2. O PROGRAMA DA NOVA IGREJA
2.2. Altar-mor
Como vimos, de acordo com a teologia católica a Missa é a renovação do Sacrifício de Cristo no Calvário, ocorrida no momento da consagração do pão e do vinho, efetuada pelo presbítero ordenado e que ocorre no altar, sendo assistida pela assembleia a partir da nave. A centralidade do altar em face aos demais elementos é tal que ele aparece descrito no
Catecismo da Igreja Católica:
§ 1838. O altar, em torno do qual a Igreja está reunida na celebração da Eucaristia, representa os dois aspectos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor, e isto tanto mais porque o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo, presente no meio da assembleia de seus fiéis, ao mesmo tempo como vítima oferecida por nossa reconciliação e como alimento celeste que se dá a nós. “Com efeito, que é o altar de Cristo senão a imagem do Corpo de Cristo?” - diz Santo Ambrósio; e alhures: “O altar representa o Corpo [de Cristo], e o Corpo de Cristo está sobre o altar”.
Após a reforma litúrgica, o aspecto mais notável desse elemento é, como vimos, a celebração versus populum. Mas também outras características, anteriormente necessárias, caminharam para uma simplificação, em que ele simbolicamente assume os aspectos da mesa de comunhão (que no rito antigo separava o presbitério da nave e cuja prescrição não é mais necessária). Nas imagens 20 e 21 ilustram-se dois exemplos de missa versus Deum e versus
populum:
Imagens 20 e 21. Missas celebradas versus Deum e versus populum. Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ad_orientem#/media/File:Missa_tridentina_002.jpg e
http://www.arquidiocesejuizdefora.org.br/index.php/2014-08-12-16-38-10/noticias/808-centenas-de- fieis-participam-de-missa-no-domingo-de-pascoa
Acesso: 21 nov. 2016
Quais são, portanto, as prescrições novas para o altar? Assim dispõe a Instrução: 299. Onde for possível, o altar deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo. Pela sua localização, há-de ser o centro de convergência, para o qual espontaneamente se dirijam as atenções de toda a assembleia dos fiéis. Normalmente deve ser fixo e dedicado.
(...)
301. Segundo um costume e um simbolismo tradicional da Igreja, a mesa do altar fixo deve ser de pedra natural. Contudo, segundo o critério da Conferência Episcopal, é permitida a utilização de outros materiais, contanto que sejam dignos, sólidos e artisticamente trabalhados.
O Código de Direito Canônico tem um capítulo dedicado aos altares: CAPÍTULO IV
DOS ALTARES
Cân. 1235 — § 1. O altar, ou seja, a mesa sobre a qual se celebra o sacrifício eucarístico, diz-se fixo, se for de tal forma construído que adira ao pavimento, e portanto não se possa remover; móvel, se puder transferir-se. § 2. Convém que em todas as igrejas haja um altar fixo (...).
Cân. 1236 — § 1. Segundo o costume tradicional da Igreja, a mesa do altar fixo seja de pedra, e até de uma única pedra natural; todavia, a juízo da Conferência episcopal, pode também utilizar-se outra matéria digna e sólida. Porém as colunas ou a base podem ser feitas de qualquer outra matéria. § 2. O altar móvel pode ser construído de qualquer matéria sólida acomodada ao uso litúrgico.
(...)
§ 2. Conserve-se a antiga tradição de guardar sob o altar fixo relíquias de mártires ou de outros santos, segundo as normas contidas nos livros litúrgicos.
(Fonte: disponível em http://www.vatican.va/archive/cod-iuris- canonici/portuguese/codex-iuris-canonici_po.pdf. Acesso 22 nov. 2016).
Dada essa importante modificação, a questão do altar no projeto de intervenção é um dos aspectos mais delicados. Afora soluções mais radicais, pode-se pensar, a princípio, em duas alternativas para a celebração da Missa versus populum em altares tradicionais. A primeira é deslocá-lo da abside e do retábulo; a segunda, preservar o altar-mor original e construir um segundo altar em frente a este. A primeira alternativa parece ter sido a adotada, por exemplo, em algumas igrejas coloniais brasileiras que já eram tombadas na época do
Imagem 22. Igreja de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação, em Andrelândia, MG.
Altar, originalmente versus Deum, deslocado para missa versus populum. Fonte: Izabella Pinheiro, 2016.
Já a solução através da adição de um novo altar é um recurso viável, mas ele deve ter sempre estabilidade suficiente para não tombar durante a celebração e derramar hóstias e vinho consagrados. A Instrução pede que, sempre que possível, o altar seja fixo ao chão (a necessidade de preservação de um ambiente de interesse cultural pode justificar a adoção de um altar móvel) (Imagem 23). Cuidado deve ser tomado, todavia, para a nobreza e a dignidade do novo altar (algo não alcançado na Igreja de São Mateus em Juiz de Fora - Imagem 24).
Imagem 23. Igreja de San Juan de Castrojeriz, Espanha. Fonte:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Altar_mayor_y_presbiterio_ de_la_iglesia_de_San_Juan_de_Castrojeriz.JPG Acesso: 21 nov. 2016
Imagem 24. Igreja de São Mateus, Juiz de Fora. Adição de um novo altar, móvel, “retrabalhável” mas
com pouca dignidade. Fonte: DUARTE (2013, p. 57).
A convivência de dois altares, um versus populum e outro versus Deum, pode parecer até inusitada, mas a presença do altar-mor original não cria nenhum entrave à celebração da Missa no altar novo, conforme observa Guido Marini (2010, p.), mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias de Bento XVI e de Francisco:
Assim se compreende por que é ainda hoje possível celebrar a Missa nos altares antigos, quando as particulares características arquitetônicas e artísticas de nossas igrejas o devessem aconselhar.
Em ambas as situações, pode ocorrer que em igrejas onde o presbitério é muito pequeno a movimentação dos presbíteros e dos acólitos fique prejudicada, recorrendo-se ainda à necessidade de ampliação do presbitério.
A pedra tem embasamento bíblico, visto que em numerosas passagens bíblicas Cristo é referido como a “pedra angular”, metáfora que, no contexto das técnicas construtivas de então, fazia referência aos alicerces de um edifício — como em: “a pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (I S. Pedro, 2.7). Outros materiais, todavia, são admissíveis (desde que nobres, condizentes à dignidade da Missa). De fato, uma constatação frequente no contexto brasileiro é a de que muitas igrejas tombadas têm altar em madeira; em tais casos, a adição de um novo altar deve considerar a pertinência de sua execução em pedra (devido, inclusive, à atual disponibilidade de materiais como granitos).
Mas houve outro aspecto importante, que trouxe novos desafios. O altar-mor, em geral, acaba sendo o único altar utilizado. Tradicionalmente, as igrejas podem ter mais de uma
nave, e o altar-mor pode ser localizado na nave central. Havia altares laterais (que, conforme veremos, foram inutilizados com a reforma), onde também se poderia celebrar a Missa concomitantemente. Em diversas igrejas as naves eram separadas por uma coluna de pilares – com isso, os fiéis assentados nas naves laterais podem ter dificuldades em assistir à Missa celebrada no altar-mor –. Em alguns casos, o presbitério foi ampliado para a manutenção da visibilidade. Mas há casos onde essa alternativa simplesmente não é possível; esse problema permanece insolúvel em muitos casos, como veremos nas igrejas de Juiz de Fora estudadas: a Catedral Metropolitana e a Igreja de Nossa Senhora da Glória (Imagens 43 e 62).
A diferença entre um altar e outro fica didaticamente ilustrada por um pequeno vídeo retirado do youtube (criativamente nomeado “Altar-ation”) numa igreja da França; um altar onde acabou de ser celebrada uma missa do Vaticano II é reconfigurado para a liturgia de Trento (Imagens 26 e 27):
Imagens 25, 26 e 27. Do altar Vaticano II (13s) ao altar de Trento (4min16s e 5min25s).