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Alteridade e infinito

No documento Sobre a incomunicabilidade humana (páginas 116-119)

12.1 Outrem é movimento para a transcendência, horizonte para o caminhar, um chamado para o além. Este desejo metafísico está em nós como a idéia do infinito.

As nossas análises são dirigidas por uma estrutura formal: a idéia do Infinito em nós. Para ter a idéia do Infinito, é preciso existir como separado. Esta separação não pode produzir-se como fazendo apenas eco à transcendência do Infinito. Senão, a separação manter-se-ia numa correlação que restauraria a totalidade e tornaria ilusória a transcendência. Ora, a idéia do Infinito é a própria transcendência, o transbordamento de uma idéia adequada. Se a totalidade não pode constituir-se é porque o Infinito não se deixa integrar. Não é a insuficiência do Eu que impede a totalização, mas o Infinito de Outrem. (p. 69)

12.1.1 A idéia de infinito presente em nós é a de relacionar-se com um ser que conserva a sua exterioridade total em relação àquele que o pensa (p. 37). O infinito conserva a exterioridade total de Outrem e a separação do Mesmo para a relação constituinte da alteridade. Pensar um objeto constitui a objetividade do mesmo, diferentemente, pensar o infinito, a transcendência ou o estrangeiro. A idéia do infinito conserva o ideatum (idéia antes da própria idéia de infinito), cujo pressuposto é a alteridade radical de Outrem.

A distância que separa ideatum e idéia constitui aqui o conteúdo do próprio ideatum. O infinito é característica própria de um ser transcendente, o infinito é o absolutamente outro. O transcendente é o único ideatum do qual apenas pode haver uma idéia em nós; está infinitamente afastado da sua idéia – quer dizer, exterior – porque é infinito. (p. 36)

12.1.2 É o desejo metafísico o movente da relação, relação esta antes de tudo radical, pois Outrem não está pré-concebido como idéia ou pensamento, capturado em meus sentidos, Outrem é alteridade (totalmente separado do Mesmo), destina-me ao infinito (ideatum primeiro), que o torna sempre estrangeiro, não podendo ser dominado ou possuído.

12.2 Por anterioridade o Outrem é alteridade radical, dele não posso fixar, reter ou poder nada. De Outrem recebo a oferta de sua expressão. Outrem exprime materialmente o seu rosto. O rosto é exterioridade, traz algo que eu não contenho, é sua manifestação (epifania).

12.2.1 O rosto de Outrem é desconcertante a mim mesmo, desestabilizador, é revelação. A relação com o rosto de Outrem (frente-a-frente) não desemboca em nenhum tipo de totalização, mas lança-me ao infinito. O rosto de Outrem é um sentido anterior às minhas idéias, é um estrangeiro que não pode ser capturado ou nomeado, não há signo que o compreenda.

O modo como o Outro se apresenta, ultrapassando a idéia do Outro em mim, chamamo-lo, de facto, rosto. Esta maneira não consiste em figurar como tema sob o meu olhar, em expor- se como um conjunto de qualidades que formam uma imagem. O rosto de Outrem destrói em cada instante e ultrapassa a imagem plástica que ele me deixa, a idéia à minha medida e á medida do seu ideatum – a idéia adequada. Não se manifesta por essas qualidades, mas

exprime-se. (p. 38)

A noção de rosto remete-nos à anterioridade e ao imediato da história.

A noção de rosto, a que vamos recorrer em toda esta obra, abre outras perspectivas: conduz- nos para uma noção de sentido anterior à minha Sinngebung e, desse modo, independente da minha iniciativa e do meu poder. Significa a anterioridade filosófica do ente sobre o ser, uma exterioridade que não faz apelo nem ao poder nem à posse, uma exterioridade que não se reduz, como em Platão, à interioridade da recordação e que, entretanto, salvaguarda o eu que a acolhe; permite, enfim, descrever a noção de imediato... O imediato é o frente a frente. (p. 39)

12.3 O rosto não se articula enquanto conceito ou número, ele é epifânico (manifestação). Esta manifestação do rosto provoca o Mesmo, pois não me relaciono

comigo mesmo ou com conceitos, mas com Outrem de materialidade, destinado ao infinito. O rosto de Outrem convoca-me à exterioridade radical, para o incontido desafiando-me em minhas seguranças. “A expressão que o rosto introduz no mundo não desafia a fraqueza dos meus poderes, mas o meu poder de poder” (pág.192). Outrem em sua alteridade radical paralisa o meu poder de poder, convoca-me à conversão, chama-me a ser de fato humano, a olhar a face de Outrem (rosto), sem querer poder nada.

A alteridade que se exprime no rosto fornece a única “matéria” possível à negação total. Só posso querer matar um ente absolutamente independente, aquele que ultrapassa infinitamente os meus poderes e que desse modo não se opõe a isso, mas paralisa o próprio poder de poder. Outrem é o único ser que posso querer matar. (p. 192-193)

12.3.1 O rosto de Outrem revelado corre o risco da negação total; o assassinato. Um

não absoluto pode constituir-se frente ao rosto de Outrem. Um não que atravessa os olhos

de Outrem, um não ao brilho da face de Outrem, um rosto sem defesa cuja expressão recebe um não. Não viverás! O rosto de Outrem assassinado permanece absolutamente, pois é absolutamente transcendente.

12.3.2 O grande apelo presente na relação entre Caim e Abel (II parte, item 3) é:

não matarás! Pois o caminho para se tornar humano é em relação com Outrem, seu

acolhimento nu. Ao dizer não, o Mesmo assassina Outrem em sua alteridade radical e também se assassina em sua humanidade. O dizer não; assassinar é não se comunicar absolutamente, pois me fecho destrutivelmente em o Mesmo. Condição de ser só no mundo.

O infinito apresenta-se como rosto na resistência ética que paralisa os meus poderes e se levanta dura e absoluta do fundo dos olhos, sem defesa na sua nudez e na sua miséria. A compreensão dessa miséria e dessa fome instaura a própria proximidade do Outro. (p. 194)

12.3.3 A voz de Outrem convoca-me a ser bom. “De maneira que, na expressão, o ser que se impõe não limita, mas promove a minha liberdade, suscitando a minha bondade”. (pág. 195) O rosto de Outrem não está reduzido a um fenômeno, conceito, ainda a interioridade, mesmo capturado as malhas subjetivas, Outrem esta além em alteridade radical. Levinas propõe um principio relacional de natureza ética. Onde a ruptura primeira

entre os homens (II parte, item 3) é restaurada, no face-a-face. A alteridade de Outrem, manifesta no rosto, constitui para mim um princípio relacional que me convoca a ouvir, inclinar-me, a ser bom.

No documento Sobre a incomunicabilidade humana (páginas 116-119)