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3 O CONCURSO COMO INSTRUMENTO DE ACESSO À FUNÇÃO

3.1 Das Forma de Recrutamento no Acesso à Função Pública

3.1.5 Concurso

3.1.5.2 Alicerces constitucionais do concurso em Portugal

A Constituição Política da Monarquia Portuguesa, de 23 de setembro de 1822, primeiro texto constitucional de Portugal, tinha como um de seus objetivos pôr fim ao absolutismo e instalar uma monarquia constitucional. Apesar de sua breve vigência, foi de grande importância para a Democracia do país.

Tal constituição dispunha em seu art. 13º que “os ofícios públicos não são

propriedade de pessoa alguma”, numa tentativa de por fim ao patrimonialismo que

vigorava em torno da função pública.

Além disso, em seu art. 12º, a Constituição estabelecia que todos os portugueses podiam ser admitidos aos cargos públicos, sem outra distinção, que não fossem “a dos seus talentos e das suas virtude”, criando já na primeira Constituição a semente para o concurso, embora ainda sem muita efetividade, tendo em vista não ter criado mecanismos eficientes para tanto.

Essa Constituição veio, entretanto, a ser substituída pela Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa, que foi outorgada em 29 de abril de 1826. Ela era um pouco mais clara que sua antecessora e estabelecia no §13º, do art. 145º o seguinte: “todo o Cidadão pode ser admitido aos Cargos Públicos Civis, Políticos ou

Militares, sem outra diferença, que não seja a dos seus talentos e virtudes”.

Entretanto, mantinha a mesma ineficácia da primeira Constituição.

Foi na Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 04 de abril de 1838 que se tratou da competência da iniciativa para legislar sobre recrutamento223, mantendo a regra da admissão aos cargos públicos Civis, Políticos e Militares, sem outra diferença que não seja a dos seus talentos e virtudes224.

223

Cf. art. 35º da Constituição Portuguesa de 1838.

224

Importa destacar que em 1845 foi criado em Portugal o Conselho de Estado e, em seguida, o Supremo Tribunal Administrativo, tendo sido inserida a disciplina de Direito Administrativo como disciplina autônoma nas universidades.

Aponta-se o ano de 1851 como o ano da regeneração de Portugal, onde se iniciou um período de grande desenvolvimento econômico e paz social. Foi neste ano que se criou um Ministério denominado de Obras Públicas, Comércio e Indústria, e se verificou o aumento do número de funcionários públicos. Consta desse período o desenvolvimento das comunicações e dos transportes, com caminhos de ferro e estradas. Além disso, foram criados serviços de caráter cultural e social, tais como a ampliação das redes escolares primárias, técnicas e de saúde e assistência social.

Trata-se de período que se esforçou por inserir as garantias individuais no Estado, como resultado da consolidação do liberalismo econômico e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Assim, a Administração Pública passou a se ocupar de atividades de quase todos os setores econômicos e sociais, o que a tornou extremamente complexa, causando alterações no modelo de Estado e exigindo novos métodos de atuação mais eficazes, de modo que o modelo burocrático já não correspondia à realidade, frente à modelos de gestão mais dinâmicos e flexíveis. Começou-se a utilizar aos poucos o direito privado225, principalmente em relação aos contratos.

Entretanto, durante o período da Primeira República sobreveio a Constituição Portuguesa de 1911, que não trouxe avanços no que diz respeito ao concurso, apenas garantindo o exercício de todo o gênero de trabalho, ressalvadas as restrições legais, e conferindo a garantia do emprego aos empregados do Estado durante o serviço militar obrigatório. Durante este período foi criado o Ministério do Trabalho e Previdência Social, mais precisamente no ano de 1916.

Representando a concretização dos ideais de Salazar226 e inaugurando o Estado Novo, com texto coordenado por Marcelo Caetano, sobreveio a Constituição

225

PEREIRA DA SILVA, Vasco. Para um contencioso administrativo dos particulares: esboço de uma

teoria subjectivista do recuro directo de anulação. Coimbra: Editora Coimbra, 1989, p. 45.

226

António de Oliveira Salazar foi uma figura importante na história portuguesa, tendo sido o estadista que ficou por mais tempo no poder. Figurou como chefe de governo entre 1932 a 1968, na conhecida ditadura salazarista, tendo passado o governo para Marcelo Caetano por motivo de saúde, que por sua vez esteve no poder até 1974, quando sobreveio no 25 de abril de 1974 a Revolução dos Cravos que pôs fim à ditadura salazarista.

de 11 de abril de 1933227, que no título das garantias fundamentais ainda mantinha mais ou menos as redações constitucionais anteriores no que tange ao acesso à função pública, de modo a fazer constar no art. 5º, parágrafo único, que a “igualdade

perante a lei envolve o direito de ser provido nos cargos públicos conforme a capacidade ou serviços prestados...”.

Foi somente após a Segunda República, já na Terceira República, portanto, após o 25 de abril de 1974228, que a Constituição da República Portuguesa de 1976 conferiu ao concurso status e reconhecimento constitucional, juntamente com a função pública, quando o art. 47º, ao tratar da “Liberdade de escolha de profissão e acesso à função pública”, estabeleceu no n.º 2 o direito de acesso à função pública a todos os cidadãos, em condições de igualdade e liberdade, em regra por via de concurso.

Todavia, há que se registrar uma brutal mudança nos rumos da função pública a partir do final dos anos 70, com orientações do governo para reduzir o tamanho da máquina estatal e para adoção de modelos de gestão mais comuns ao emprego privado. No dizer de PAULO OTERO, a tentativa de modernização da Administração Pública gerou uma verdadeira “fúria privatizadora”229 da Administração Pública, o que por certo que provocou reflexos no direito de acesso à função pública, como será visto a diante.