Muito participativa nas aulas da professora R, a aluna se destaca por sempre se prontificar a responder às questões, mesmo não tendo certeza da resposta correta. Com
14 anos, ela tem uma aparência mais infantilizada, quando comparada às outras alunas da turma: não usa maquiagem e usa uniforme tradicional, com uma saia comprida (até o joelho, no máximo!). A família é evangélica atuante, portanto, a filha precisa seguir as regras impostas pela igreja. Filha mais nova, tem mais três irmãos homens: o mais velho é casado e mora em um bairro da periferia; o segundo trabalha na mesma empresa que a mãe trabalhou até se aposentar, a fábrica de doces ‘Tiquinho’; o mais novo entre os três faz curso de técnico em mecânica na Escola Técnica Paula Souza (estadual), seguindo a vocação herdada do pai. Angélica é a filha mais nova e a única mulher e, como tal, carrega a responsabilidade de cuidar dos pais; nas conversas com a professora R ela deixa transparecer que a família incentiva mais a sua formação como dona de casa devota e, de certa forma, a formação escolar para estas meninas escolhidas pela família para cuidar dos familiares não é tão importante ou, pelo menos, é visto como secundário. É um aspecto cultural.
Apesar de ser uma aluna atenta, participativa, tem um desempenho chamado de mediano. A professora R diz abertamente: Ela não é muito inteligente, dá umas respostas fora do contexto, mas eu relevo para incentivá-la a falar, já que os outros alunos não participam muito da aula. A escolha da Angélica para participar da pesquisa foi justamente por ser uma das poucas alunas que interage com a professora R em sala de aula. Ela circula por todos os grupos, suas relações com a turma, de forma geral, são muito tranquilas. O aproveitamento escolar dela não a impede de ser entusiasmada com a escola, apesar de não ter certeza se daria prosseguimento aos estudos, no futuro e afirma que quando chegar a hora, vai escolher se quer, ou não, continuar os estudos pois considera que o tempo gasto com os estudos, de pessoas que conhece, parece ser muito cansativo e ela, além disso, quer trabalhar.
5.2.5 MAURÍCIO:
Com o perfil questionador que incomoda a professora R. Com 14 anos, está na escola desde o 6º Ano; mora no bairro com o pai e dois irmãos mais velhos estudantes da UFSCar (um cursando Ciências Sociais e o outro Pedagogia). A mãe faleceu há anos, vitimada por um câncer de mama. Tem um ótimo desempenho escolar, mas não é do tipo que anota os conteúdos nem que tem material sempre completo; participa perguntando, realizando exercícios e com leituras complementares ao livro didático. Sem dúvida alguma, o grupo familiar sustenta e apoia seu posicionamento em sala de aula.
O bom desempenho de um aluno que desafia as regras em sala de aula causa desconforto na Professora R, mas desperta a admiração dos demais colegas que o consideram o porta-voz de suas reivindicações com relação à escola. Todas as demandas que exigem um posicionamento coletivo do grupo passam pela liderança do Maurício, que leva os argumentos a quem pode resolver. Entre os demais atores, na escola, ele é visto com o respeito de quem tem personalidade e é correto em suas bandeiras e, em sala de aula, é considerado uma liderança.
Os demais professores da sala admiram o fato de o aluno ser politizado e crítico. Essa é uma característica admirável para um aluno de 14 anos. Mas também causa um certo estranhamento entre professores mais tradicionais, que desejam o aluno como um indivíduo passivo perante questões mais controversas. Assim, o Mauricio passa a ser referência, tanto para um grupo quanto para outro. A escolha deste aluno pareceu óbvia para os objetivos da pesquisa.
5.2.6 MICHELE:
Adolescente de 17 anos, sempre usa maquiagem, unhas pintadas, roupa customizada, camisetas curtas, short. A mãe é faxineira, o pai deixou a família há muito tempo; na casa moram a mãe, o irmão mais velho, ela e o namorado. A mãe faz faxina em residências e às vezes fica semanas sem trabalhar, dependendo da época do ano. O irmão mais velho é usuário de drogas e comete pequenos furtos, tendo já sido preso por longo tempo e, em episódios recorrentes, a Michele já assumiu culpa por armas encontradas em casa para livrar o irmão de ser preso novamente. Isso a levou a ser internada na Fundação Casa em São Carlos por seis meses, resultando em sua reprovação no ano anterior e, além disso, precisa cumprir medidas socioeducativas rígidas, fato conhecido por todos na escola. O namorado divide a casa com a família dela; ele tem 10 anos a mais e não tem um emprego fixo, faz trabalhos eventuais de pedreiro, motorista, ou coisas parecidas, e também já foi preso por porte de drogas. Por estas relações, é frequente a Michele ser abordada na rua pela polícia militar, que faz revistas violentas e a assedia.
Na sala de aula é uma aluna dispersa, pouco envolvida nas atividades, mas com desempenho suficiente para tirar nota nas disciplinas. Ela é despojada e fala tudo que pensa. Seu passatempo preferido é o celular, onde praticamente se esconde da realidade: faz selfie o tempo todo, está sempre conversando nas redes sociais, sempre com o fone de ouvido. Ela se dá bem com todos os grupos da sala e tem, até, uma liderança entre as
meninas, principalmente em questões de roupas, maquiagem, e sobre meninos. Mesmo assim, muitas meninas a criticam pela a forma como ela se impõe em certas ocasiões em que se exalta e fala de forma grosseira.
A relação dela com a família a deixa vulnerável na rua, mas na sala de aula sua condição de menor infratora a deixa com uma aura de esperta. Ela é reconhecida pelos colegas como corajosa por enfrentar tantos problemas na rua, porém, entre alguns professores e alunos é vista como outsider. É por essa característica que foi escolhida para compor as narrativas.