Mãos que trabalham para o mesmo monte
65 M ALUF, op.cit., p 203.
66 Cf. FA VA R O , C leci Eulália. M oglie, donna, femmina. In : Im agens fem ininas : con trad ições, am b ivalen cias, v iolên cias - Região colonial italiana do Rio Grande Do sul - 1875-1950. Porto Alegre 1994. T ese de Doutorado. PUC. p.240-254.
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ção da casa. Até aí nenhum a novidade, pois na sociedade ocidental, via de re gra, a m ulher é responsável pelo trabalho dom éstico. Porém resta-nos perguntar se, nesta com unidade, o trabalho exercido pela mulher no seio do lar seria um fator de desqualificação frente ao trabalho m asculino, exercido na roça, ou, por assim dizer, a nível de peso e m edida, se caberia ao trabalho feito pelo homem o fiel da balança.
N estes term os, faz-se necessário aqui, tecer algumas reflexões acerca do trabalho. Principalm ente porque nas entrelinhas da fala de meus interlocutores não percebia esta desqualificação, porém isto já estava posto enquanto fator cultural, enquanto fator de diferenciação entre o homem e a m ulher, enquanto gênero. Fora portanto interiorizado pelas m ulheres que aos hom ens cabia a m ai or parcela m aior de im portância, visto que só se dedicavam à roça e era da “roça” que provinha o sustento da família. Tiveram como exem plo seus pais, tidos como provedores. Mesmo que os relatos das m ulheres denunciem que m uitas vezes a elas eram atribuídas tarefas iguais às executadas pelos homens, prevalece a im agem da ajudante.
Em se tratando de perceber se o trabalho feminino (afazeres dom ésticos) era motivo de desqualificação frente ao trabalho m asculino (roça), interessante perceber que, como afirm ou Cleci Eulália Favaro :
O uso do termo não diferencia as tarefas desenvolvidas na “roça” daquelas no interior da casa: tratar os animais, lavar os pratos, cozinhar, tecer e fiar, cuidar da horta ou acompanhar os demais membros da família nos trabalhos da “colônia” tem peso equivalente.67
67 Sobre esta discussão, cf, FAVARO, Cleci. In: Imagens femininas... em especial o capítulo IV, intitu lado S orelle d iseg u a lli - a v o z e a “ fala” fem inina, p. 299-374.
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Eu diria que também em N ova V eneza o peso pode ser equivalente , mas perguntaria : como estas m ulheres se percebem em relação a este serviço? Pre feriam ficar em casa ou ir para a roça? A ceitavam a condição im posta por suas m ães, sem resistência?
Atentem os para o que nos diz dona Josephina: Eu trabalhava, que a mãe
me deixava sempre em casa e ela ia para roça. Mas depois chegou um tempo ali que eu virei a pensar em todo aquele trabalho que eu passava em casa com meus irmãos. Aí, um dia eu me lembro, eu ainda disse, se é pecado eu tenho esse pecado, mas de certo não é! Um dia eu le v a n te i, botei o chapéu na cabeça e disse, hoje eu não fic o em casa não! E ela fic o u em casa, porque sempre tinha que fic a r alguém, né? Fiz isso porque eu achava que era muito trabalho p ra mim, eu j á tava cansada e ela queria que eu fica sse em casa, porque ela sabia que na roça vai levando aquele serviço . Em casa corre fa zê uma coisa, corre fa z ê outra, porque era lavá roupa, aprontar o almoço, era varrer a casa, limpá tudo, ainda me tocava ir na roça, botá o derlo nas costas pra buscar os tratos p ras criação. As vezes não dava conta e, quando ela chegava em casa, virava fa lar. Agora eu digo, eu é que vou p ra roça, você quer fa ze r o serviço fa ç a \68
As colocações de dona Josephina reforçam que as mulheres tiveram que seguir o exem plo de suas mães, isto é, houve uma construção cultural quanto aos papéis fem ininos, pois dona Josephina preferia a roça e não os afazeres do m ésticos. A roça era por excelência o local de trabalho masculino, pois os ho mens não se dedicavam aos afazeres dom ésticos. Fica clara a resistência, ao mesmo tempo que suas falas nos revelam que havia conflitos em torno das divi
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sões de tarefa. São indícios de que estas m ulheres foram sendo construídas culturalm ente, através do exemplo, da insistência, da repetição, onde a figura da mãe como ditadora das regras é o que prevalece. Se, as tarefas das mulheres (entenda-se o trabalho dom éstico) precisava ser aprendidas, interiorizadas, fica im plícito que os afazeres da casa não eram inerentes as m ulheres, como se todas as m ulheres já tivessem uma pré-disposição para tais tarefas. Por outro lado, o aprendizado está posto. Deste aprendizado, dona Josephina faz referência: p a s
sei mais trabalho criar meus irmãos que meus filh o s ,69 evidenciando de onde
retirou as “lições” e o exemplo para colocá-los em prática com sua própria fa m ília, constituída a partir do casam ento. No entanto esta interiorização acaba por naturalizar os papéis femininos.
A liás, esta associação das m ulheres com os afazeres dom ésticos fez com que elas não se identificassem como agricultoras. Ser m ulher de agricultor era ser dom éstica, ser sua colaboradora. Isto porque:
E o lugar social destinado à mulher que confere a ela uma identidade de sexo. N ão é a diferença biológica que a torna, “por natureza”, mais apta para esta ou aquela tarefa. A ssim , quando a sociedade com o um todo expressa a concepção que tem do “lugar da mulher” dentro das relações matrimoniais, transforma-a em colaboradora do chefe da “sociedade conjugal...70
Quando vasculhei as certidões de casam ento71, percebi que, quanto à pro fissão, as m ulheres recebiam a designação “do lar” e “dom éstica” . Mesmo con
68SCA R SI, Josephina V ., op.cit. 69 SCARSI, Josephina V., op.cit. 70 M ALUF, op. cit., p. 206.
71 Pesquisei no cartório de N ova Veneza certidões de casamento das décadas de 1920 até 1950, e em