(2002) procuraram descobrir os tipos de pensamentos que direcionam a performance dos músicos. De acordo com os autores, a utilização dos guias de execução na memorização de uma peça musical permite conduzir a performance pública de memória com uma maior confiança, já que estes possibilitam o reestabelecimento de novas sequências motoras sem a perda da continuidade do fluxo musical, caso aconteça algum lapso de memória no momento da execução (CHAFFIN; IMREH, 2002).
Chaffin e Logan (2006) afirmam que os instrumentistas se apoiam em um mapa mental enquanto executam o instrumento. Este mapa é constituído de uma série de marcos hierarquicamente organizados na música que são estabelecidos em decorrência de pensamentos ocorridos durante o estudo da peça. Para os autores, todo pensamento consciente é um guia, o qual pode posteriormente se tornar parte de um mecanismo automatizado, auxiliando o músico na condução consciente de suas ações na execução.
O estudo de caso realizado por Chaffin e Logan baseou-se no processo de aprendizagem do Concerto Italiano de J. S. Bach por uma pianista experiente. Os autores enfatizaram a importância da memória motora e auditiva na recuperação do conteúdo musical, o que já foi sugerido por outros estudos realizados com instrumentistas. Os testes efetuados demonstraram resultados positivos quanto à recuperação guiada por parâmetros estruturais, porém o oposto foi observado em relação à utilização de guias expressivos. Isto sugeriu, para os autores, que a pianista pensou apenas na estrutura formal da peça no decorrer da aprendizagem da peça, tendo consolidado sua memória principalmente com base nessa estrutura. Vinte e sete meses após a sessão de gravação, a pianista foi inadvertidamente convidada a tentar escrever a partitura de memória. Os resultados deste último teste confirmaram a hipótese de que ela organizou as informações principalmente em termos de estrutura formal, mas também sugeriram a existência de sugestões expressivas na sua organização mental da peça (CHAFFIN; LOGAN, 2006).
Os pesquisadores constataram também que, durante o estudo, o músico tende a prestar atenção principalmente nos guias de execução básicos (aspectos técnicos, como dedilhados, por exemplo), enquanto que durante uma apresentação o músico foca a sua atenção principalmente
nos guias expressivos, que representam os sentimentos e demais aspectos expressivos que o músico deseja projetar (CHAFFIN; LOGAN, 2006).
No trabalho de Chaffin e Lisboa (2009), também foi utilizada a abordagem de guias de execução como estratégia de estudo e memorização. Nesta pesquisa, a violoncelista gravou as suas sessões de estudo do Prelúdio da Suíte No. 6 para violoncelo solo de J. S. Bach e realizou dez apresentações públicas em um período de pouco mais de três anos. O período de aprendizado totalizou 38 horas de estudo, e no decorrer deste tempo foi solicitado à interprete que relatasse as decisões tomadas sobre diferentes aspectos da peça (técnicos, interpretativos, estruturais e expressivos). Ao final do processo, a autora reescreveu a partitura de memória. Os resultados do estudo sugeriram que os guias que melhor ajudaram a intérprete na memorização da peça foram os expressivos e estruturais, os quais, segundo os autores, operaram como referências para a codificação, armazenamento e recuperação da memória de longo-prazo (CHAFFIN et al., 2009).
Outro trabalho de Chaffin, “Learning Clair de Lune: Retrieval practice and expert
memorization” (2007), abordou a necessidade de uma memorização rápida em um curto período
de tempo por parte de um pianista experiente. Neste trabalho, o pianista gravou suas sessões de estudo e apresentou relatórios detalhados da estrutura formal da peça e das decisões técnicas e interpretativas tomadas. Seus relatórios revelaram as ideias, a respeito de aspectos musicais, que surgiram no processo de preparação da peça, assim como permitiu a identificação de trechos nos quais o pianista teve dificuldades para recuperar a música de memória.
No trabalho de Luís Cláudio Barros (2008), realizado sob a orientação de Chaffin, foi testada a aplicabilidade de guias de execução na memorização do primeiro movimento da Sonata op. 2 de Johannes Brahms, colocando-se o autor como sujeito de um estudo de caso. O procedimento adotado para avaliar a sua execução de memória consistiu na elaboração de testes para simular uma situação na qual o músico tem lapsos de memória. Os estudos demonstraram que as respostas de Barros em situação de lapso de memória foram mais rápidas quando vinculadas a guias expressivos e mais lentas quando vinculadas a guias básicos. Segundo o autor, isto ocorreu porque os guias expressivos correspondiam às intenções ele desejava transmitir, os quais estavam vinculados a aspectos de natureza semântica da execução. Entretanto, Barros observa que há certa sobreposição entre os guias, dificultando a tarefa de delimitar onde começa ou termina o predomínio de um guia sobre o outro.
4 CONSTRUÇÃO METODOLÓGICA PARA A ABORDAGEM DA
TEMÁTICA COM ALUNOS DE 8 A 14 ANOS
Antes de ser levada a cabo a pesquisa, realizei um experimento prévio utilizando a abordagem dos guias de execução com os meus alunos de piano. O principal objetivo foi observar o comportamento dos meus alunos e chegar a uma construção metodológica compatível com a abordagem dos guias de execução com crianças.
Saliento que, como fundamento para as escolhas metodológica, tornou-se necessário formular uma base psicológica que me ajudasse na compreensão do pensamento das crianças, de maneira a ficar mais sensível às colocações das mesmas. Para isto, estudei as fases do desenvolvimento cognitivo proposto por Piaget.
Neste capítulo, apresento primeiramente um subcapítulo sobre o desenvolvimento cognitivo; depois, apresento a metodologia testada com os meus alunos; e, por último, os resultados do experimento.