CONSIDERAÇÕES FINAIS 150 REFERÊNCIAS
2 A ALIMENTAÇÃO ESCOLAR ENQUANTO DIREITO EDUCACIONAL, A HISTÓRIA E SUAS NUANCES.
2.1 ALIMENTAÇÃO COMO DIREITO HUMANO, UNIVERSAL E CONSTITUCIONAL
Os direitos humanos fazem parte de uma construção histórica através do tempo, constituídos e regulados por legislações e acordos internacionais, também conquistados através das lutas de movimentos sociais e respaldados juridicamente. Segundo Bobbio (2004), os direitos naturais são históricos, nascidos de uma concepção individualista da sociedade que foram se moldando ao longo do tempo, pois não são estáticos, mas mutáveis. Conforme a necessidade humana e da
sociedade, os direitos sofrem alterações, tanto do ponto de vista individual, como coletivo, numa concepção mais humanista e moderna.
Sabemos hoje que também os direitos ditos humanos são o produto não da natureza, mas da civilização humana; enquanto direitos históricos, eles são mutáveis, ou seja, suscetíveis de transformação e de ampliação. (BOBBIO, 2004 p.32).
De forma geral e internacional o documento que fundamenta os direitos humanos é a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 1948, proveniente do desenvolvimento de uma nova configuração, que passou a ver não só os direitos da natureza humana, mas ampliando o olhar para os direitos de cidadão, que dialogam com os princípios da universalidade de forma mais concreta e positiva.
A Declaração Universal contém em germe a síntese de um movimento dialético, que começa pela universalidade abstrata dos direitos naturais, transfigura-se na particularidade concreta dos direitos positivos, e termina na universalidade não mais abstrata, mas também ela concreta, dos direitos positivos universais. (BOBBIO, 2004 p.30).
Mesmo os direitos humanos sendo universais para sua efetivação necessitam da regulamentação de cada Estado, adequando nesse processo dialético às necessidades de cada povo, habitante e cidadão. Assim como direito humano a uma alimentação adequada que é universal e um direito fundamental, no pleno exercício da cidadania, pois “a alimentação para o ser humano deve ser entendida como processo de transformação da natureza em gente saudável e cidadã” (BURITY, et al, 2010, p. 16).
Segundo (CHAUI, 1989, n.p.) o homem por ele mesmo não é capaz de garantir a efetividade de seus direitos, necessitando recorrer ao aparato dos direitos civis e das leis, através do Estado.
De fato, quando se lê a Declaração dos Direitos Humanos de 1948 percebe- se que a carta dos direitos humanos pressupõe a existência de repúblicas democráticas (mesmo que seja a democracia formal proposta pelo liberalismo), tanto assim que cada um dos direitos declarados tem como referência a existência de um poder público generalizador que opera segundo a lei, e também pressupõe que os homens, com seus direitos ali declarados, são cidadãos.
O Estado como o regulador dos direitos, tem a responsabilidade de suprir e fazer cumprir a Declaração Universal dos Direitos Humanos (UNIC, 2009), principalmente às populações em situação de risco, mas a realidade mostra muitas vezes o favorecimento de determinadas classes sociais em detrimento das camadas mais carentes.
Somos uma sociedade profundamente marcada pelas desigualdades sociais de toda sorte, e, além disso, somos a sociedade que tem a maior distância entre os extremos, a base e o topo da pirâmide socioeconômica. (BENEVIDES, 2012, p. 3).
Diante dessa realidade de pobreza e desigualdades sociais e da pressão dos movimentos sociais foram formuladas muitas políticas públicas, um dos instrumentos do Estado no exercício da sua responsabilidade de amenizar as desigualdades e proteger os direitos de todos, com garantia de proteção à vida, ao bem-estar, a liberdade, a educação, saúde entre outros direitos fundamentais e essenciais à vida humana.
Mas, será que a alimentação é apenas uma necessidade fisiológica, orgânica, essencial para sobrevivência humana? Segundo Ribeiro (2008) a alimentação para o homem é mais do que somente uma necessidade vital, funcional ou elementar, vai para, além disso, é uma necessidade social que diferencia os homens dos animais. Mas em que circunstâncias o direito à alimentação deve vir imbuído? Somente da concepção de nutrir, de algo necessário para continuação da vida ou impregnado de sentido social, do partilhar o pão, de um direito pertencente ao ser cidadão?
Afinal, não somos somente corpos, somos mentes, sentimentos e necessidades sociais, assim como está expresso na Constituição Federal de 1988, no artigo 6º4:
São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (BRASIL, 1988).
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Emenda Constitucional nº 64, de 4 de fevereiro de 2010. Altera o art. 6º da Constituição Federal, para introduzir a alimentação como direito social.
Nesse sentido pode-se afirmar que o direito à alimentação é também um direito social no Brasil, que vem atrelado a outros direitos muito importantes para esse ser social e necessário para o pleno desenvolvimento da cidadania e da dignidade humana. Segundo Ribeiro (2008) a alimentação é uma das necessidades elementares da vida humana, que precisa vir acompanhada de condições adequadas para suprir suas necessidades biológicas, suprir a necessidade de viver em sociedade tendo garantido seus direitos sociais para tal.
Ao tratar do direito à alimentação, é importante salientar de que alimentação se está falando. Aqui será abordado o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), na perspectiva da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), reafirmado através da criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), através da Lei nº 11.346 de 15/09/2006, que trouxe esse contexto humano, social e de proteção do Estado, destacados no art. 2º:
A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população.
§ 1º A adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais.
§ 2º É dever do poder público respeitar, proteger, promover, prover, informar, monitorar, fiscalizar e avaliar a realização do direito humano à alimentação adequada, bem como garantir os mecanismos para sua exigibilidade. (BRASIL, 2006).
SAN é um conceito em construção, conforme descreve Burity et al. (2010), com uma primeira relação ao termo logo após a Primeira Guerra Mundial advindo do conceito de segurança nacional, que se referia à capacidade dos países produzirem sua própria alimentação, evitando ficarem vulneráveis com possíveis embargos e boicotes vindos de países rivais. Já a partir da Segunda Guerra Mundial “[...] a
segurança alimentar foi hegemonicamente tratada como uma questão de insuficiente disponibilidade de alimentos” (BURITY et al. 2010, p 11, grifo do
autor), a partir desse conceito iniciaram-se muitas ações de distribuição de produtos excedentes de países ricos. E se havia países ricos automaticamente tinha os considerados pobres, entre eles o Brasil, que também recebeu ajuda internacional.
Quando se fala em pobreza, também se fala em fome e esse fenômeno afeta todo o planeta, até os países considerados ricos, do ponto de vista da economia mundial. O conceito de fome, muitas vezes, é substituído pelos conceitos
desnutrição/ subnutrição e insegurança alimentar, “[...] conceitos importantes, mas que não podem substituir o conceito de fome, pois não tem a mesma capacidade explicativa” (RIBEIRO, 2008, p. 29).
Se na década de 40 o Brasil foi considerado um país pobre, atualmente segundo o governo federal5 o Brasil participou da Organização Mundial do Comércio (OMC) como um país em desenvolvimento, mas essa melhora estrutural e econômica não pode trazer a ilusão de que aqui não temos mais casos de miséria, fome e insegurança alimentar, as quais merecem muita atenção, com a manutenção das políticas públicas do DHAA.
Nos países em desenvolvimento, a situação socioeconômica da população é um aspecto importante que deve ser considerado na concretização do DHAA, pois ainda que haja expansão, crescimento e desenvolvimento da economia e certa melhora nos indicadores sociais, as desigualdades sociais e econômicas, étnico-raciais, de gênero e de acesso e disponibilidade aos alimentos permanecem como problemas estruturais a serem enfrentados. (GUERRA; MANCUSO; BEZERRA, 2019, p. 3390).
Ferraz (2013) descreve a alimentação saudável como aquela que satisfaz as necessidades nutricionais, que seja segura para o consumo humano, isenta de substâncias prejudiciais à saúde e culturalmente aceitável.
Nessa perspectiva do acesso a uma alimentação saudável Burity et al. (2010) ressalta que, o modo de vida das sociedades modernas dificulta em muito práticas alimentares saudáveis, mesmo entre os mais ricos, com atividades de lazer sedentárias, alto consumo de alimentos ricos em gordura, açúcar, sódio, causando doenças na faixa etária adulta, mas que vem aumentando a incidência também em crianças, doenças como: obesidade, diabetes, altos níveis de colesterol e hipertensão.
A alimentação e nutrição adequadas são requisitos básicos para o crescimento e desenvolvimento humano ideal e devem estar inseridas em ações integradas de promoção de modos de vida saudáveis, lembrando que os direitos humanos (paz, alimentação, terra e território, moradia, renda, educação, ecossistema estável, justiça social e equidade) são indivisíveis e interdependentes. (BURITY et al., p.158).
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Portal Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento: <https://www.gov.br/agricultura/pt- br/assuntos/relacoes-internacionais/negociacoes-comerciais/omc-organizacao-mundial-do-
Discutir alimentação saudável e nutritiva no contexto do DHAA é importante, assim como as políticas sociais de combate à fome no Brasil, sua relação com a política de alimentação escolar e a construção do direito ao acesso a uma alimentação adequada no período de permanência na escola, conforme será apresentada no próximo tópico.