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A alimentação e a nutrição constituem requisitos básicos para a promoção e a proteção da saúde, possibilitando o pleno crescimento e desenvolvimento humano, com qualidade de vida e cidadania. Essas questões estão devidamente contempladas no Sistema Único de Saúde (SUS). O Art. 3º da Lei n° 8.080/90 define que a alimentação constitui um dos fatores determinantes e condicionantes da saúde da população, cujos níveis expressam “[...] organização social e econômica do País” (BRASIL, 1990a, p. 1). No Art. 6º, estão estabelecidas como atribuições específicas do SUS a vigilância nutricional, a orientação alimentar e “[...] o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo” (BRASIL, 1990a; BRASIL, 2003b, p. 12).

O rápido crescimento físico e desenvolvimento do primeiro ano requer uma nutrição adequada, e a vida de uma criança pode ser preservada por meio do aleitamento materno. Vários estudos demonstram que o leite materno tem um potencial de saúde preventivo, com vantagens distintas sobre as fórmulas alimentares infantis (KENNER, 2001).

Durante séculos de história da humanidade, o alimento ideal e exclusivo para os recém-nascidos fora o leite materno, não existindo a possibilidade de escolha de um alimento industrializado disponível para bebês. “A amamentação fora a regra, e quando não feita pela própria mãe o era pelas amas-de-leite ou em raras ocasiões diretamente de outros animais: a vaca, a cabra e a ovelha eram os animais mais usados, por sua docilidade” (REA, 1990, p. 243).

Após um longo período de mudanças na alimentação infantil, que passa pela cultura da ama de leite até a introdução comerciogênica dos leites industrializados, somente no final da década de 80 ficou claro que a amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida é mais segura do que outros tipos de alimentação oferecidos à criança. Resgata-se a superioridade do leite materno como alimento indispensável à criança, principalmente nos primeiros meses de vida, não tendo sucedâneo adequado capaz de substituí-lo (GIUGLIANI, 2000).

O Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, aprovado pela OMS, em 1981, serviu de incentivo à formulação de leis e regulamentações relacionadas ao tema da alimentação. Em conseqüência disso,

No Brasil, a Política Nacional de Aleitamento Materno (com 25 anos de existência) tem como um dos principais avanços a aprovação da Lei Federal nº. 11.265/2006 (BRASIL, 2006), que regulamenta a propaganda abusiva dos produtos que interferem na amamentação. A lei foi elaborada com base na Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Criança de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL), constituída pela Portaria MS nº. 2.051/01 e pelas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) nº. 221 e nº. 222/02. A lei prevê autuação e punição para estabelecimentos de saúde e empresas que não se enquadrarem nos dispositivos da legislação. A transformação da estrutura legal da NBCAL em lei federal representa um marco importante na proteção da amamentação contra as estratégias de marketing no Brasil (PINHEIRO; CARVALHO, 2008 p.178-179).

As dúvidas e controvérsias sobre a duração apropriada da amamentação exclusiva persistiram até o ano de 2001, quando, após a 54ª Assembléia Mundial de Saúde, a OMS passou a recomendar o aleitamento materno por dois anos ou mais, sendo que os seis primeiros meses com leite materno exclusivo, ou seja, a criança deve receber somente leite do peito, sem outros líquidos ou sólidos, incluindo água ou chás, à exceção de remédios e vitaminas ou minerais. A introdução de alimentos complementares deve ser iniciada em torno do sexto mês de vida, em substituição à recomendação anterior, que era de 4 a 6 meses, e integrou essa mudança na sua recomendação para a saúde pública global (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2001; MONTE; GIUGLIANI, 2004).

Para garantir a manutenção do aleitamento materno exclusivo por um período maior e reduzir os índices de desmame precoce, o Brasil estabeleceu legislação específica que favorece condições para que todas as mães possam amamentar seus filhos de forma exclusiva até o sexto mês de vida, continuando a amamentação, num processo de transição alimentar, até os dois anos (BRASIL, 2003b).

São inúmeras as vantagens da amamentação para a criança, a mãe, a família e a sociedade, em geral. Propicia uma nutrição de qualidade para a criança, promovendo o crescimento e desenvolvimento adequados, reduz a mortalidade infantil, graças aos inúmeros fatores existentes no leite materno, que protegem contra infecções comuns em crianças como diarréia, pneumonias, otite média,

diversas infecções neonatais, doenças respiratórias agudas e outras infecções. Entre os benefícios já mencionados, o aleitamento materno confere proteção contra a Síndrome da morte súbita do lactente, a Diabete insulino-dependente, a Doença de Crohn, a Colite ulcerativa, o linfoma, as doenças alérgicas e outras doenças crônicas do aparelho digestivo (GIUGLIANI, 2000; MONTE; GIUGLIANI, 2004).

O uso de suplementos deve ser evitado por interferir no aleitamento materno e por seus possíveis efeitos deletérios, porém muitas vezes se faz necessário por indicação médica. Atualmente, quando a amamentação não pode ser mantida ou praticada, como nos casos das mães infectadas com HIV, tuberculose ou de recém-nascidos prematuros, a alimentação destas crianças é suprida pelos BLH. Estes serviços especializados são responsáveis pelas ações de promoção, proteção e de apoio ao aleitamento materno, pela coleta de leite humano, do seu processamento, controle de qualidade e distribuição (BRASIL, 2006).

O fornecimento de leite humano ordenhado pasteurizado (LHOP) a recém-nascidos atende aos seguintes critérios de prioridade, conforme item 6.11.1, da RDC 171/2006: recém-nascido prematuro ou de baixo peso que não suga; infectado ou com enteroinfecções; em nutrição trófica; portador de imunodeficiência; portador de alergia a proteínas heterológas; e casos excepcionais, a critério médico (BRASIL, 2006).

Atualmente, os neonatos são classificados pela idade gestacional e peso ao nascer, respectivamente: pré-termo (até 37 semanas de gestação), a termo (até 41 semanas de gestação) e pós-termo (acima de 42 semanas de gestação); e, pequeno para a idade gestacional, adequado para a idade gestacional e grande para idade gestacional. Uma classificação adicional foi acrescentada para descrever o recém-nascido que pesa de 500g a 1.499g: peso muito baixo ao nascer (KENNER, 2001).

Os recém-nascidos de alto risco (prematuros ou baixo peso) exigem cuidados especiais por serem mais suscetíveis a infecções, devido à condição de imaturidade orgânica, à complicações da terapia e a causas que desencadearam o trabalho de parto prematuro (KENNER, 2001; SCANLON, 1999). Assim, é indispensável uma atenção cuidadosa aos cuidados referentes à prevenção, os quais incluem uma adesão irrestrita à higiene de mãos e precauções universais, e, entre outros cuidados, o estímulo precoce e adequado da alimentação enteral (STOLL; KLIEGMAN, 2005).

O alimento de escolha ideal para o recém-nascido prematuro (RNPT) é o leite de sua própria mãe, por conter maior concentração de nitrogênio, proteínas com função imunológica, lipídios totais, ácidos graxos de cadeia média, vitaminas A, D e E, cálcio, sódio e energia que aquele da mãe do recém-nascido de termo (NASCIMENTO; ISSLER, 2004). A preservação da amamentação é importante, inclusive em situações especiais, pois constitui um impacto na saúde infantil e nas decisões futuras sobre alimentação tomadas pelas mulheres (IBFAN, 2007). Nesse sentido, é importante estimular as mães dos RNPT a realizarem ordenha manual a cada duas horas, para manutenção da lactação no período em que eles não conseguem sugar o seio materno.

Em virtude da vulnerabilidade dos recém-nascidos prematuros hospitalizados, o acondicionamento e o manuseio adequados do leite materno ordenhado são essenciais para ajudar a minimizar o risco de infecções. Nos casos em que é oferecido o leite materno cru, não-processado, da mãe para seu próprio filho, este deve ser coletado sob supervisão e em local específico para este fim. Preferencialmente, deverá ser utilizado imediatamente após a coleta, para manter suas propriedades únicas intactas e para que não haja proliferação bacteriana. Os recipientes indicados para coleta e armazenamento são frascos de vidro estéreis, por apresentarem pequena perda de gordura e de componentes celulares do leite humano (NASCIMENTO; ISSLER, 2004).

2.3 QUALIDADE EM BANCO DE LEITE HUMANO: PROCESSAMENTO E

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