4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Alocação de fundos especificamente para mulheres no esporte
Um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs), que estão na Agenda 2030 da ONU (2014) é a igualdade de gênero, e ter as mesmas condições básicas, são, além de um direito humano fundamental, a base para a construção de um mundo pacífico, sustentável e próspero. Sendo que essa igualdade de condições tem efeitos multiplicadores no desenvolvimento de um mundo mais sustentável.
Nesse sentido, a igualdade de oportunidades, inclusão e não discriminação são um dos princípios de empoderamento das mulheres, empoderamento esse que significa uma maior liberdade de escolha e ação para aqueles que vivem em relações de subordinação ou são desprivilegiados socialmente, que é o caso das pessoas em situação de pobreza, das mulheres, dos negros, dos indígenas, como tantos outros grupos sociais (ONU MULHERES, 2017).
Desse modo, o IOC Gender Equality Working Group (2018), pontuou seis fatores que formam a base para as 25 recomendações para a equidade de gênero, sendo um deles a alocação de fundos especificamente para mulheres no esporte e, uso do financiamento como um incentivo para as organizações implementarem a equidade de gênero.
Dentro das recomendações específicas sobre alocação de fundos para promover e equidade de gênero do IOC Gender Equality Working Group (2018), é reconhecido que alguns Comitês Olímpicos Nacionais e algumas Federações Internacionais já alocam fundos específicos para as mulheres no esporte, e as recomendações vão no sentido de que quem recebe financiamento do COI deve determinar uma alocação para a implementação das 25 Recomendações do Projeto de Equidade de Gênero do COI, e as mesmas ainda, são incentivadas a alocar fundos recebidos de suas próprias fontes de receita para realizar iniciativas focadas em alcançar a equidade de gênero em sua organização.
Na fala do entrevistado foi possível destacar “a mesma condição básica (salarial e técnica) para a Seleção Brasileira, entre ambos os gêneros”, seleção essa que foi para os Jogos Olímpicos de Tokyo 2020, e que contou também com o mesmo número de representantes masculinos e femininos nas categorias de street e park, sendo o principal motivo encontrado na fala do sujeito, “impulsionar e alicerçar a estrutura desses skatistas”.
A partir da entrevista, outras ferramentas de financiamento foram observadas como incentivadoras da equidade de gênero: a) Equiparação da Premiação nos campeonatos homologados pela CBSk desde 2018, b) Cursos para que mulheres possam entender um pouco mais a questão do skate institucional, e c) a promoção de Campeonatos Exclusivos Femininos, decisão essa que foi tomada em conjunto com o Conselho Feminino da CBSk para que “todas vocês se sintam mais à
vontade em um ambiente de competição, e não fique aquela questão de comparação” (APÊNDICE A).
Historicamente foi o tênis o primeiro esporte a pagar uma premiação igual para homens e mulheres, graças a um movimento feminino promovido pela jogadora Billie Jean King e outras tenistas, isso em 1973 no US Open, Billie Jean chegou a competir contra o ex-tenista número 1 do mundo, Bobby Rigs, e a partida ficou conhecida como “batalha dos sexos”, a tenista venceu todos os sets, e se tornou um símbolo histórico da luta por condições mais justas para as mulheres (BADENAS, 2019).
As premiações iguais foram entrando aos poucos em outros esportes como o atletismo e a natação, porém ainda existem grandes discrepâncias em esportes tidos como “masculinos” como é o caso do futebol e do basquete, ainda vale ressaltar que nem todos os campeonatos oferecem a premiação igual, mesmo nos esportes citados anteriormente (BADENAS, 2019).
Recentemente, no ano de 2018, o World Surf League (WSL), maior evento de surf mundial, divulgou a equiparação da premiação entre homens e mulheres, a partir de 2019, confirmando que todos os eventos organizados pela liga terão a premiação igual (MUNHOS, 2018).
Munhos (2018), escreve que além da igualdade de premiação, a WSL anunciou novas iniciativas para serem adotadas na temporada de 2019 e com isso promover as mulheres no esporte:
“Uma campanha de marketing global para destacar o circuito feminino, além de aumentar a visualização dos eventos e o envolvimento dos fãs;
Um programa local de envolvimento da comunidade para meninas em todo o mundo, com clínicas instrucionais com atletas da WSL em cada etapa feminina do Championship Tour para inspirar novas gerações a abraçar o surfe;
Uma série de conteúdos mensais sobre as mulheres pioneiras do surfe, celebrando-as nos canais da WSL”
Foi só no ano de 2020 que o futebol passou a ter a mesma premiação e cotas de diárias entre homens e mulheres, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ainda, apresentou uma coordenação totalmente feminina para a área pela primeira vez, com Aline Pellegrino como coordenadora de competições femininas e Duda Luizelli como coordenadora da seleção brasileira feminina (LEISTER FILHO, 2020).
Voltando para o skate, em 2018, no campeonato de skate park da Oi Park Jam que aconteceu em Itajaí/SC, a skatista profissional Yndiara Asp ficou em 1º lugar na categoria feminina e recebeu um cheque no valor de R$5.000,00, enquanto Pedro Barros que correu na categoria masculina e, que também ficou em 1º lugar, recebeu três vezes mais, com um valor de R$17.000,00 pela colocação, essa discrepância nos valores da premiação são um reflexo de como ainda existe um estigma muito grande em torno da categoria feminina, no caso deixando bem claro que a mulher vale menos que o homem (WILKSON; TORRALBA, 2018).
As justificativas usadas pelos organizadores do evento foram de que essa diferença na premiação se dá pelo nível de competitividade, dizendo que o nível do masculino é muito maior do que o feminino e que por esse motivo os homens gastam mais para se manter no topo, e que teriam poucas participantes com um alto nível participando da categoria feminina (WILKSON; TORRALBA, 2018).
Durante a entrevista quando questionado ao participante se existe um fundo específico de alocação para o skate feminino, sua resposta foi de que:
“ficaria difícil, dentro desse momento de estruturação, a gente alocar uma coisa específica para isso, fora das coisas que a gente já está fazendo, como campeonatos exclusivos, o aumento do número de mulheres dentro da diretoria da Confederação, então essa é uma questão que não tem especificamente um fundo específico, mas onde todas as ações da CBSk, esse assunto, ele é discutido sim” (APÊNDICE A)
Nesse sentido, o IOC Gender Equality Working Group (2018) descreve que esse tipo de alocação é uma ferramenta eficaz para implementar a equidade de
gênero em uma organização, onde sugere “institucionalizar ações específicas”, e avisa para ter cuidado com argumentos internos, como "carga administrativa, falta de habilidades ou processos de gestão”, pois eles podem ser usados como objeções para a implementação de ações específicas.
Entrando na questão de campeonatos exclusivos femininos, é fato que antigamente, por volta dos anos 2000, as mulheres skatistas lutaram para que existisse a categoria feminina dentro dos campeonatos masculinos, pois as mesmas já realizavam campeonatos exclusivos femininos para se fazerem ver, (FIGUEIRA; GOELLNER, 2012), e hoje em dia, por que essa questão retrocedeu?
Atualmente já existem campeonatos brasileiros exclusivos femininos nas modalidades do skate street e do park, que são as modalidades com o maior número de praticantes do Brasil, esses campeonatos são organizados pela Associação Feminina de Skate, no ano de 2016 contou com 75 inscritas e esse número foi aumentando, e no ano de 2019, no campeonato realizado na pista de skate do Corinthians, teve recorde de inscrições femininas, contando com 185 inscritas (MARIMOTO, 2019).
É certo que esse é um número muito expressivo, quando comparado aos campeonatos “masculinos” que contam com a categoria feminina, onde é visto um número reduzido de participantes, como foi o caso do Oi Park Jam que contou com 10 inscritas (WILKSON; TORRALBA, 2018).
Dentre as mulheres skatistas, fazem parte 19% do total de skatistas no Brasil, de acordo com a pesquisa realizada pelo Datafolha (2015), e quando olhamos para as skatistas profissionais são apenas 4% entre todas modalidades.
Com esse número reduzido de participantes, fica uma grande dúvida que não consegui responder para encerrar esse tópico, seria o campeonato exclusivo feminino uma forma de exclusão? Por que não trabalhar a equidade de gênero dentro do próprio campeonato “masculino”? Ou, será essa uma oportunidade para se fazer ver novamente?
Ao analisar o assunto sobre financiamento e alocação de fundos específicos, pôde-se perceber que a CBSk tem promovido ferramentas que contribuem com a equidade de gênero como: a mesma condição básica (salarial e técnica) para a Seleção Brasileira de Skate; Equidade na premiação em campeonatos
homologados pela CBSk desde 2018; Cursos para as mulheres entenderem mais a questão do skate institucional; E, a promoção de campeonatos exclusivos femininos. Por outro lado, a alocação de fundos específicos para atender as recomendações do IOC não faz parte desse movimento. Ainda, o campeonato exclusivo feminino tem sido uma ação recente que deixa uma perspectiva aberta sobre sua colaboração para a equidade.