4.3 Facilitadores e dificultadores para criar valor
4.3.2 Condições adequadas de participação
4.3.2.2 Alinhamento de expectativas, clareza e condução do processo
O alinhamento é estruturante para equalizar expectativas, dar clareza coletiva sobre os objetivos e o processo. Este fator é caracterizado pelo entendimento compartilhado do que está sendo criado, o problema a ser enfrentado e os objetivos que se pretende alcançar. Para os especialistas “se essas expectativas não ficarem claras, se não discutidas, podem causar rupturas do grupo”. Nesse sentido, elas colocam a importância de ter um processo bem definido, com clareza de até onde se vai com a cocriação e qual caminho será percorrido, assim como estabelecer um objetivo que seja compartilhado por todos.
Para tanto, se faz necessário: (1) clareza do problema que se pretende intervir, onde invariavelmente uma pessoa que vive a situação participa da investigação; (2) definir o limite da cocriação, ou seja, até onde se vai com o processo de cocriação; (3) identificar e compartilhar as expectativas; e (4) conhecer a vontade, disponibilidade e contribuições individuais sobre o
processo cocriativo. Para os entrevistados, o alinhamento de expectativas ajuda a não causar frustrações individuais e coletivas, não sobrecarregar as pessoas, assim como, conduzir o processo dentro de uma dinâmica que faça sentido para todas as participantes da cocriação.
O ESP destaca a estruturante importância de estabelecer acordos claros e que esses acordos façam sentido para o coletivo e sejam cumpridos por todos para manter o grupo coeso e nutrir as relações de confiança. Os acordos claros ajudam a “entender como será a dinâmica e qual é o papel de cada uma das pessoas no processo”. E ainda destacam que é importante o grupo ter autonomia para estabelecer os acordos e caracterizar o que constitui o espaço de segurança e confiança de maneira específica para o grupo. Para o CAM, além disso, são necessários contornos claros e procedimentos de gestão. O contorno da gestão está associado à distribuição de papéis e responsabilidades de maneira equilibrada, alinhando expectativas e estabelecendo níveis de participação e zonas de autonomia. (CAM).
Destaca-se que no nível de alinhamento, as coprodutoras (CAM e IFP) citam fortemente o alinhamento de princípios e valores e complementaridade dos inputs entre as organizações parceiras, assim como alinhamento de propósito como fatores que influenciam o valor social na coprodução. O IFP ainda destaca a importância de alinhar o modo de operar, respeitar e considerar as dinâmicas do contexto e as diferenças socioculturais e econômicas dos participantes.
Sobre as diferenças de modo de operar, o IFP declara que a divergência não é um problema e nem um lugar a ser consertado ou resolvido. É, antes, um lugar de reconhecimento, compreensão e adequação de como alinhar os princípios e valores, cuidar das relações e realizar o projeto. E para eles, não há um jeito específico que é certo, depende do contexto e por isso precisa de conversas de alinhamentos. O IFP, destaca que o modo de operar do Instituto é permeado pelas dinâmicas específicas da favela e que compreendem que há outros modos de operar mais adequados em outras circunstâncias. Reforçando de todo modo, a necessidade de alinhamento para não romper as relações, os vínculos e a confiança.
O Cambia precisa de uma pré-produção e isso é diferente da forma como operamos. A forma como o Instituto faz as coisas é diferente da forma como o Cambia faz as coisas.
E sempre vai ser diferente. Não quer dizer que é melhor ou pior. O modo de viver dentro da periferia é muito diferente e peculiar. (IFP, 2020)
Para o IFP, quando se trata de parcerias estabelecidas por organizações como diferentes contextos socioculturais e econômicos é imprescindível compreender, considerar e respeitar as dinâmicas locais, especialmente em contexto de pobreza, vulnerabilidade e violência. As
participantes evidenciaram a importância de ter respeito com o modo de vida local, especialmente quando se trata da favela. Destacando que o modo de operar na favela é diferente dos grandes centros, afirmam que “o limite é outro”. Por serem mais intuitivas, consideram o sentir como um parâmetro daquilo que se pode ou não confiar. Afirmam que o respeito local pode estar no “silêncio do sentir”, porque na favela, citando como exemplo:
Uma palavra errada, no lugar errado, com a pessoa errada, pode ser desastrosa. Não dá tempo de explicar. O sujeito tá ali no bar que ele costuma ir, ouve algo de alguém estranho… tira a arma do bolso e atira. É assim que as coisas acontecem aqui. E quem vem de fora não sabe disso.
Por isso, sempre que eu entro em uma comunidade, eu busco conhecer primeiro os limites locais, entender quem é a liderança e andar com ela o tempo inteiro. Isso é respeito com o local. (IFP, 2020)
Complementam que as dinâmicas na periferia são específicas e nunca se sabe quando é ou não seguro. Por isso, segundo elas, quem vem de fora precisa estar ancorado nas orientações de quem vive no bairro, para identificar os limites e poder respeitar e se inserir no contexto local de maneira respeitosa e responsável, entendendo a priori os limites locais:
Todas as vezes que entro em uma comunidade, a primeira coisa que faço é entender e respeitar os limites do lugar.
Eu nunca sei o impacto que pode gerar em um contexto que não conheço. É preciso entender e respeitar até onde se pode ir, até onde eu posso dizer alguma coisa para alguém. É preciso de cuidado e respeito com os limites e contexto local. (IFP, 2020)
Assim, compreender e respeitar o contexto inclui para os entrevistados estar consciente sobre as desigualdades estruturais de classe, cor de pele e gênero. Nessa dinâmica e interação entre quem é da favela e quem vem de fora, é preciso ter sensibilidade ao contexto histórico de desigualdade. Para elas, é essencial respeitar, valorizar e privilegiar o modo de operar e os saberes locais. Elas completam dizendo que quem vive em contexto de vulnerabilidade social aprendeu a sobreviver de uma maneira específica e quem chega de fora não pode chegar dizendo o que fazer e o que não fazer, especialmente quando a proposta é construir junto.
É importante tomar o cuidado na hora de falar para não excluir os demais por uma questão de gênero, origem e cor de pele. A gente vai resolver o histórico de opressão e exclusão se comunicando melhor e com compaixão. Mas é importante estarmos conscientes dessas desigualdades para não machucar ninguém e incluir todos.
As pessoas que não moram [aqui na favela] precisam entender em qual contexto estão. Tem coisas que não se faz na favela, aqui as coisas não funcionam da mesma forma [do que as regiões centrais], tem outras dinâmicas, as relações são outras. Nunca se sabe exatamente 'quem é quem'. (IFP, 2020)
Desta maneira, para o alinhamento que antecede e permanece durante o processo há forte recomendação para cuidar da qualidade da comunicação e do diálogo (CAM e IFP). Todos os grupos declararam a importância de conversas transparentes e honestas em um ambiente de confiança e escuta empática, como uma maneira de estabelecer conexões mais profundas e criar relações de confiança (ESP, CAM e IFP). Associam a qualidade do diálogo com um espaço de transparência para que cada uma das pessoas possa expor suas intenções, sentimentos, dores, expectativas de maneira franca, transparente e honesta (ESP, CAM e IFP).
O CAM também destaca a importância da qualidade do diálogo em um espaço respeitoso, acolhedor e igualitário de conversa, em que haja ampla abertura para diferentes opiniões e que as pessoas se sintam livres, confortáveis e acolhidas para manifestarem como se sentem, quais são suas vontades, importâncias e eventuais desconfortos. Ressaltam que um bom ambiente de diálogo há espaço onde se pode celebrar e reconhecer as conquistas, valorizar os esforços individuais e coletivos de maneira equitativa, mas também para poder falar e compartilhar aquilo que não está dando certo e pode ser cuidado em coletivo (CAM). Em especial para o IFP, o diálogo, não necessariamente tenha como objetivo chegar a um ponto comum sobre como fazer as coisas, mas sim uma compreensão sobre as diferenças no modo de fazer para encontrar um ponto de alinhamento. Nesta perspectiva, em especial para IFP a natureza da conversa permite que as pessoas possam cuidar em coletivo o que é importante para todas as pessoas.
Antes de chegar com o que precisa ser feito, é estruturante criar um espaço de aproximação, conexão e confiança.
Para isso, precisa entrar no lugar da transparência, onde as pessoas possam dizer o que sentem, o que tá e o que não tá bom, isso vem antes do que a realização do projeto (IFP, 2020)
É importante ter um espaço de fala para expor o que as pessoas estão sentindo e pensando para poder compartilhar responsabilidades e estabelecer relações de confiança.
(IFP, 2020)
É importante ter diálogo, e uma metodologia e protocolos para conduzir esse diálogo. A comunicação precisa ser cuidada, é imprescindível em um projeto cocriado ter cuidado com o diálogo e com o espaço de fala igualitário.
[...] Cuidar das relações neste nível para gerar qualidade do pensamento e das discussões. (CAM, 2020)
É importante ter um espaço seguro e aberto para incentivar a celebração e o luto. Espaços acolhedores, respeitosos para a gente expor os nossos sentimentos e necessidades.
[...] É importante ter um espaço para celebrar e reconhecer os avanços, e também um espaço para colocar as dores para serem cuidadas e olhadas em coletivo. Porque isso interfere no nosso trabalho em conjunto e na disponibilidade que cada um tem. (CAM, 2020)
Cuidar da comunicação é importante porque gera uma qualidade de pensamento do grupo e uma qualidade nas discussões. Às vezes quando a gente não tem esse cuidado com a comunicação a gente não tem uma escuta ativa e uma fala com intenção. Então é fácil chegar no lugar onde cada um expõe sua opinião, não chega em resultado nenhum e ainda é muito fácil chegar nos conflitos. (CAM, 2020)
Assim, pode-se dizer que qualidade da comunicação é um fator estruturante para estabelecer e manter o alinhamento entre as pessoas durante o processo de coprodução. A qualidade do diálogo, está ao lado da reciprocidade e mutualidade como fatores constituintes do cuidado com as relações, que influenciam as relações de confiança. Na figura 9, representam-se as condições de participação nas perspectivas dos coprodutores (CAM e IFP), com destaque para os contornos de gestão. Lembra-se que esta perspectiva, dialoga e aprofunda a perspectiva de especialistas (ESP).
Figura 9: Condições adequadas – contorno da gestão
Fonte: Elaborada pela autora (2021).
Na figura 10, a seguir, também se apresentam os fatores associados às condições de participação, mas com recorte para o cuidado com as relações, fator estruturante do processo (ESP, CAM e IFP).
Figura 10: Condições de participação: cuidar das relações
Fonte: Elaborada pela autora (2021).
Nota-se na figura 10 que algumas das condições (quadros azuis) estão associadas a efeitos potencialmente positivos (quadros roxos) A seguir as características do campo da cocriação, como última subseção do capítulo de resultados. Ao final, sintetiza-se os principais facilitadores e dificultadores na perspectiva dos três públicos.