2. REVISÃO BIBLIOGRAFICA
2.6. Processos Químicos Capilares
2.7.1 Alisamento /Relaxantes
O cabelo é uma das poucas características físicas que podemos mudar facilmente. Seu comprimento, cor e forma podem ser modificados para criar um estilo totalmente diferente. No entanto, os processos comuns de tratamento químico também são conhecidos por induzir mudanças na cutícula e córtex do cabelo e destroem parte de sua estrutura. Portanto reabastecer as proteínas do córtex de cabelos danificados por esses processos de alisamento e estudar os químicos necessários para restaurar as fibras para obter um estado mais saudável são de fundamental importância nessa investigação.
A procura por processos de transformação capilar provoca mudanças na aparência dos cabelos visando uma sensação de bem estar e autoestima. Sucessivas aplicações de processos químicos e físicos nas fibras capilares resultam em cabelos com diferentes características químicas, físicas e estruturais, mas essas características finais a nível molecular/atômico ainda são pouco conhecidas (COLENCI, 2017).
Quando se deseja tornar o cabelo mais liso, é necessário aumentar o raio de curvatura dos fios. Isto pode ser conseguido por alisamento térmico (temporário) ou químico (permanente). No alisamento temporário se utiliza exclusivamente as chapinhas e escovas. O calor fornecido (energia térmica) é capaz de quebrar algumas interações moleculares, desmanchando as estruturas de α-hélices no córtex. Dizemos que a queratina foi desnaturada e passa a assumir uma nova forma, denominada folha-β-pregueada (OLIVEIRA, 2013).
Este fenômeno é conhecido como transição α→β-queratina e é responsável pela maior mobilidade e fluidez das proteínas do cabelo, deixando-os lisos. Com o aumento da umidade, recuperam-se as ligações originais e as proteínas retornam a forma de α-hélice. O alisamento é temporário, pois a desnaturação proteica é um processo reversível (OLIVEIRA, 2013).
O alisamento permanente ou o alisamento químico, é a outra maneira de se obter cabelos lisos pois consiste em fazer as mesmas alterações nas estruturas proteicas do córtex, porém, quebrando as interações intermoleculares por oxirredução e reorganizando-as (HALAL, 2011).
Inicialmente reduz-se a queratina em meio básico (hidróxido de sódio, hidróxido de lítio, amônia, tioglicolato de amônio ou guanidina) com um agente redutor (grupo mercaptano ou sulfeto), rompendo as ligações dissulfídicas. Após, realiza-se a neutralização para cessar a redução da queratina, empregando-se uma solução ácida (ácido tioglicólico) e um agente oxidante (peróxido de hidrogênio), reestabelecendo novas interações dissulfídicas organizadas em folha-β. Então, faz-se a impermeabilização do cabelo (formol, glutaraldeído) para evitar que ocorra a conversão da estrutura β em α. Este processo é mais efetivo e assim gera maior durabilidade. (OLIVEIRA, 2013) A Figura 11 ilustra as estruturas químicas dos principais alisantes utilizados atualmente.
Figura 11- Estrutura química da carbocisteína, ácido glioxílico, formol e tioglicolato de amônio, respectivamente.
Fonte: DIAS, 2015.
O uso do formol como alisante é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2017), seu uso é permitido em cosméticos na concentração máxima de 0,2%, tendo como função a conservação do produto contra microrganismos, nesta concentração o formol não possui ação alisante. Apesar disso, ele é amplamente utilizado acima dessa concentração de forma ilícita em muitos processos com o intuito do alisamento.
Recentemente o ácido glioxílico e a carbocisteína vem sendo utilizados como uma alternativa ao formol, porém o uso de ácido glioxílico em procedimentos de alisamento capilar tais como “realinhamento capilar, defrisante, botox capilar, reestruturação capilar, blindagem capilar, escova progressiva” e outros cujo modo de uso esteja associado ao uso de
chapinha estão todos irregulares no mercado, seu uso é liberado apenas com a função de ajuste de pH e tamponante (ANVISA, 2017).
O primeiro passo no processo de alisamento é o desenrolar da ondulação do cabelo com a ação de inchamento (intumescimento) radial da fibra e a subsequente supercontração da fibra, onde deve ser irreversível e substancial (5% ou mais), pois só assim o alinhamento permanente pode ser alcançado.
Os "relaxantes" dos cabelos simplesmente quebram essas ligações dissulfeto e as limitam, de modo que não podem se refazer quimicamente e não voltarão ao seu estado original. Esses relaxantes geralmente consistem de hidróxidos de metais alcalinos e guanidina como agentes de alisamento ativos que clivam as ligações dissulfeto presentes no cabelo (SYED et al. 2003). O cabelo é então alinhado mecanicamente usando um pente para reestruturar a posição das ligações dissulfureto entre as novas queratinas polipeptídicas. Na Figura 12 pode-se observa resumidamente o processo de alisamento.
Figura 12 - Processo de quebra e formação de novas ligações de dissulfeto durante o processo de alisamento com o tioglicolato de amônio.
O uso de alisamentos capilares é responsável pela remoção da camada monomolecular de ácidos graxos covalentemente ligados à cutícula, incluindo o ácido 18-metil eicosanóico (18-MEA). Esta camada hidrofóbica posterga a penetração de água na fibra capilar e evita alterar suas propriedades físicas, assim, a remoção desta camada resulta em fio mais suscetíveis à eletricidade estática e ao frizz induzida pela umidade, além de perda de brilho, como citado em Miranda et al (2014).
Estima-se que hoje mais de 60% das mulheres brasileiras fizeram ou fazem uso de produtos de alisamento. Dessa maneira a indústria cosmética tem um grande interesse em produzir produtos de alisamento capilar seguro, conhecer os danos causados pelos processos e, consequentemente, poder fornecer produtos de reparação para esses danos (OLIVEIRA, 2013).
Há diversos estudos abordando a perda de proteínas no cabelo após alisamento, considerando que existe uma associação entre o dano capilar e a perda de proteínas. Vários métodos espectrofotométricos têm sido propostos para a determinação de proteínas totais dos cabelos, mas não há uma metodologia universal para todos os meios (SÁ DIAS et al., 2008). Os métodos mais utilizados e mencionados nos estudos científicos são: Lowry, Bradford e Kjeldahi (LOWRY, 1951; BRADFORD, 1976; SANDHU; ROBBINS, 1993; SANDHU et
al., 1995; SÁ DIAS et al., 2008) e Kjeldahi (VILLA et al., 2008).
No estudo de Dias (2015) percebe-se que o escopo avalia o dano na fibra capilar, de amostras não tratadas e nas que receberam aplicação de alisantes/relaxantes tradicionais e alternativos. Os resultados indicam que todos alisantes/relaxantes utilizados com os seguintes ingredientes ativos: hidróxido de sódio, tioglicolato de amônio, hidróxido de guanidina, formaldeído e ácido glioxílico isolado e em combinação com carbocisteína sugerem que não há predominância de um procedimento mais danoso que os demais, e que todos os produtos aplicados alisaram os cabelos, porém causaram danos. E os alisantes à base de ácido glioxílico e formaldeído reduziram de forma expressiva a tensão de ruptura, tornando-os mais frágeis e a maior perda proteica pode ser observada na amostra tratada com carbocisteína.
Em outro estudo realizado por Colenci (2017), ele analisou os efeitos do uso de alisantes contendo carbocisteína, ácido glioxílico, formol e tioglicolato de amônio com uma aplicação e com sucessivas aplicações, além do uso destes alisantes concomitantemente a outros processos químicos tais como coloração e a descoloração na fibra capilar em que se objetivou um melhor entendimento dos diversos tipos de danos causados nas fibras capilares pelo uso do alisantes estudados que foram o ácido glioxílico, da carbocisteína e do formol. Os resultados obtidos mostraram que todos os sistemas de alisamentos estudados afetaram de forma irreparável à matriz do cabelo e a energia de ruptura também foi afetada com o uso de
todos os alisantes, indicando uma perda da resistência mecânica e a consequente perda da elasticidade da fibra.