PARTE I: O Jornalismo visto de fora para dentro
2. O impacto da Internet no jornalismo tradicional
2.4. Alteração das rotinas produtivas dos meios tradicionais
“O jornalismo on-line não é um epifenómeno, desligado da realidade dos media tradicionais. Pelo contrário, esse jornalismo eletrónico que emerge na Internet evolui afectando e sendo afectado por aquilo que os jornalistas produzem nos meios tradicionais”.
(Pinto e Sousa 1998:9)
A internet e as suas vicissitudes tiveram um grande impacto na forma como os mass media tradicionais produziam as notícias, alterando muitas das rotinas que eram levadas a cabo inicialmente. Neste momento, mais do que nunca podemos falar num jornalismo de proximidade, ainda que muitas vezes este seja desenvolvido a grandes distâncias. Esta é a magia da Internet. Tornou possível falarmos com um especialista que está do outro lado do mundo através de uma videochamada, vermos uma conferência de imprensa em direto sem sairmos da redação, recebermos uma declaração escrita importante em questão de breves momentos, pesquisarmos notícias sobre um determinado assunto, escritas há anos atrás, em poucos segundos, e assim poderíamos continuar enumerando uma lista infindável de facilitismos e novas funcionalidades que a internet trouxe até nós. João Messias Canavilhas (2004) deixa explícito que as novas finalidades a que a internet se presta no mundo do jornalismo, melhorou-o e, por isso, o recurso à rede passou a fazer parte indissociável das rotinas jornalísticas. A verdade é que, o facto da internet estar disponível a qualquer hora e à distância de um simples gesto, trouxe à vida dos jornalistas mais tempo e conforto.
Em termos práticos, no dia-a-dia de uma redação, a Internet ocupa um espaço avultado. Ainda assim, é algo tão automático que por vezes já nem nos apercebemos do quão dependemos dela para desenvolver as tarefas mais simples, mas essenciais, como é o caso da fase de pesquisa e recolha de informação para desenvolver determinada notícia. Nelia R.Del Bianco dá-nos alguns exemplos:
“O processo de pesquisa e recolha de informações na rede apresenta inúmeras vantagens para a produção da notícia. Permite aos jornalistas se inteirarem rapidamente sobre o que já foi escrito sobre determinado assunto; torna os contactos com as fontes interativos; possibilita a ampliação e seleção de fontes de informação; agiliza a busca de dados, pesquisa e consulta a arquivos públicos, bibliotecas, órgãos
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públicos; facilita a coleta de maior quantidade informação num menor espaço de tempo; além de aumentar o potencial da reportagem à distancia e do trabalho fora das redações em locais remotos.”
(Bianco 2005)
Ainda relacionado com as rotinas que hoje são levadas a cabo nas mais diversas redações, em que a internet assume um papel central, Jim Hall (2001) salienta um aspeto importante: atualmente, é de extrema importância que seja feita uma vistoria pelos diversos sites e plataformas. Este gesto, passou a fazer parte integrante das rotinas produtivas dos diferentes medias.
“The seletion and checking of the day’s links have already become a central task of effective journalism. The general sources of news and information which proliferated as mass media forms have been rendered obsolete by the sheer ubiquity and volume of information”
(Hall 2001: 227-228)
Todos estes pequenos passos, hoje, levados a cabo com o auxílio da rede, reduziram substancialmente o tempo que os jornalistas passavam nesta etapa de construção da peça jornalística, deixando assim mais tempo disponível para a redação da notícia. Nos sites noticiosos é ainda possível atualizar, corrigir e alterar o que foi escrito.
No entanto, os benefícios da internet não são apenas utilizados durante o processo de desenvolvimento de uma notícia, mas também durante um procedimento que é levado a cabo em todas as redações: o agendamento. Em todas as empresas jornalísticas existe uma secção que é composta por profissionais que têm a tarefa de procurar situações/eventos que possam ser transformados em notícias e reportagens. Cabe-lhes reunir algumas informações básicas que mais tarde o jornalista possa utilizar para desenvolver o trabalho. Com a utilização da rede tornou-se mais fácil e rápido saber o que se passa à nossa volta e entrar em contacto com pessoas que nos possam fornecer novas situações. Claro está, diferentes redações, trabalham de diferentes formas e vamos ter oportunidade de observar isso mesmo, mais à frente.
Mais especificamente, no mundo da televisão, podemos observar o impacto que a rede teve nos canais televisivos que se dedicam única e exclusivamente à informação. Podemos de um certo modo comparar a “disponibilidade” que os canais noticiosos e as
50 plataformas informativas têm para nos oferecer. Afinal, ambos estão disponíveis 24 horas e parte-se do princípio que as informações que divulgam são atuais. Ainda assim, a televisão continua a ter as suas limitações, quer na programação que é feita, quer nos horários em que são difundidos determinados programas, quer no tempo disponível para cada reportagem (e aqui aplica-se também o caso dos jornais, que têm um número limitado de caracteres por cada notícia, e das rádios, que também trabalham com uma imposição do tempo por cada peça jornalística). Neste espetro, são várias as condicionantes a que os jornalistas dos media tradicionais têm de se adaptar diariamente. Já os sites noticiosos permitem-nos fazermos o nosso próprio percurso, ou seja, podemos optar por visualizar uma notícia (sendo que esta pode compilar texto, som e vídeo). É importante percebermos que no que diz respeito à dimensão da notícia, nas plataformas online, esta beneficia de uma maior liberdade, ou seja, é comum vermos uma reportagem na televisão com 2 ou 3 minutos e no site do mesmo canal, essa reportagem ter 5 ou 6 minutos; assim como também, uma notícia de um jornal que é mais extensa e completa se a visualizarmos no site, e no caso da rádio, para além de ser disponibilizado o ficheiro áudio, é muito comum, este ainda ser complementado com fotografias e mais informação escrita. Para além de haver esta flexibilidade no que toca ao tamanho da peça jornalística, temos ainda de acrescentar que o número de notícias que podem ser publicadas diariamente na internet ultrapassa qualquer um dos meios tradicionais, pois na rede, não se vê esta limitação de espaço e de tempo, não há grelhas, nem programações restritas a cumprir.
Passando esta fase em que consultamos uma determinada notícia, podemos a partir daí, fazer um click numa ligação que nos leva para outra notícia relacionada com a que vimos inicialmente. Por outro lado, podemos ainda procurar por informações relacionadas com um acontecimento que ocorreu há vários meses, sem estarmos necessariamente “presos” ao que é atual. Ao seu lado, estas plataformas noticiosas têm também a vantagem de puderem ser atualizadas em questão de segundos.
Com a evolução dos tempos e ao perceberem o impacto que estas plataformas online tinham no mundo do jornalismo e a visibilidade que começaram a conquistar junto do público, as empresas jornalísticas começaram a apostar neste meio de uma forma mais séria e profissional. Assim, começaram a ser destacados profissionais especificamente para trabalhar no meio online. Claro que esta não era uma opção viável para todos os media, uma vez que nem todos têm uma dimensão que permita contratar ou desviar
51 profissionais só para este tipo de trabalho. Passou a ser assim, cada vez mais importante que cada jornalista começasse a desenvolver capacidades para atuar neste meio. Aliás, hoje é essencial que no currículo de um recém-formado em jornalismo, conste, além da competência escrita, um à vontade em se mover nas mais diversas áreas multimédia, tal como a fotografia, o áudio e vídeo, e também programas informáticos de edição. Desta forma, estão mais bem preparados para responder às necessidades do mercado atual.
A este propósito Inês Aroso (2003) cita Carl Steep: “A internet não está só a criar novas formas de jornalismo, mas também de jornalistas.” É, portanto, essencial que se perceba que nesta “era online”, é exigido aos jornalistas não só um outro leque de qualificações, como também a capacidade de desenvolver várias tarefas ao mesmo tempo, pois é cada vez mais comum estes profissionais, para além de desenvolverem os trabalhos jornalísticos, tenham também de atualizar o site e as diferentes redes sociais, como é o caso do Facebook, Instagram e Twitter.