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PARTE I. CRIANÇAS E ADOLESCENTES, A SOCIEDADE EM REDE E A TECNOLOGIA

CAPÍTULO 2 – VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

2.2. Violência sexual contra crianças e adolescentes mediada pela TIC: abuso sexual on-line e aliciamento

2.2.3. Aliciamento (grooming) e abuso sexual on-line: dinâmicas

Pesquisadores descrevem o aliciamento como um processo com etapas claramente definidas272. Para simplificar a descrição, utilizarei somente o termo criança para referência

a crianças e adolescentes.

O primeiro estágio é identificado como de conquista de amizade, no qual o adulto busca se aproximar da criança para conhecê-la. Sites exclusivos para crianças, site de jogos infantis on-line, redes sociais são locais onde é possível conhecer crianças e se aproximar delas, por meio de chats e mensagens. A seguir, passa-se para o estágio de

relacionamento, com a intenção de saber mais sobre a vida, a escola, a família da criança,

mas também para criar uma sensação de “melhor amigo”. O terceiro estágio é o de

avaliação de risco, em que o adulto procura se certificar das condições em que a criança

utiliza a tecnologia em sua casa (por exemplo, se o computador está no quarto ou na sala, quem mais usa o computador etc).

O estágio da exclusividade introduz uma maior intimidade nas conversas. O adulto mostra que compreende a criança, e que ela pode se sentir à vontade para conversar com ele. Isso induz a confiança e uma sensação de respeito mútuo. Somente a partir deste ponto é que se iniciam as conversas sobre sexualidade, que pode incluir perguntas sobre as atividades sexuais da criança (se já foi beijada, se costuma tocar o próprio corpo etc).

A partir do momento em que se iniciam as conversas sobre sexualidade, diversos desdobramentos podem ocorrer. Com a confiança estabelecida previamente e fortalecida a cada encontro, o adulto pode querer criar na criança uma sensação de que ele é seu mentor, e que talvez ele seja seu amante no futuro. Quando a criança hesita, sentindo-se pressionada ou invadida, o adulto tende a apelar para esta confiança estabelecida, expressando tristeza, ao que, habitualmente, a criança responderá com o perdão, restabelecendo o vínculo.

272

O’Connell, Rache. A Typology of Child Cybersexploitation and Online Grooming Practices. Cyberspace Research Unit; University of Central Lancashire (UCLan), United Kingdom, p. 97-100; CARDIN, Valéria Silva Galdino e BARRETO, Maíra de Paula. Da Pedofilia E Dos Direitos Da Personalidade Da Criança. Anais do Congresso Nacional do CONPEDI (Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito); p 3983-4012; disponível em http://www.conpedi.org.br/anais/36/14_1172.pdf, consulta em 05/09/2011; CHOO, op cit, p.

Essas estratégias são também chamadas de dessensibilização, que é a introdução gradual de elementos sobre a sexualidade na vida da criança, buscando familiarizá-la com aquilo que, para ela, pode ser ainda algo desconhecido. Para isso, pode haver compartilhamento de detalhes pessoais íntimos da vida sexual do adulto com a criança. Pode-se, ainda mostrar fotos de outras crianças envolvidas em situações de sexo (pornografia infantil).

As conversas sobre sexo podem variar, incluindo descrições mais ou menos explícitas sobre como se masturbar, como masturbar o parceiro, como se faz sexo oral etc. A ideia de que aquele adulto pode ser o mentor da criança acaba servindo como justificativa, sugere-se que a criança aprenderá mais sobre sua sexualidade e, eventualmente, poderá vir a ser um bom amante, podendo até mesmo se encontrar com o adulto pessoalmente depois.

Quanto maior a intimidade, abre-se o espaço para que o adulto sugira à criança que tire fotografias de si mesma e envie para ele, ou que abra a câmera do computador e se mostre para ele, ou ele pode querer se mostrar para a criança.

Este passo pode dar ensejo a estratégias mais agressivas, como a “chantagem on- line”: uma vez obtidas fotos e vídeos da criança (que podem ter sido enviados por ela ou tirados pelo próprio adulto, durante as conversas), passa a manipular fotos, colocando o rosto da vítima em cenas de sexo. Pode haver, então, ameaças de divulgação das fotos manipuladas para humilhar a criança diante de amigos e familiares em sites; ameaça de agressão presencial em casa ou na escola.

As imagens dessa criança podem ser, posteriormente, utilizadas em montagens e ser distribuídas em formato de vídeo ou de fotos pelas redes de trocas de pornografia

infantojuvenil existentes na rede.

O último passo do processo pode ser o convite para um encontro pessoal com o adulto. Esse encontro pode resultar em abuso sexual ou na inserção da criança na exploração sexual e, nos casos mais graves, a morte.

A literatura273 a respeito de abuso sexual contra crianças e adolescentes é

praticamente unânime ao identificar a chamada “síndrome do segredo na criança abusada”, ou “síndrome do silêncio”, que explica o fato de muitas crianças serem vitimizadas durante longos períodos, de forma reiterada, sem que consigam revelar o abuso.

Segundo a literatura, a relação de confiança criada entre o adulto e a criança em uma dinâmica de abuso sexual pode estabelece entre eles uma cumplicidade, que é estimulada pelo adulto por meio de estratégias acima citadas. No caso do abuso sexual “real”, é comum o adulto deixar com que a criança faça atividades que os pais não permitiriam (por exemplo, um passeio ou uma guloseima proibidos), o que dá então margem ao estabelecimento do segredo (“eu não vou contar nada se você não contar”).

Uma vez estabelecida esta relação, torna-se muita vezes extremamente difícil para a criança reportar o abuso; ela se sente culpada por trair a confiança do adulto. Além disso, é comum o relato na literatura de crianças sentirem-se culpadas pelo abuso sexual, por terem sentido prazer em algum momento ou pelo fato de nutrirem afeto pelo adulto e sentirem que, de algum modo, estimularam ou consentiram com a prática do abuso.

Mas a literatura274 ainda lista outras razões para o silêncio, além da relação acima, considerada como sendo de “sedução”:

 “Ameaças físicas ou psicológicas que fazem com que a criança tema por si, por sua família ou por alguém por quem nutra afeto;

 Crianças mais novas, que não possuem conhecimento das coisas do sexo, podem ver o abuso sexual como algo normal e, portanto, não se sentem impelidas a relatar o ocorrido;

 Distorção da realidade – o abusador manipula a realidade da crianças, de modo que ela sinta que é a abusadora, e ele, a vítima, conseguindo, assim, alterar, pelo menos psicologicamente, os papéis que cada um exerce na ação;

 Medo da perda da atenção do abusador, pessoa que a seduziu e por quem nutre afeto;

273

Cf, a respeito CEZAR. Depoimento sem Dano... p. 46-49; RIBEIRO; MANITA, Crianças vítimas de abuso sexual intra-familiar...; BUENO ARÚS. Victimología infantil...; AZEVEDO, Maria Amélia. Consequências psicológicas da vitimização de crianças e adolescentes; SILVA, Célia Nunes et al. Efeitos psicossociais e jurídicos nas vítimas de crimes sexuais... p 90-91.

274

 Medo da punição pela ação que participou;

 Medo de que não acreditem nela e que por isso possam puni-la pela mentira;

 Culpa pela ação que participou – não no sentido legal, mas no sentido psicológico –eis que queria ou não, a criança está ligada à interação abusiva, ainda que participando de forma passiva. A criança equivoca-se, pensando ter participado ativamente do abuso e também ser responsável pela sua ocorrência;

 Falta de evidência médica acerca do abuso.”

Apesar de a descrição da síndrome do segredo estar ligada a abuso sexual “real”, a dinâmica do abuso sexual on-line indica que o fenômeno pode estar também presente nestas situações. A literatura examinada reporta situações em que o adulto, por exemplo, chantageia a criança/adolescente após obter fotos ou imagens suas, o que pode ser suficiente para garantir que o segredo permaneça intacto durante um considerável período de tempo.

Ao considerarmos somente a prática da violência sexual on-line, fica claro que se trata de violência psicológica ou psíquica, traduzindo-se, de maneira geral, em efeitos psíquicos prejudiciais ao desenvolvimento saudável (inclusive o sexual), à dignidade e à honra de crianças e adolescentes.

Não se descarta, todavia, que haja possibilidade de, mesmo sem contato físico algum com o autor de violência sexual on-line, haver dano físico de várias proporções, autoinfligido pela vítima, como uma decorrência da violência psicológica praticada275.