III- Ideias mestras e conceitos operatórios
2) Alteridade, Exotismo
45 própria da manutenção de si na promessa, à rigidez inflexível de um caráter, no sentido quase tipográfico do termo” (Ricouer, 2007, p. 94).
A história que esta tese busca fala de um confronto com outrem.
É um fato que o outro, por ser outro, passa a ser percebido como um perigo para identidade própria, tanto a do nós como a do eu. Será mesmo preciso que nossa identidade seja frágil a ponto de não conseguir tolerar que outros tenham modos de levar sua vida, de se compreender, de inscrever sua própria identidade na trama do viver-junto, diferentes do nosso? (Ricouer, 2007, p. 94).
A violência no processo de encontro entre as alteridades faz mudar da acolhida à rejeição, como será patente no decorrer da transformação da relação com o indígena naquele século fundador.
É a história que introduz neste trabalho o tema do encontro que a viagem pressupõe e a qual a literatura consultada abunda. É por ela que as distinções se tornaram manifestas e o exotismo se transforma em diferença. Vejamos as nuances destes termos e como eles denotam uma mudança qualitativa na atitude dos europeus e justifica a implantação de um sistema de colonização intensiva.
46 ansiosas para aprender sobre as maneiras peculiares dos distantes leste, norte ou sul. Em todo caso, a urgência em reportar é uma das mais importantes características desta vasta literatura, na qual uma hoste de enganadores, charlatães e operadores tentam, costumeiramente sem sucesso, esconder a verdadeira natureza de suas carreiras, enquanto que, à beira da psicose, geralmente soam como insanos (Shulman in Subrahmanyam, 2011, p. ix).
Esta tese presta contas a Sanjay Subrahmanyam na medida em que, tratando do cruzamento cultural entre europeus e asiáticos no século XVI, este autor funciona como um paralelo para o tema abordado. No entanto, uma diferença intrínseca deve ser indicada. Subrahmanyam dispõe de uma narrativa local e de uma escritura histórica autóctone que permitem um cotejamento e uma verificação dos discursos mutuamente referidos a eventos comuns, bem como uma recepção crítica de ambas as partes ao que se diz sobre e como se dizem os eventos do século XVI. E antes de tudo, a Ásia e a Europa não eram estranhas entre si, ainda que ambas fossem misteriosas e obscuras.
Nesta tese, contudo, não se dispõe de tais fontes cruzadas, sendo que todos os testemunhos literários provêm de europeus, o que gera algumas considerações: como inferir esta presença do outro, seja ele o Outro exótico ou o outro diferente segundo a distinção de Affergan (1987)? Como vazam pelas penas de viajantes, este impacto do encontro com homens nunca vistos e cujas expressões são escamoteadas, mas não de todo veladas na surpresa indescritível e nos sentimentos incontroláveis que a descoberta desencadeia? E como se constroem os novos e necessários sistemas de classificação que advém desta notável experiência? O próprio autor nos consola, contudo quanto à possibilidade de tal projeto: “Entendimento torna-se algo muito mais complicado que apenas uma questão de língua ou línguas” (Subrahmanyam, 2012, p. xii).
O que também atrai Subrahmanyam a esta tese é, além da abordagem do mesmo período histórico, há o recurso às mesmas fontes, fornecendo boas indicações e contextos para a interpretação dos documentos sobre o encontro com os doravante chamados americanos. Neste autor podemos assistir também uma análise refinada, que coloca o lugar crucial das cerimônias de corte, relações diplomáticas, religiosas e comerciais. Nestes espaços de negociação, celebração e memória, os estranhos se encontravam e eram impelidos ali a se tornarem inteligíveis uns aos outros. Tanto neste
47 autor quanto nesta tese a valorização dos conteúdos de perplexidade, de hostilidade e de admiração e a partir deles, a requisição de deciframento e tradução saltam aos olhos.
Estas demandas são similares entre o contexto que o autor apresenta e o contexto desta tese. Mais do que um abismo entre os povos, o que ele mostra são “formas negociadas de entendimento mútuo que levaram a uma improvisação, a um desafio e geralmente à mudança” (Subrahmanyam, 2012, p. xi). Para este trabalho isto é fundamental, pois coloca a potencialidade de que os eventos festivos ocupem posições centrais na materialização das relações sociais em contextos empíricos, preparando também o porvir. Estes eventos exibem de forma pujante os aspectos não controlados de desentendimento e de ignorância que tanto contribuíram na formação de povos distintos daqueles primeiros que entraram em contato.
Ao propor suas connected histories, Subrahmanyam sugere também uma crítica de uma “história de europeus oniscientes e cosmopolitas circulando pelo mundo desde o Renascimento até o Iluminismo7” (2012, p. xi). Sua investigação das fontes mostra como os contextos foram construindo os conflitos, a ambiguidade, a aceitacao e a rejeição dos que se colocavam nas fronteiras culturais. Assim, o trabalho deste autor também fala da criação de novas categorias de percepção e de análise bem como da formulação e reformulação de disciplinas.
O que algumas vezes se perde de vista nestas considerações é o fato de que os encontros normalmente não tomam lugar entre sociedades ou sistemas culturais como tais, mas entre subculturas e segmentos de sociedade.
Alguns destes eram encontros e transações relativamente assimétricos [como, por exemplo, entre os missionários ibéricos em seus relatos autoritários com respeito às populações nas missões na América Latina], outros muito menos (Subrahmanyam, 2012, p. xiv).
O que de fato há é uma fragmentação destes sistemas aparentemente totais, mas que no acontecer do encontro só se dão a ver limitados nas experiências dos viajantes, dos negociantes, dos diplomatas, nos interesses imediatos, na parte que cada um carrega
7 David Shuman, ao apresentar o trabalho de Subrahmanyam, explica este termo da seguinte maneira:
“uma maneira de escrever a história daqueles séculos é contar a história daquelas interseções entre os mapas mentais, os quais, naturalmente, tenderam a evoluir através de linhas e sequências altamente padronizadas [...] Histórias conectadas visualiza um mundo tão densamente texturizado, tão profundamente entrelaçado em processos causais que, mesmo um leve deslocamento em um ponto produzirá mudança em muitos outros pontos – uma versão do assim chamado efeito borboleta”
(Subrahmanyam, 2011, p. x).
48 consigo do todo. Ou para usar expressão de Certau, em todos estes relatos assistimos às táticas dos agentes em situações inesperadas como princípio de ação que na outra ponta é orientada por uma estratégia imperial. Essa solidariedade entre o indivíduo e o império é cheia de reveses e conflitos, recusas e associações. Assim os relatos a serem estudados compõe um importante testemunho do desvio e da transformação da vontade que desencadeia o projeto colonizador e seus resultados não premeditados. O historiador ainda fala de um
Reconhecimento prévio de pelo menos uma crua morfologia paralela, onde os agentes societais envolvidos no encontro viram as sociedades uns dos outros como possuindo sistemas políticos similares [tal qual o reconhecimento das cerimônias de embaixada e corte], dominados por governantes em suas cortes, as quais por sua vez possuíam regras sistemáticas e convenções que tinham de ser decifradas e tornadas comensuráveis (Subrahmanyam, 2012, p.
xiv).
Para as terras do Atlântico Sul ocidental, não sendo percebido qualquer paralelo formal entre os europeus e os povos recém-encontrados, constitui-se em complicador este não reconhecimento de Estado, hierarquias, divisões societais. Os documentos, ainda assim, mostram que, em geral, os portugueses rapidamente encontravam os líderes e lidavam com eles dentro dos sistemas de prestígio locais, havendo um deslize entre a crença e o sistema de autoridade que professavam e a necessidade de agradar e entrar em negociação com os povos exóticos. Estas primeiras apreensões da autoridade local e o modo de granjear aliados foram fundamentais na consecução do cunhadismo8. Tal conceito foi posto por Darcy Ribeiro para se referir a constituição familiar das redes de dominação e empreendimento, distribuição de favores e apadrinhamento que atravessam as relações sociais da sociedade brasileira e que segundo o autor foi gestada na aliança com os indígenas, uma vez que para uma parte importante dos povos, o hábito de oferecer um menina ao visitante como esposa temporária ou permanete, era um modo de integrar os estrangeiro, de agradar um convidado, mas também de torná-lo
8 A função do cunhadismo na sua nova inserção civilizatória foi fazer surgir a numerosa camada de gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil. [...] Com base no cunhadismo se estabelecem criatórios de gente mestiça nos focos onde náufragos e degredados se assentaram. Primeiro, junto com os índios nas aldeias, quando adotam seus costumes, vivendo como eles, furando os beiços e as orelhas e até participando dos cerimoniais antropofágicos, comendo gente. Então aprendem a língua e se familiarizam com a cultura indígena. Muitos gostaram tanto, que deixaram-se ficar na boa vida de índios, amistosos e úteis. Outros formaram unidades apartadas das aldeias, compostas por eles, suas múltiplas mulheres índias, seus numerosos filhos, sempre em contato com a parentela delas (Ribeiro, 1995, p. 82-83)
49 membro e trazer para o âmbito do poder tribal este aliado com habilidades nunca vistas.
O cunhadismo participa destas táticas e mostram o improviso nas margens do Império correspondendo aos atos individuais no cruzamento cultural que ocrria no litoral da Terra de Santa Cruz., como preconiza o perfil dos casos estudados por Subrahmanyam.
Acompanhando o interesse deste autor pela literatura de viagem, toma-se dele que a multiplicidade de situações descritas faz destas fontes algo muito além de um gabinete de costumes arcaicos e ingênuos:
O problema remanescente do que esta literatura significa em diferentes contextos históricos e societais, tanto de sua localização num cânone mais amplo, como de sua significância em processos históricos e sociais, que vão além do mero fato de sua existência como uma sorte de curiosidade exótica, uma entrada subsidiária numa enciclopédia universal sob o tema ‘Relatos de Viagens (outros)’ (Alam & Subrahmanyam, 2009, p.3).
Deste modo, o recurso escritural desta tese teria que expor esta experiência de deslizamento rápido através de culturas radicalmente distintas com suas evidentes incongruências e seus frequentes distúrbios. De forma que dois artifícios metodológicos sobressaem explicitamente da abordagem de Subrahmanyam: o estilhaçamento da visão eurocêntrica e a voz dada às figuras expressivas que estão nas margens interculturais.
Estas personagens que emergem dos relatos mostram com detalhes dramáticos que não são prontamente observáveis nos centros políticos ou socioeconômicos do poder, onde as leis e as regras são impostas com muito mais vigor.
O que se procura nos relatos são os comportamentos distantes dos centros imperiaias que irradiam uma influência que, apesar de não ser fraca, no entanto vai perdendo sua eficácia na distensão dos laços no espaco e no tempo, criando um diferimento entre a ordem do rei até seu conhecimento e aplicação na colônia. A autoridade imperial exercia-se indiretamente, deixando grande espaço de improviso aos atores destes encontros extraordinários na infância da colonização.
Olhar para o que acontece na beira da cena, ver com o canto dos olhos o que só se insinua no campo de visão, estas formas que vão se misturando nas bordas: tudo isso faz emergir um espaço de troca e de entendimento, assim partido e visto de soslaio.
50 Enxergar na periferia a inovação cultural é ver nesta literatura a potencialidade que o nascimento de um novo ser traz para o mundo no qual ele vem a existir. Só que este nascimento não é espetacular como a criação divina do homem, mas um processo lento e desigual, com muitos recuos e abismos. Portanto, trata-se de habitar os interstícios de um corpus monumental daquele século cujas margens se colocam para além da exortação e da lição moral difundida por nobres, clérigos e militares a serviço das instituições. Os saberes ali expressos, ainda não conformados por um método e não expurgados de fantasia, seduzem, fascinam e entretêm. Isto se atesta no sucesso de tal gênero literário naquele período, responsável por sua conservação, mas também, e principalmente, pela impregnação de um imaginário que desenhou um tipo humano e uma sociedade outra com suas possibilidades revolucionárias quanto ao status, quanto ao destino, quanto à vida.
Subrahmanyam mostra que as micro-histórias que aparecem em narrativas mais ou menos detalhadas que vão aparecendo ao longo dos relatos dos quais esta tese é solidária, lançam mão de biografias que têm uma recepção complexa dos estudos sociais. Sem entrar nos detalhes das diversas correntes historiográficas a propósito do tema que este historiador detalha, pode-se encontrar na sua obra, de modo empírico, o recurso a uma variedade de discursos que isolados não permitem qualquer inferência entre o indivíduo e o mundo. No entanto, no cruzamento destas referências, mais do que um indivíduo determinado pelas e/ou determinante das totalidades, o que emerge é um indivíduo em suas idiossincrasias, um indivíduo que absorve de maneira incompleta e fragmentária um sistema de forças que ele nunca alcança por inteiro ou diretamente, porque ele lida de fato com segmentos, com refrações locais, com questões paroquiais, com demandas conjunturais que acionam sua capacidade de decisão no aqui e agora que foi congelado no relato.
O nó que amarra todo este feixe de relações chama-se etnografia. O produto deste ofício traz a alteridade à baila, no máximo de honestidade para com os limites da interação, da leitura, do quanto se alcança do todo ali naquela ínfima parte da vida e que, no entanto, é grande o suficiente para transformar aqueles que com ela entram em contato, deixando rastros na vida de outrem, transformando e enriquecendo com o vivido as verdades genéricas do viver junto. A etnografia contém “um paradoxo que deriva da tensão entre as reivindicações, ligando a modernidade e o individualismo
51 numa mão e o caráter essencialmente coletivo do empreendimento etnográfico na outra”
(Subrahmanyam, 2011, p.14). Contudo como gênero literário, a etnografia é tão antiga quanto a representação estereotipada de grupos, sempre baseada em algum fundamento empírico. Assim, desvendá-la é trazer à tona os muitos materiais e gêneros que ela usa em sua construção.
Na medida em que a etnografia era ligada à viagem de um lado, e de outro, à identificação e ao manejo da diferença num contexto imperial” tomá-la como fonte de pesquisa, sempre dependente do contexto institucional em que é praticada, faz com que se possa ver este gênero como elemento expressivo de um processo de etnogênesis, uma vez que com o passar do tempo e o estabelecimento canônico de sua tradicionalidade, ele se torna recurso na invenção das identidades [self-fashioning coletivo, como chama Subrahmanyam] (2011, p.14).
O caso do encontro com povos inéditos e da relação com estes inéditos, o sugirmento de novos povos que não são mais os indígenas e nem os europeus é paradigmático nesta perspectiva, pois é esta literatura etnográfica que será sua única porta para se chegar ao vislumbre de como tal novidade pode vir a ser, como o encontro e o convívio entre estranhos, esta onipresença da alteridade, veio a moldar uma posterior e distinta manifestação no mundo. Os que são relatados, aqueles seres exóticos, mostram-se maleáveis, redefinindo-se através do efeito do observador.
Como elemento do maquinário estatal que vinha regularizar a dominação e estabelecer de fato a colonização, este mecanismo de conhecimento da alteridade respondia à necessidade de poderes disciplinares e persuasivos. Contudo, o efeito criativo exige que estas instâncias de poder não sejam totais ou abrangentes, permitindo alguma margem de manobra nos contextos locais (Subrahmanyam, 2011, p.15). Os distanciamentos da colônia junto com a escassa e precária presença do poder imperial forneceram um alto grau de liberdade na adaptação e na experimentação de novos modelos de socialidade na Terra de Santa Cruz.
A crítica que advém é de transformar o Estado como ator central de modo que
“nenhum grupo ou indivíduo seja visto como tendo a possibilidade de uma existência ou identidade fora da esfera de interação com o poder de Estado” (Subrahmanyam, 2011, p.15). Por isso, para esta tese, as festas (sejam elas mero divertimento ou no limite a
52 mortandade geral que este processo dispara, temos dois polos, o novo homem que nasce e cuja contrapartida são o morticínio e a absoluta abjeção das vidas de povos incompreensíveis. Nunca a vida valeu tão pouco e custou tão caro!) são o locus privilegiado para o encontro, para a negociação e para a assimilação das alteridades em confronto.
Estes episódios, estas efemérides são importantes para mostrar os deslizes entre os diversos agentes da colonização e através delas pode-se rastrear o incremento do poder imperial nos interstícios do tecido social que se adensa ao longo do século XVI.
Os próprios relatos mostram bem a passagem do informe aos reis para as ações institucionais de organização do espaço geográfico e social. Das festas espontâneas de encontro entre marinheiros e autóctones às festas ordenadas e celebradas pela igreja e pelo Estado. Sempre sob o pensamento de que tais entidades máximas aparecem refratadas num contexto mais improvisado e menos rígido.
A história da viagem, do encontro, da surpresa, do medo e da violência que provém deste espanto perante a alteridade, repisa o percurso do que veio a ser o costume, o caminho que faz um e outro deixarem seus lugares tão antípodas em estranheza e, na sua aproximação, tornarem-se objetos de comparação e classificando-se uns aos outros, serem ambos incluídos em escalas de distanciamento. Este processo de aproximação confunde-se com a constituição de um controle pretensiosamente geral, que fomenta e reprime diferenças, homogeneizando na expectativa de uma só lei. Todo este processo encontra seus lances, seus episódios na derradeira passagem que o século XVI testemunha nas Américas. Vejamos abaixo como se entendem estes termos e como se acham os rastros desta passagem.
A tarefa de expressar a diferença de si para o outro carrega consigo um duplo esquecimento: a qualidade da alteridade e o lugar ambíguo do contato existencial entre o etnólogo e o indígena. Esquecer estas dimensões é partir ao meio as circunstâncias do encontro. O tecido dos relatos sugere indícios para o acolhimento e as motivações dos viajantes e mostram a reação entre membros de sistemas culturais não mutuamente redutíveis quando são expostos ao contato. Deste encontro inédito, podemos dizer que
“suas facetas desacostumadas e incongruentes, só são vistas diante da presença estrangeira e desestabilizadora que desorganiza o status local” (Affergan, 1987, p. 8).
53 Não há cultura transparente (aquela que não se perturbe pela observação exterior). O contato faz com que toda cultura apresente-se de certa maneira inautêntica no sentido de que o que se observa é desde já uma reação a um corpo estranho (observador). Não há transparência nem uma cultura in vitro. Portanto, para Affergan ainda é possível construir uma teoria do encontro que repare e inclua uma prática da temporalidade e da espacialidade das culturas in vivo e os casos de vida desta gente aventureira, isto é, dar carne e sangue aos esqueletos que a teoria cria. Nestas duas esferas interpenetrantes, do lado do tempo encontram-se o contato, a aparição, a apreensão e a sucessão contínua e descontínua. Do lado do espaço, se encontram as cores, a nudez, os corpos enfim, a repentina e abrupta presença do indígena. Esta presença abole o espaço de conforto e de crença e constrói outro espaço carregado de tensão, de violência, de mal-entendidos e por isso mesmo de desejo e de assombro. A onipresença que medeia estas duas esferas é o olhar, a visão que Affergan chama de
“chiasme entremêlée” (1987, p. 9).
Como abarcar estas dimensões da observação? A imaginação, os souvenires, a apreensão, a atenção, a duração subjetiva. Para tal metodologia, Affergan recorre a Segalen para “abraçar o distante e elaborar uma teoria” desta dimensão exótica (Affergan, 1987, p. 9). A alteridade submetida à qualidade e à intensidade da descoberta torna-se exótica, uma vez que não há lugar axiológico para esta experiência do inesperado. Este deslumbramento se traduz em infinitas e ínfimas variações de força, de indícios e de símbolos. Depois desta inauguração dos sentidos, tudo o mais cai no exercício da compreensão. A partir do susto começa o exercício da explicação. O sucedâneo desta experiência fundadora é uma diferença concebida como processo
“iniciado historicamente no Ocidente e que a descoberta do outro não abala mais”
(Affergan, 1987, p. 9). Uma vez que já há expectativa, que já há informação sobre este outro, passa a incidir sobre esta experiência a diferença que, ao contrário do exotismo, não modifica mais a consciência do tempo e do espaço.
Grosso modo, a experiência da diferença é quantitativa porque invoca uma proximidade na qual se operam comparações, substituições e combinações. Trata de variações dentro de uma mesma escala. No entanto, a experiência evocada pelo exotismo que é o desarraigamento de si e do outro, a captura, o surgimento, a sideração que ela pode provocar, todos estes indícios são de pouca consistência científica,
54 contudo, a veracidade destes estados não pode ser posta em xeque tampouco, uma vez que regularidades e práticas emergem quando se observam os períodos históricos, sobretudo, no final do século XV e século XVI, nos quais se descobre maciça e abruptamente o choque do extremo-outro.
Affergan afirma que na Idade Média não havia lugar para a alteridade como conceito, uma vez que sua figura estaria subsumida ao véu fantasmagórico de um universo onírico de monstros e de bestas. Naquele período o imaginário do prodigioso/maravilhoso, do monstruoso e da animalidade ocupava a cena sem personificar-se. As cruzadas foram os motores desta emergência do Outro, uma primeira aproximação global, com toda sua virulência e violência inscritas nestes episódios (Affergan, 1987, p.11-12). Mesmo assim, o mouro e o extremo oriente nunca foram de fato outro senão que um duplo, um inimigo, uma riqueza. Estiveram ali desde sempre, sua existência fantasiosa, mas firmemente ancorada na realidade. A viagem de Marco Polo foi o paradigma desta era.
Nos séculos XII e XIII, as motivações da viagem conheceram um apetite irrefreável. Os diagnósticos econômicos, tecnocientíficos não explicam, por si só, esta pulsão pela viagem (Affergan, 1987, p.13). Precisa-se para tanto ver esta pulsão como vontade de escapar ao enclausuramento do qual foram testemunhas as crises da reforma, a questão das minorias judaicas e a ocupação árabe na Ibéria. Cabe ver tal vontade de alhures como vontade de errância, vontade de descobrir uma alteridade, encontrando outras cores, temperos, costumes... Por fim, vontade de descobrir a si mesmo através do Outro. Todo este complexo de desejos se expressava em figuras de retórica que exaltavam o pitoresco e o maravilhoso, a força enunciativa e o gosto pela aventura.
Autores faziam isso por avivarem seus relatos por meio de técnicas a posteriori de narração (Affergan, 1987, p.13).
Onipresente, era o medo e para seu exorcismo foi empenhada a condenação, o uso da força contra o canibal incestuoso. E este processo exorcizante tomou a forma, no caso das ciências etnográficas, do deslizamento “de um discurso autêntico sobre a revelação da alteridade (uma afirmação do que se vê) para uma descrição classificatória das diferenças (uma repressão)” (Affergan, 1987, p.14). Daí um paradoxo: se uma lógica da alteridade se mostra impossível, em função destes estados de alma descritos