossexualidade compulsória), tais discursos produzem uma lógica essencialista e homogênea de identidades de gênero. Ou seja, o sexo é uma produção discursiva construída socialmente, sendo o gênero “o aparato mesmo da produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos” (BUTLER, 2015, p. 27). Assim, Butler (2015) apresenta uma nova compreensão sobre a relação sexo-gênero-discurso.

Como estratégia para descaracterizar e dar novo significado às categorias corporais, descrevo e proponho uma série de práticas parodísticas baseadas numa teoria performativa de atos de gênero que rompem as categorias de corpo, sexo, gênero e sexualidade, ocasionando sua ressignificação subversiva e sua proliferação além da estrutura binária (BUTLER, 2015, p. 12-13, grifos meus).

Para Butler (2000; 2015), gênero possui um efeito substantivo que se configura na performatividade, a saber, práticas reiterativas e citacionais, pelas quais o discurso produz efeitos normalizadores, que vão se naturalizando no cotidiano da vida humana, produzidas ao longo de sua existência. As normas regulatórias do discurso sobre sexo e gênero trabalham de forma performativa para constituir a materialidade das diferenças, ou seja, como afirma Butler (2000, p. 111), “o fato de que essa reiteração seja necessária é um sinal de que a materialização não é nunca totalmente completa, que os corpos não se conformam, nunca, completamente, às normas pelas quais sua materialização é imposta.”. Ou seja, a própria concepção de substância é questionada. A compreensão de um “eu” homogêneo e generificado é uma ficção, uma vez que o próprio processo de constituição deste gênero é uma “repetição estilizada de atos no tempo” (BUTLER, 2018a, p. 2).

Gênero, então, envolve práticas reguladas por normas sociais que produzem efeitos de ação, nos quais o sujeito se constitui. Tais normas, produzidas discursivamente, mantêm-se em constante reiteração, materializadas nos corpos, em regulações de gênero, por meio do que Butler (2000) conceitua como performatividade:

11 Falocentrismo aborda a centralidade do falo na constituição do sujeito, a partir de um referencial psicanalítico de Jacques Lacan. Este conceito é criticado por Judith Butler, ao entender que tendo um falo um caráter simbólico, ele não é o próprio pênis e pode ser atribuído a qualquer outra parte do corpo humano (SALIH, 2017).

12 Heterossexualidade compulsória, conceito definido pela feminista Adrianne Rich, envolve “a ordem dominante pela qual os homens e mulheres se veem solicitados ou forçados a serem heterossexuais” (SALIH, 2017, p. 71), ou seja, forçados a ter práticas sexuais exclusivamente com o sexo oposto (homem com mulher e vice-versa).

A performatividade não é, assim, um "ato" singular, pois ela é sempre uma reiteração de uma norma ou conjunto de normas. E na medida em que ela adquire o status de ato no presente, ela oculta ou dissimula as convenções das quais ela é uma repetição.

Além disso, esse ato não é primariamente teatral; de fato, sua aparente teatralidade é produzida na medida em que sua historicidade permanece dissimulada (e, inversamente, sua teatralidade ganha uma certa inevitabilidade, dada a impossibilidade de uma plena revelação de sua historicidade) (BUTLER, 2000, p.

121).

Assim, os discursos sobre o que é ser mulher, homem, heterossexual, etc., são efeitos de construções generificadas, que se naturalizam a partir da repetição destes mesmos discursos, materializados nos corpos. Assim, constituir-se enquanto sujeito envolve um processo de regulação e interpelação, baseado em construções históricas que regulam práticas entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Estas regulações produzem um gênero inteligível.

Gêneros inteligíveis são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Em outras palavras, os espectros de descontinuidade e incoerência, eles próprios só concebíveis em relação a normas existentes de continuidade e coerência, são constantemente proibidos e produzidos pelas próprias leis que buscam estabelecer linhas causais ou expressivas de ligação entre sexo biológico, o gênero culturalmente constituído e a

“expressão” ou “efeito” de ambos na manifestação do desejo sexual por meio da prática sexual (BUTLER, 2015, p. 44).

Neste sentido, sujeitos que se deslocam de tal inteligibilidade social, produzindo uma materialidade discursiva que se tensiona com padrões heteronormativos, são considerados

“fora” da norma. Por exemplo, dentro de uma inteligibilidade ocidental, observamos o acionamento de representações que se tensionam com gênero inteligível: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, queers, intersexuais, assexuais, etc. Para Butler (2000), tais processos de inteligibilidade produzem exclusão, gerando os ditos processos de abjeção. Assim, Butler (2000) compreende abjeção como expressões de modos de ser e viver que transgridem, rompem ou diferem do ideal heteronormativo, sendo excluídos para zonas

“inóspitas” e “inabitáveis” (p. 112). A autora usa o termo abjeção partindo de discussões da psicanalista Julia Kristeva, que compreende abjeção como “aquilo que é rejeitado e expelido pelo – e do –sujeito” (SALIH, 2017, p. 222).

Contudo, tais processos envolvem uma produção discursiva da vida. Atos de fala constituem um gênero. Estabelecem configurações corporais generificadas. O corpo é, então, a materialização discursiva da norma, e não sua substância. Ou seja, é preciso entender que as superfícies corporais são um local onde se configuram uma “performance dissonante e desnaturalizada, que revela o status performativo do próprio natural” (BUTLER, 2015, p. 252, grifos da autora).

Butler (2018b) complementa que as regulações de gênero produzem modos de viver e de confrontar estas mesmas regulações, de diferentes formas, configurando, assim, certas desestabilizações, mesmo que de certa forma ainda estejam atreladas às normas.

Além disso, verifica-se que não pode haver reprodução das normas generificadas sem a representação corporal destas normas, e quando esse campo de normas se rompe, mesmo que provisoriamente, vemos que os objetivos estimuladores de um discurso regulatório, como ele é representado corporalmente, têm consequências nem sempre previstas, abrindo caminhos para formas de viver o gênero que desafiam as normas de reconhecimento predominantes. Assim, podemos ver claramente o surgimento de transgênero, genderqueer, butch, femme e modos hiperbólicos ou dissidentes de masculinidade e feminilidade, e mesmo zonas de vida generificada que se opõem a todas as distinções categóricas como essas (BUTLER, 2018b, p. 39).

Quando Butler (2018b) aborda tais questões, ela se remete às suas proposições anteriores de uma identidade generificada a partir de regulações discursivas, como afirmava em Problemas de Gênero (2015):

A perda das normas do gênero teria o efeito de fazer proliferar as configurações de gênero, desestabilizar as identidades substantivas e despojar as narrativas naturalizantes da heterossexualidade compulsória de seus protagonistas centrais: os

“homens” e “mulheres”. A repetição parodística do gênero denuncia também a ilusão da identidade de gênero como uma profundeza intratável e uma substância interna.

Como efeito de uma performatividade sutil e politicamente imposta, o gênero é um

“ato”, por assim dizer, que está aberto a cisões, sujeito a paródias de si mesmo, a autocríticas e àquelas exibições hiperbólicas do “natural” que, em seu exagero, revelam seu status fundamentalmente fantasístico (BUTLER, 2015, p. 253).

Assim, considerando que o corpo é a materialização da norma, a produção do gênero perfaz uma paródia de si mesmo. A repetição imanente dos discursos que produzem o gênero são efeitos em si mesmo. Não há gênero em si mesmo, mas sim uma repetição contínua e reiterada de discursos que o constituem. Não existe uma origem ou substância; é um movimento processual e relacional, demarcado por uma teia discursiva entre saberes e poderes. Não há um tornar-se mulher, pois não existe um ponto de origem e de fim. Há um viver-se mulher, imbricado na teia discursiva, considerando territorialidade, temporalidade, classe, raça, enfim, outros marcadores que vão constituindo o emaranhado de enunciados sobre “ser mulher” numa inteligibilidade social. Ou seja, mesmo aqueles seres considerados inteligíveis performam uma paródia.

Contudo, é importante considerar os tensionamentos provocados pelos corpos que se deslocam de padrões de inteligibilidade. Como Foucault (1988) já havia pontuado

anteriormente em História da Sexualidade I, tais tensionamentos geram estratégias de poder para regulações da “administração dos corpos e pela gestão calculista da vida” (p. 131).

Sobre tais “operações de poder”, Butler (2018c, p. 14) propõe analisar “os mecanismos específicos de poder mediante os quais a vida é produzida”, ou seja, que condições uma vida é passível de ser vivida e em quais relações de poder uma vida ou um conjunto de vida é precária.

Neste sentido, pensar como uma vida, um corpo é reconhecido como vivo. Percebo, então, como tais processos de exclusão, a partir de uma inteligibilidade cultural, retomam as proposições de Foucault (1988; 2011) na emergência de um poder de normalização que se configura em diferentes instituições: um biopoder, que regula as vidas vivíveis e as vidas precárias.

Mas que vidas são precárias? Vidas que se deslocam da inteligibilidade social normativa. Como pontua Butler (2018c, p. 17), “há ‘sujeitos’ que não são exatamente reconhecíveis como sujeitos e há ‘vidas’ que dificilmente – ou melhor dizendo, nunca – são reconhecidas como vidas”. Neste sentido, vidas que deslocam de um gênero inteligível adentram o caráter da precariedade: “deste modo, a precariedade está, talvez de maneira óbvia, diretamente ligada às normas de gênero, uma vez que sabemos que aqueles que não vivem seu gênero de modos inteligíveis estão expostos a um risco mais elevado de assédio, patologização e violência” (BUTLER, 2018b, p. 41).

Contudo, neste processo de precarização das vidas, sujeitos que transgridam os padrões normativos também geram embates, tensionamentos e resistência. Produzem discursos que buscam desestruturar o estável. Contudo, tais produções de gênero constroem identidades, formulam outros padrões, e podem, inclusive, recair em normatizações de feminino e masculino, homem e mulher, homossexual, heterossexual, cisgênero e transgênero.

Deste modo, compreendo que sujeitos que são considerados como desviantes ou dissidentes de padrões culturais inteligíveis buscam deslocar a lógica cisheteronormativa13, ao mesmo tempo que a reafirmam, pois a produção do gênero permeia discursos que normatizam sua compreensão. Porém, meu foco é, também, entender como estas produções de gênero também envolvem potências e resistências às lógicas de precarização de suas vidas.

Então, considerando os “problemas” de gênero, procuro compreender as produções que discorrem sobre, segundo Berutti (2017) e Marina Reidel (2017), as categorias chamadas

13 Cisheteronormatividade envolve compreender os padrões de inteligibilidade cultural que instituem como norma uma configuração de gênero de acordo com as determinações genético-biológicas do nascimento (cisgênero) e uma sexualidade pautada sempre no relacionamento amoroso e sexual com o sexo oposto (heterossexualidade).

Assim, se estabelecem padrões cisnormativos e heteronormativos, ou seja, uma cisheteronormatividade. As discussões sobre estes termos são realizadas no tópico seguinte, Tomada 03 – Que gênero é teu?

T no Brasil: travestis, transexuais, trans e transgêneros. Enquanto categorias identitárias, elas emergem no Brasil gradativamente, entre debates e discussões entre grupos sociais, movimentos políticos e políticas públicas, principalmente a partir dos anos 1960. A partir da década de 2010, a terminologia transgênero – a qual utilizo como terminologia principal neste trabalho – emerge com o objetivo de agregar diversas “identidades de gênero”, que abarcam uma amplitude de identidade dissidentes, como será mais explicitado a seguir.

TOMADA 03 – QUE GÊNERO É TEU? AS CONSTRUÇÕES DE CATEGORIAS