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4. A MULTA COERCITIVA NO ATUAL ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

4.7 FIXAÇÃO DO VALOR DA MULTA: SUFICIÊNCIA OU COMPATIBILIDADE COM A

4.7.1 ALTERAÇÃO DO VALOR DA MULTA: POSSIBILIDADES

O §6º, do art. 461, do Código de Processo Civil de 1973 previa que: “O juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade da multa, caso verifique que se tornou insuficiente ou excessiva.”.

Logo, já à época do Código Buzaid não pairavam dúvidas de que é possível a alteração

do valor da multa durante a sua incidência287. Não obstante, persistiu na vigência do

CPC/1973 séria polêmica acerca do tema, motivo pelo qual insta bem definir quais são as hipóteses e em que condições tal alteração pode ser realizada, bem como se o novo Código significou avanço em relação a esse assunto.

A alteração do valor da multa constitui poder-dever do magistrado nas situações em que, devido à alteração da realidade fática, o valor fixado não mais atende aos parâmetros de

“suficiência” e “compatibilidade”288. Neste sentido, a alteração no valor da multa será

legítima quando, devido a um fato superveniente ou mudança na situação jurídica, o juiz

constate que o valor anteriormente definido não mais se apresenta adequado289.

Sem embargo de tal definição, instaurou-se no âmbito doutrinário discussão quanto à possibilidade de aplicação do art. 461, §6º, do CPC/1973 nas situações em que a decisão terminativa que houvesse fixado o valor da multa já tivesse transitado em julgado. Tal controvérsia só foi superada a partir da percepção de que o valor da multa (assim como sua imposição, conforme veremos no tópico referente à exigibilidade) não estaria abarcado pela

imutabilidade da coisa julgada290. Tratando-se de elemento acessório, a multa seria apenas

instrumento a ser utilizado para a concretização do comando acobertado pela coisa julgada,

não podendo ser, por isso, confundida com a pretensão apresentada em Juízo.291

287 AMARAL, Guilherme Rizzo. As astreintes e o processo civil brasileiro. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. p. 162.

288 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. A tutela específica do art. 461, do Código de Processo Civil. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 80. p. 103-110, 1995.

289 TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de não fazer. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 249.

290 Ibidem. p. 250-251. Igualmente, Arenhart: “Ainda que o juiz da causa tenha fixado certo montante para a multa, é certo que este valor pode, sempre, ser modificado, para possibilitar a ameaça ao sujeito passivo. Não fica abrangida a decisão que fixa a astreinte (seja em sentença, seja em liminar), ao menos na parte em comento, pela autoridade de coisa julgada). ARENHART, Sérgio Cruz. A tutela inibitória da vida privada. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 2, 2000. p. 197-198. Ainda, em Fred Didier Jr., et al: “Não se pode dizer que a possibilidade de alteração posterior da medida de apoio representa ofensa à coisa julgada material”. DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro da; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria. Curso De Direito Processual Civil. v. 5, 6. ed. Salvador: Juspodivm, 2014. p. 444.

291 RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. PROCESSUAL CIVIL. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. CADERNETA DE POUPANÇA. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. EXIBIÇÃO DE

Esclarecida a questão, restou ainda sob a vigência do CPC/1973 polêmica referente à possibilidade de a modificação do valor produzir efeitos retroativamente, ou seja, se a

modificação seria ex tunc ou ex nunc.

Enquanto respeitável parcela da doutrina entendia que a alteração do valor fixado

deveria sempre operar efeitos ex nunc292, o Superior Tribunal de Justiça não só firmou o

entendimento de que, nos casos em que houvesse redução do valor da multa, os efeitos da decisão atingiriam valores anteriores, como reiteradas vezes procedeu à redução do valor global já consolidado da multa coercitiva, sob o fundamento de que o crédito da multa possuía

valor muito maior do que aquele discutido na ação judicial293.

O entendimento pela eficácia ex tunc da decisão de redução do valor, não é difícil

perceber, é bastante problemático no que toca à efetividade da jurisdição. Isto porque o efeito retroativo da redução significaria, de certo modo, um prêmio ao devedor por ter descumprido,

até aquele momento, a decisão judicial anterior. Ainda, a alteração ex tunc acaba por

comprometer a força coercitiva do instrumento, na medida em que representaria um incentivo

ao não cumprimento pelo devedor renitente294.

Neste cenário, insta destacar que no §1º, do art. 537, do Código de Processo Civil de 2015, o legislador, ao limitar a hipótese de alteração do valor à “multa vincenda”, veio solucionar a questão, trazendo a melhor solução sob o ponto de vista da efetividade jurisdicional:

“Art. 537. A multa independe de requerimento da parte e poderá ser aplicada na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença,

EXTRATOS BANCÁRIOS. ASTREINTES. DESCABIMENTO. COISA JULGADA. INOCORRÊNCIA. 1. Para fins do art. 543-C do CPC: 1.1. "Descabimento de multa cominatória na exibição, incidental ou autônoma, de documento relativo a direito disponível.". 1.2. "A decisão que comina astreintes não preclui, não fazendo tampouco coisa julgada." 2. Caso concreto: Exclusão das astreintes. 3. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. (BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 2ª Seção. REsp nº 1333988/SP. Relator: Min. Paulo de Tarso Sanseverino. j: 09/04/2014. DJe: 11/04/2014). (grifo nosso).

292 Por exemplo: DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2009. p. 540. REDONDO, Bruno Garcia. Astreintes: Aspectos Polêmicos. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 222, p. 65-89, 2013. p. 81; SPADONI, Joaquim Felipe. Ação inibitória: a ação preventiva prevista no art. 461 do CPC. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 186-187; TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de não fazer. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 254.

293 AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. MULTA DIÁRIA. DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL. REDUÇÃO DO VALOR TOTAL. 1. É possível a redução do valor da multa por descumprimento de decisão judicial (art. 461 do Código de Processo Civil) quando se tornar exorbitante e desproporcional. 2. O valor da multa cominatória estabelecido na sentença não é definitivo, pois poderá ser revisto em qualquer fase processual, caso se revele excessivo ou insuficiente (CPC, art. 461, § 6º). 3. Agravo interno a que se nega provimento. BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 4ª Turma. AgInt no REsp nº 1481282. Relatora: Min. Maria Isabel Gallotti. J: 16/08/2016. DJe: 24/08/2016;

294 REDONDO, Bruno Garcia. Astreintes: Aspectos Polêmicos. Revista de Processo, nº 222, p. 65-89, 2013. p. 81-82.

ou na fase de execução, desde que seja suficiente e compatível com a obrigação e que se determine prazo razoável para cumprimento do preceito.

§ 1o O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a

periodicidade da multa vincenda ou excluí-la, caso verifique que: I - se tornou insuficiente ou excessiva;

II - o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação ou justa causa para o descumprimento.”.

Por fim, cabe ressaltar que o argumento de que seria necessário suprimir parte do

crédito da multa em razão de seu “efeito perverso”295, quando aplicado, fulmina por completo

a carga coercitiva da multa. Se já não se mostra adequado atribuir efeitos ex tunc à decisão de

redução do valor fundada em alteração superveniente no quadro fático, quanto mais à redução global, fundada apenas na expressividade do valor acumulado.

O STJ, ao proceder desta maneira, não só incorre na equivocada vinculação do valor da multa ao objeto da prestação como ainda serve de incentivo ao devedor desidioso a que

descumpra ad eternum a ordem judicial, pois, alcançando valor expressivo e bastante superior

ao da prestação, sabe o devedor que o montante final será reduzido296. Por fim, funda-se,

conforme já foi visto neste trabalho, em premissa equivocada de que há enriquecimento sem causa por parte do credor.

Sob a vigência do novo Código, portanto, há, mais do que nunca, que se refutar esse tipo de decisão. Sendo o valor inicialmente arbitrado adequado, e não havendo fato superveniente ou justa causa para a demora no cumprimento da prestação, não há que se falar

na alteração do valor da multa a posteriori, sob pena de se premiar o devedor desidioso e

tornar inútil essa importante ferramenta de obediência à Jurisdição. Impende-se ressaltar

que o novo Código, diversamente do que fez o Código de 1973, trouxe expressas as possibilidades para majoração ou redução do valor da multa, não constando entre elas a desproporção entre o valor global da multa coercitiva e o da expressão econômica da pretensão formulada.

295 “Entende-se por efeito perverso da multa a situação gerada ao réu diante do acúmulo do valor da multa em face do não cumprimento da decisão judicial, exatamente quando tal valor se torna muitas vezes superior ao da obrigação inadimplida ou ao do dano praticado”. A definição consta em: Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. O Novo Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 803.

296 REDONDO, Bruno Garcia. Astreintes: Aspectos Polêmicos. Revista de Processo, nº 222, p. 65-89, 2013. p. 81-82.

4.7.2 REDUÇÃO DA MULTA EM RAZÃO DO CREDOR – DEVER DE MITIGAR SEU