Grande parte dos linguistas alemães do século XIX tinha algum ‘parentesco acadêmico’ com o latinista Friedrich Wilhelm Ritschl (1806-1876). Depois de estudar um ano na Universidade de Leipzig, transferiu-se para a Universidade de Halle, onde tornou-se professor em 1834. Mudou-se para Bonn em 1839, e passou a administrar lá um seminário filológico de onde surgiram vários estudiosos de renome. Ele, junto de Franz Siegfried Lehrs (1806-1843), compôs dez man- damentos, em parte como um chiste, para os classicistas. O quarto deles é Du sollst den Namen Methode nicht unnüntz im Munde führen (Não
8O termo Deutsch ‘alemão, germânico’ só passou a ter sentido gentílico, desig-
nando o país a que se pertence, a partir da Unificação da Alemanha, que se deu a dezoito de janeiro de 1871. Antes disso o termo tem um sentido mais amplo, de ‘germânico.’
deves dizer o nome Método em vão). Dentre seus alunos há nomes como Georg Curtius, Schleicher, Schuchard, Sievers, Johannes Sch- midt, Clemm, Windisch, Meister, Brugmann, Cauer. Nota-se, assim, a relação entre a filologia e a linguística comparada que então nascia. Segundo Davies (1986: 157), “se juntarmos a eles a lista de alunos de
Curtius, obteríamos uma escalação quase completa* dos linguistas alemães da segunda parte do século XIX.”
Destes o mais velho é Georg Curtius (1820-1885). Nascido em Lübeck, estudou em Bonn e em Berlim. Tendo sido professor em Dresden, tornou-se privatdocent na Universidade de Berlim, em 1845. Em 1849 ele se transferiu para Praga, gerindo lá um Seminário Fi- lológico. Em 1852 mudou-se para Praga, e em 1862 finalmente se estabeleceu em Leipsig. Curtius é o autor mais citado no Mémoire, sendo mencionado setenta vezes (Vallini 2013: 31).
Dele Saussure cita, em especial, os Estudos para a Gramática Grega e a Latina (Studien zum Griechischen und Lateinischen Grammatik) de 1868 (v.g. nas páginas 13, 106 e 148) e os Rudimentos da Etimologia Grega (Grundzüge der griechischen Etymologie), publicados entre 1858 e 1862 (v.g. nas páginas 16, 30, 34, 46, 61 duas vezes, 77 et passim). Interessa em especial que, na retrospecção que Saussure faz nas primeiras páginas do Mémoire, seja de Curtius o primeiro sistema de vogais a ser discutido.
Ao morrer, seu posto em Leipzig passou a ser ocupado por Karl Brugmann, sobre quem veremos a seguir. Antes, no entanto, tratare- mos do contemporâneo e amigo de Curtius, August Schleicher.
August Schleicher (1821-1868) nasceu em Meiningen, estudou na Universidade de Bonn, e lecionou em Praga e em Jena. Seu mag-
num opus, o Compêndio da Gramática comparada das Línguas indo-
europeias (Compendium der vergleichenden Grammatik der indogermanis-
chen Sprachen) teve um sucesso imenso, tendo tido quatro edições
em apenas quinze anos, além de ser traduzido para o italiano e o inglês. O Compendium tornou-se o texto básico sobre linguística indo- europeia, e serviu de modelo para os textos futuros dessa natureza;
além disso, a Schleicher costumam serem atribuídas várias inova- ções metodológicas: a reconstrução do sistema fonológico do indo- europeu, o modelo de árvore9de famílias linguísticas(Hoenigswald e Wiener 1987: 111), a insistência em leis regulares de mudança sonora (Davies 1998: 167), e o uso do asterisco (*) para marcar as formas reconstruídas da língua ancestral.
Karl Brugmann10(1849-1919) estudou nas Universidades de Halle e Leipzig. Lecionou em Wiesbaden e em Leipzig, onde se tornou professor de filologia comparada. Em 1884 transferiu-se para a Uni- versidade de Freiburg, e voltou a Leipzig em 1887, sucedendo Georg Curtius; lá ele passou o resto da vida como professor de sânscrito e linguística comparada (Davies 1986: 152).
Brugmann fez parte de um grupo de jovens estudiosos ale- mães, chamados de “neogramáticos” (Jungggramatiker) por Curtius. O grupo incluía Brugmann, Hermann Osthoff (1847-1909), Berthold Delbrück (1842-1922), e Eduard Sievers (1850-1932). Saussure, tendo nascido em 1857, era novo demais para fazer parte dessa geração, cujos membros já lecionavam em Leipzig na época em que foi estudar lá, em 1876 (Joseph 2012: 184).
Saussure se vale de vários conceitos desenvolvidos pelos neogra- máticos ao longo do Mémoire. O mais importante é o de que é possível ter regras sem exceção, o que só foi possível afirmar depois da solu- ção das exceções à lei de Grimm. A Lei de Grimm, que estipula que as oclusivas do indo-europeu, no ramo germânico, passaram por uma mudança em que todas as consoantes aspiradas perdiam a aspiração e tornavam-se sonoras simples, as sonoras simples tornavam-se sur- das, e as surdas tornavam-se fricativas (Collinge 1985: 63). Vejamos por exemplo a série11dental:
9Saussure menciona Schleicher, associando-o ao modelo de árvores linguísticas,
já na terceira página do Mémoire. Contamos, além dessa, treze menções a ele, nas páginas: 4 duas vezes, 75, 85, 92, 125, 132, 136, 144, 160, 286, 287.
10Brugmann é o segundo autor mais citado no Mémoire, sendo mencionado 67
vezes (Vallini 2013). Dessas, trinta e três estão no primeiro capítulo, a começar pela página 6 duas vezes.
Tabela 3.1: Oclusivas dentais sob a Lei de Grimm /dʱ/ → /d/
/d/ → /t/ /t/ → /θ/
Assim, equivalente ao sânscrito madhu ‘mel’ há o inglês antigo
medu ‘hidromel’; ao sânscrito daśa ‘dez’ há o gótico taihun; e ao sâns-
crito bhrātar- ‘irmão’ há o gótico broþar.
Essa foi uma das primeiras leis a serem propostas, possuindo, no entanto, várias exceções que resistiam a qualquer explicação. Tendo sido proposta por Jacob Grimm já em 1822, ela teve de esperar até 1876 por sua explicação completa, quando Karl Adolf Verner (1846- 1896) publicou um artigo, no volume 23 da Revista de Kuhn12, expli- cando que as exceções vêm da acentuação das palavras. Isto se deve, ao menos em parte, ao fato de que em sânscrito clássico o acento tonal se perdeu, e o sânscrito aprendido pelos primeiros Ocidentais, tal como vimos, raramente tinha alguma marca de acentuação.
Somente ao estudar o estrato mais antigo da língua, chamado védico, foi possível saber, com precisão, a posição do acento nas formas das palavras, ainda que Bopp já tivesse alguns exemplos na sua gramática, que foi os que Verner usou. Se o acento cai na sílaba precedente à de uma consoante surda, como no sânscrito bhrā́tar que vimos logo acima, a lei de Grimm se aplica normalmente; mas se essa sílaba é átona, a consoante torna-se sonora, como entre o sânscrito
pitár ‘pai’ e o inglês antigo fæder (Collinge 1985: 204).
Dessa forma, a Lei de Verner foi uma descoberta essencial para que a proposição de que as leis fonéticas não tinham exceção (a chamada “ ‘Inexcepcionalidade’ das leis fonéticas,” Ausnahmslosigkeit
der Lautgesetze), um dos marcos fundamentais da escola dos neogra-
máticos.
12I.e. Adalbert Kuhn (1812-1881), que fundou a Revista de Linguística comparada
(Zeitschrift für vergleichende Sprachforschung) em 1852, também chamada de “Revista de Kuhn”, Kuhns Zeitschift. Este era o periódico de maior prestígio à época.