3 O HERÓI PROJETADO: NUANCES AUTOBIOGRÁFICAS
3.3 ALGUNS REFLEXOS NA LITERATURA GERAL DO AUTOR
Os elementos de vingança trágica, destino trágico e pathos estão sutilmente esboçados em suas obras. Para citar apenas um exemplo dessa tragicidade latente nos livros, temos, na Trilogia Brasil, a ida de Totonhim para São Paulo, seu desejo incompreensível e obscuro de partir em direção à cidade que tomou os filhos e a vida de seu irmão Nelo, num movimento de, ao mesmo tempo, fugir e ir de encontro ao seu destino, exatamente como fez Édipo ao fugir de Corinto e ir em direção a Tebas.
Sobre esse movimento, os autores Pierre Vernant e Vidal-Naquet (1977), em seu texto Esboços da vontade na tragédia grega, esclarecem como próprio da tragédia e da ação do herói trágico: “[o indivíduo] é tomado pela força sinistra que ele desencadeou [...] a ação o envolve e arrasta, englobando-o numa potência que escapa a ele tanto que se estende no espaço e no tempo, muito além de sua pessoa” (VERNANT e VIDAL-NAQUET, 1977). Totonhim e São Paulo também agem como protagonistas de uma vingança trágica, no qual um está num movimento constante de reaver aquilo que lhe foi tomado pelo outro, numa clara analogia ao “sangue derramado demanda mais sangue derramado”, como nos é apresentado em diversos trechos na Electra de Sófocles. Sobre as questões de tragicidade e a figura do herói presente no contexto de Essa terra e, por extensão, da trilogia, SANT’ANNA (1976) escreveu:
Poderia se chamar também “a volta do herói” esse romance em que Antônio Torres conta como o baiano Nelo larga sua família, vai para São Paulo e regressa, vinte anos depois, para se enforcar aos olhos do irmão mais novo e dos parentes, que o julgavam um indivíduo bem sucedido [...] A história é contada pelo irmão mais novo Totonhim, e narra a decomposição de um mito. Assim, Nelo, que era “um homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus Raybans, seu rádio de pilha e um relógio que brilha mais do que a luz do dia”, vai se convertendo num bêbado incapaz de criar uma família. Cheio de doenças, encontra no suicídio o gesto capaz de libertá-lo da falsa imagem que a família nele cultivava. A história, contudo, não se reduz a esse eixo dramático. Além do lado psicológico ou individual, interessa ao romancista o contexto social onde isto se gera. Daí que
a tragédia do indivíduo e a tragédia da comunidade estejam interligadas neste livro. (SANT’ANNA 1976)
A análise neste trabalho partirá dos outros dois livros que estão fora da trilogia inicial, nos quais a tragicidade não foi vista na figura do herói, mas sim da própria tensão trágica estabelecida por força do desconhecido e do desconhecimento, que aparece em vários momentos de ambos os livros como veremos mais adiante.
Em Um táxi para Viena d’Áustria (1991), essa tensão é marcada pelo desconhecimento sobre os motivos, circunstâncias e detalhes envolvendo o crime de Watson Campos e se opõe ao caos do engarrafamento causado pelo acidente com um caminhão que carregava garrafas de Coca-cola, como se a própria história estivesse também travada, engavetada, não flui e ao mesmo tempo não para. Em Um táxi para Viena d’Áustria temos uma primeira parte que serve de prelúdio à entrada da figura de Watson Campos em cena e apenas duzentas páginas depois é que teremos um esclarecimento completo sobre o assassinato. Essa tensão do desconhecido, assemelha-se ao momento de reconhecimento da maldição de Édipo, quando este passa a conhecer que era o assassino de seu pai e propagador da praga que consumia Tebas. O reconhecimento, portanto, sofrerá um deslocamento, deixando de ser entre pessoas para se dar na relação narratário e narrador. Explorarei essa questão no capítulo dedicado a esse livro.
Já em Adeus, Velho (1981) encontramos essa tensão na prisão de Virinha e nos desdobramentos noticiados pela mídia; também nas indagações e divagações de Mirinho, seu irmão, enquanto anda por Salvador em busca de abrigo. Não há informações precisas: não se sabe ao certo o que aconteceu na noite em que Virinha foi presa e como se desenrolaram os sessenta dias em que passou na prisão até ser solta por um habeas corpus improvável de um misterioso advogado que, embora afirme que a conheça e que a esteja ajudando por causa de um favor devido, não tem sua identidade e intenções reais reveladas em momento nenhum da narrativa. Esse clima de não conhecimento dos fatos criminais, acusação, condenação, cárcere e habeas corpus cria um clima trágico clássico e também um grande suspense. O livro também trará pequenos efeitos de tragicidade através das histórias de seus personagens.
O caráter dos personagens principais das obras (Nelo, Totonhim, Virinha, Watson Campos), está permeado pelos efeitos de uma tragicidade, o que se evidencia quando estes se deparam com o conflito, a solidão, a angústia etc., adquirindo um ar imperfeito, fragmentado e multifacetado, que reflete as imperfeições da sociedade urbana, das cidades em si e da própria contemporaneidade. Ou seja: um personagem será afetado pela tragédia dos seus dias tanto quanto forem caóticas as situações com as quais se depara. Quanto menos tragicamente clássico
for o ambiente em que este se encontra e quanto mais trágico for o nosso herói, mais evidentes serão os efeitos dessa tragicidade, num processo simultâneo de ruptura e reconstrução.
Portanto, com base no exposto acima, delineia-se uma realidade multifacetada nas obras em questão. Se em um dado momento temos marcas nítidas de uma realidade nordestina e rural, também temos um passeio por grandes itens e ícones da contemporaneidade. Enquanto há um romance particular e específico de uma região e que visa a retratar seu povo e seus costumes, também se apresentam referências ao mundano, ao ordinário, ao lugar comum urbano, às massas, ao discurso publicitário, aos grandes índices pop e populares, nas mais variadas acepções do termo.