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Ali mostra quem eu sou: o perfil de Henrique

4.4 Procedimentos analíticos

4.4.3 Entrevistas: perfis dos sujeitos estudados

4.4.3.1 Ali mostra quem eu sou: o perfil de Henrique

Henrique tem 17 anos, mora em Alvorada128 e, na época de entrevista, cursava o segundo ano do Ensino Médio em uma escola pública. Mora com o pai, a mãe e o irmão, de cinco anos, a quem diz ter criado como filho, pois tomava conta, diariamente, enquanto os pais trabalhavam fora. Quando questionado sobre o que faz em seu tempo livre, Henrique é categórico: “no meu tempo livre eu tô no Instagram... ou… fazendo… matando tempo mesmo, sabe?”. Ele afirma que só dedica o tempo que passa no colégio para as tarefas escolares: “o resto do tempo é pra mim [sic] dançar, conversar, essas coisas assim”.

Figura 19: fotografias do perfil de Henrique no Instagram.

127 Os nomes verdadeiros dos jovens foram tocados a fim de preservar a identidade dos sujeitos. 128 No questionário, porém, Henrique informou que mora em Porto Alegre.

Henrique esclarece que “vivia só para o Facebook” até criar sua conta no Instagram. Por algum tempo, utilizou as duas redes sociais de forma conjunta (isto é, compartilhando as mesmas imagens em ambas), até que foi “largando o Face de mão, indo só para o Instagram”. Por outro lado, o surgimento do Snapchat reteve a dedicação do jovem temporariamente; Henrique acabou se desligando do aplicativo, contudo, pois não era tão acessado por seus amigos e, além disso, incomodava o fato de que “as pessoas tiram print pra ficar ‘zoando’ contigo”. Da mesma forma, o garoto não se interessou pelo recurso de histórias do Instagram. Os vídeos também são raramente publicados pelo menino, que ainda usa o Instagram primordialmente para compartilhar imagens fotográficas.

Ao ser questionado sobre a frequência com que acessa o Instagram, Henrique comenta que “depois que eu fui assaltado, é uma coisa, tipo assim, uma necessidade (risos)”. Ele teve o aparelho roubado em novembro de 2016 e, desde então, tem utilizado o telefone da tia para acessar o aplicativo. “Eu desço na minha tia, pego o celular dela e quando eu entro no Instagram é muita foto que eu boto. Mas antes, quando tava com meu celular, não tinha um momento. Era toda hora, assim”.

Henrique é enfático ao afirmar que não há julgamento criterioso sobre as fotos que irá postar em seu perfil: ele apenas desconsidera aquelas que saem “tremidas”. Pergunto se há alguma imagem que ele considera inadequada para publicar no Instagram: “eu acho que não, porque se é um aplicativo pra botar foto, vai de qualquer jeito. E como eu sou meio espontâneo, então, pra mim, é normal”. No entanto, ele admite já ter excluído uma imagem depois de postá-la: “eu apaguei uma foto, só, que estava um pouco vulgar (risos). O resto eu deixo”. Não por comentários de terceiros, mas “porque achou demais”.

Henrique tem mais de 900 imagens publicadas em seu perfil e em torno de 300 seguidores129. Sua descrição o caracteriza: “Solteiro. Canceriano. Maluco e gatto [sic]...”. O perfil do adolescente é composto, quase que totalmente, por selfies. Em número pouco significativo, há também registros do menino com amigos e familiares, e algumas fotografias de comida. De fato, chama atenção a quantidade de imagens em que Henrique exibe o corpo praticamente nu. O jovem publica diversas fotos “ousadas”, e escolhe legendas que enaltecem sua aparência física, como “gato” e “negro lindo”. Quando questionado sobre a reação de seus

129

Em 15 de fevereiro de 2017, Henrique possuía 996 publicações. Era seguido por 342 perfis e seguia 353 perfis.

seguidores diante dessas imagens, Henrique diz pensar que o público já acha normal. Em relação à possível preocupação os pais sobre tamanha exposição, o jovem diz que “eles já botaram na cabeça que o Henrique não tem jeito (risos)”.

Figura 20: fotografias do perfil de Henrique no Instagram.

Para o adolescente, seu perfil no Instagram pode definir quem ele é: “meu Instagram, ele é um pouco de cada coisa, é algumas fotos normais, outras meio ousadas, uma coisa meia [sic], um estilo diferente, então ali mostra quem eu sou”. Henrique afirma que não há aspectos de sua vida que não goste de mostrar no Instagram: “não, eu mostro tudo, tudo. Não tenho nada, tipo, a esconder alguma coisa. Não, meu Instagram é minha vida”.

Em relação aos perfis que segue, Henrique declara que acompanha alguns amigos mas, principalmente, pessoas “de fora” que começam a segui-lo e ele passa a seguir de volta. O jovem não acompanha perfis de empresas. Além disso, ele é um dos adolescentes que não sentem necessidade em seguir de volta aqueles que o estão seguindo, a menos que goste das imagens que essas pessoas publicam. Ainda, comenta que não monitora o número de pessoas

que o seguem (isto é, considerando a possibilidade de perder seguidores).

Henrique garante que não se importa com a quantidade de curtidas que suas imagens recebem:

não, porque eu uso ele mesmo, tipo... se é pra botar foto eu vou botar foto, se vão gostar ou não... problema [é deles]. [...] Porque eu acho que assim... tem pessoas que ninguém é obrigado a gostar das fotos que eu boto [sic]. Então, se eu vou ganhar, ou se eu vou botar uma foto semi nu e eu vou ganhar 15.000 curtidas e botar uma que eu vou ganhar duas, não vai fazer diferença, porque eu que tenho que achar minha foto bonita, não eles (Henrique, 17 anos, Porto Alegre).

Apesar de não prestar atenção em quem curte suas fotos, o garoto admite que publica certas imagens pensando em alvos específicos: “é que às vezes tem foto que eu boto diretamente pra algumas pessoas, aí eu boto uma indireta embaixo, uma carinha, assim”. Essa informação permite inferir que, embora Henrique demonstre não ser significativamente preocupado com o tipo de imagens que compartilha, ele planeja algumas publicações tendo em mente a possibilidade de impactar determinados indivíduos.

Nesse sentido, o perfil de Henrique também chama atenção por conter postagens em que desabafa abertamente sobre conflitos da vida pessoal. Quando questionado sobre como se sente ao expor adversidades da vida particular, o jovem declara:

ah, eu me sinto um rei fazendo isso (risos), porque... é que eu, assim, eu gosto muito de ser diferente, e eu sempre notei que o Instagram é uma coisa, ai, mais 'meloso', digamos assim. E eu, não, eu fui direto, tipo assim, se eu tiver que falar alguma coisa eu vou falar, porque eu sei que as pessoas que tão lendo aquilo dali vai [sic] entender pra quem é, e tudo. E aí, então, eu fui botando, na boa (Henrique, 17 anos, Porto Alegre).

Para o adolescente, seu perfil no Instagram pode definir quem ele é: “meu Instagram, ele é um pouco de cada coisa, é algumas fotos normais, outras meio ousadas, uma coisa meia [sic], um estilo diferente, então ali mostra quem eu sou”. Henrique afirma que não há aspectos de sua vida que não goste de mostrar no Instagram: “não, eu mostro tudo, tudo. Não tenho nada, tipo, a esconder alguma coisa. Não, meu Instagram é minha vida”.

Em relação aos perfis que segue, Henrique declara que acompanha alguns amigos mas, principalmente, pessoas “de fora” que começam a segui-lo e ele passa a seguir de volta. O jovem não acompanha perfis de empresas. Além disso, ele é um dos adolescentes que não sentem necessidade em seguir de volta aqueles que o estão seguindo, a menos que goste das imagens que essas pessoas publicam. Ainda, comenta que não monitora o número de pessoas que o seguem (isto é, considerando a possibilidade de perder seguidores).

Henrique garante que não se importa com a quantidade de curtidas que suas imagens recebem:

não, porque eu uso ele mesmo, tipo... se é pra botar foto eu vou botar foto, se vão gostar ou não... problema [é deles]. [...] Porque eu acho que assim... tem pessoas que ninguém é obrigado a gostar das fotos que eu boto [sic]. Então, se eu vou ganhar, ou se eu vou botar uma foto semi nu e eu vou ganhar 15.000 curtidas e botar uma que eu vou ganhar duas, não vai fazer diferença, porque eu que tenho que achar minha foto bonita, não eles (Henrique, 17 anos, Porto Alegre).

Apesar de não prestar atenção em quem curte suas fotos, o garoto admite que publica certas imagens pensando em alvos específicos: “é que às vezes tem foto que eu boto diretamente pra algumas pessoas, aí eu boto uma indireta embaixo, uma carinha, assim”. Essa informação permite inferir que, embora Henrique demonstre não ser significativamente

preocupado com o tipo de imagens que compartilha, ele planeja algumas publicações tendo em mente a possibilidade de impactar determinados indivíduos.

Nesse sentido, o perfil de Henrique também chama atenção por conter postagens em que desabafa abertamente sobre conflitos da vida pessoal. Quando questionado sobre como se sente ao expor adversidades da vida particular, o jovem declara:

ah, eu me sinto um rei fazendo isso (risos), porque... é que eu, assim, eu gosto muito de ser diferente, e eu sempre notei que o Instagram é uma coisa, ai, mais 'meloso', digamos assim. E eu, não, eu fui direto, tipo assim, se eu tiver que falar alguma coisa eu vou falar, porque eu sei que as pessoas que tão lendo aquilo dali vai [sic] entender pra quem é, e tudo. E aí, então, eu fui botando, na boa (Henrique, 17 anos, Porto Alegre).

Questiono Henrique a respeito da motivação para inserir certas hashtags nas legendas de suas publicações. Algumas delas, como #gay, #negro e #filhodeOxum parecem formas de definir a própria identidade. De fato, o jovem explica que utiliza algumas hashtags para identificar e definir a si mesmo, a exemplo de “filho de Oxum”, pois nem todos sabem que ele “é de religião”. Por outro lado, quando se trata de uma publicação “meio ousadinha”, nas palavras do entrevistado, as hashtags são um recurso para “chamar um pouco de atenção”; Henrique ressalta, porém, que as utiliza não para ganhar curtidas, mas para as pessoas “darem uma olhada”.