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Fonte: Arquivo pessoal, 2017.

Fazendo aqui uma análise de minha história de vida, observo como, a cada página virada, me percebo melhor. O presente traz uma realidade mais centrada na lógica, na qual através da (auto)biografia, podemos entender cada momento que passamos na existência nesse mundo. Sair de mim para me enxergar de fora é um exercício cauteloso. Temos o costume de observar as outras pessoas, apontar suas falhas. Observar como são e como vivem. Atribuímos a elas a responsabilidade de

10 Thalita, Eliana, Francinilda, Thiago, Marta, Risalva, Klaus

nossas falhas. Devemos fazer um exercício, nos purgando de nossas imprecisões. A partir desse ponto, podemos nos ver e nos colocarmos no lugar do outro.

Juntando cada pedaço de minha trajetória, vejo o quanto tenho a fazer em relação à inclusão. Minhas memórias de família, baseadas na minha formação, me deram um parâmetro para seguir. Crenças e princípios os quais me seguem durante toda a minha vida, constituem quem eu sou e devo aplicá-los agora de maneira efetiva. Nada na minha vida foi por acaso. Hoje entendo que não. São as vicissitudes de minha vida fazendo sentido.

Na época de criança, os amigos também foram determinantes na formatação de minha personalidade. Costumávamos nos perguntar como nós seriamos no futuro.

Naquele momento, eu não tinha ideia nenhuma. Não sabia direito quem eu era, pois eu estava em formação. No presente, ainda não sei o que me tornarei, pois estou em um processo constante de aprendizagem, embora hoje eu tenha um norte e detecte cada fragmento de mim e o que eu tenho que fazer. Apesar de me indagar sobre as coisas do mundo, não tinha maturidade o suficiente para me ver como me enxergo agora. Cada momento na vida tem sua revelação.

1.4 A acei tação do “eu ” co mo p on to d e p artid a, n ortea d o pel o es tudo (au to)b i ográf i c o.

Para entender um pouco do mundo externo, necessitamos compreender quem somos e aceitar de onde viemos, ou seja, conhecer nossa pertença e nossa origem. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha avó, meus parentes próximos e meus amigos, sou o reflexo de todos eles. Tudo visto e aprendido foi devido a um convívio diário. Em repetidas vezes, nós conversamos, discutimos, nos conciliamos, criamos barreiras protetoras em nós mesmos, quando não aceitamos a condição do outro. Na maioria das vezes, somos egoístas por natureza. Achamos que todos podem errar menos nós. Nessa ideia errônea, passamos anos de nossa vida aprisionados a um pensamento individualista. Até um dia aparecer algum dispositivo, cuja função seja nos libertar dessa condição de escravismo de nós mesmos.

A leitura seria o primeiro passo para essa libertação de nosso ser. Essa condição de aprisionamento, que há muito tempo carregamos na existência, limita nossa capacidade de questionar e entender os acontecimentos ao nosso redor. Através do conhecimento se processa a libertação do homem. Seria uma libertação dos homens

com outros homens, coletivamente. Não existe libertação sozinha, assim como não acontece uma mudança sem a forma conjunta de indivíduos que buscam interesses comuns. Freire (1970, p. 30) afirma:

A ação libertadora, pelo contrário, reconhecendo esta dependência dos oprimidos como ponto vulnerável, deve tentar, através da reflexão e da ação, transformá-la em independência. Esta, porém, não é doação que uma liderança, por mais bem-intencionada que seja, lhes faça.

Não podemos esquecer que a libertação dos oprimidos é libertação de homens e não de “coisas”. Por isto, se não é autolibertação – ninguém se liberta sozinho, também não é libertação de uns feitas por outros.

A relação de nós e o “outro” precisa existir, senão não haverá um caminhar coletivo. A sociedade é um conjunto de acontecimentos coletivos e singulares os quais se relacionam de maneira inseparável.

A pesquisa (auto)biográfica deu-me um rumo. Essa metodologia pode ser usada, de início, em nós mesmos, como autoconhecimento. Depois desse método, entendo que não se pode construir um trabalho de biografia de qualquer sujeito, sem compreender quem somos. Ao acontecer isso, podemos nos ver em terceira pessoa, saindo de nós mesmos e nos observando, como se fôssemos outro indivíduo. Não é uma tarefa fácil, no entanto com o exercício constante é possível ter um resultado satisfatório.

Quando reporto-me à minha infância, vejo o quanto foi relevante uma base familiar sólida. Por experiência própria de quem tem uma família com nove irmãos, cada um com seu pensamento e personalidade diferentes. Como estava rodeado todos os dias por muitas pessoas, eu não tinha a noção de como era complicado para meus pais a tarefa de criar nove filhos e todos estarem bem encaminhados na vida. O contexto era adverso, mas nós éramos unidos. Poderíamos até discutir ou brigar, porém não ficávamos sem nos falar, pois meus pais tomavam a frente, exigindo que nós nos conciliássemos.

Mamãe e papai tinham um auxílio muito expressivo de minha tia “Kika” e de minha avó Etelvina Olegário. Além delas, minha irmã mais velha Denise ajudava na criação dos filhos mais jovens. Sempre estávamos juntos, fosse assistindo televisão, conversando na sala, no quarto ou almoçando juntos, ali existia um laço muito forte entre nós. Do contrário disso, eu via famílias vizinhas com seus dois ou três filhos, porém não existia união entre eles, brigavam o tempo todo, ficando dias sem se falar.

Minha avó Etelvina foi uma criatura adorável, uma verdadeira mãe para nós, mas como a maioria das avós, em algumas situações, encobria algumas coisas erradas que fazíamos, ficando do nosso lado até mesmo quando estávamos sem razão alguma.

Minha avó era uma mulher muito generosa. Não tinha nada que ela possuísse, que não dividia entre nós. Não parava nem um segundo. Sempre estava para lá e para cá. Ora lavando roupas, ora lavando a louça, cozinhando e passando roupa. Acordava todos os dias às quatro horas da manhã, parecia que não cansava nunca. Ela se preocupava muito com todos nós. Todos os dias pela manhã esquentava nosso leite e antes que acordássemos, saía de rede em rede dos filhos mais jovens aos mais velhos com a mamadeira de leite.

Essa generosidade de minha avó ficou marcada dentro de mim. É tanto que não consigo ver uma avó gritando com um neto ou o neto respondendo-lhe sem esquecer como a minha era uma criatura amável e jamais faria conosco uma coisa dessas. Na minha vida adulta, minha avó adquiriu diversos problemas de saúde – como diabetes, osteoporose, problemas de pressão – e na década de 2000, precisou colocar um marca passo. Mesmo frágil e debilitada era lúcida. Eu costumava chegar lá na casa do meu pai e já com meus trinta e pouco anos, entrava no quarto de minha vó, subia na cama dela e dizia em seu ouvido o quanto a amava. Ela ria e dizia o mesmo. Ela alcunhava-me de

“branco”, uma forma carinhosa a qual jamais esquecerei. A ida dela ao médico era cada vez mais constante. Ia, internava-se, melhorava, voltava para casa. Um ciclo que se intensificava. Mas no ano de 2008, em meados do primeiro semestre, ela se internou e por complicações de suas várias doenças, partiu para o outro plano. Foi um dos dias mais tristes de minha vida. Saudades eternas, vovó.