Durante a vida não conquistou o seu espaço no ambiente. A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência no idoso. E uma doença degenerativa que afeta o cérebro, provocando atrofia progressiva das estruturas neurológicas.
Manifesta-se com a alteração de humor e de comportamento. Inicialmente a pessoa apresenta perda progressiva da memória, principalmente para eventos recentes, ou seja, não se esquece do passado, mas tem dificuldade de se lembrar do que ocorreu há alguns instantes. Promove a perda das habilidades de pensar, raciocinar e memorizar. Caso a pessoa vá à padaria da esquina, por exemplo, pode ocorrer de ela não conseguir fazer o caminho de volta para a sua casa. O avanço da doença afeta a linguagem, dificultando a expressão e também o aprendizado.
A progressão da doença é lenta, porém implacável. Os sintomas vão se agravando com o passar do tempo, durando com freqüência mais de dez anos; essa é a perspectiva de vida de uma pessoa com Alzheimer. A doença culmina na demência, que é um transtorno mental orgânico, resultando na perda progressiva ou permanente das faculdades intelectuais.
A pessoa perde a razão e a capacidade de cuidar de si mesma, apresentando também alteração na personalidade.
Foi descrita pela primeira vez em 1907 por Alois Alzheimer. Os principais fatores de risco incluem idade, histórico familiar e síndrome de Down.
A idade é o mais significativo fator de risco. Geralmente o acometimento da doença é tardio ou senil. A partir de sessenta anos de idade, o aumento do fator de risco é progressivo a cada cinco anos.
No tocante ao histórico familiar, a recorrência da doença em filhos de afetados é consideravelmente elevada. A
incidência genética também é apresentada pelos estudos dos principais genes e dos cromossomos envolvidos com a doença de Alzheimer.
A maior parte dos portadores da trissomia 21 (síndrome de Down) que sobrevivem além dos quarenta e cinco anos, estão sujeitos a manifestar a doença de Alzheimer. Esse número atinge 80 a 90% dos casos (ROBBINS; COTRAN, 2005, p. 1452).
Antes de entrar nas causas metafísicas do Alzheimer, precisamos considerar alguns aspectos da condição de vida, comum à maioria de nós, cuja problemática poderá favorecer o surgimento da doença.
É muito comum entre as pessoas desejarem o controle sobre a realidade, querer garantir antecipadamente os resultados almejados e procurar ter as "rédeas" da condução da própria vida e, às vezes até, da vida dos outros. Para tanto, fazem-se necessárias as faculdades mentais, que possibilitam a interação com o meio em que vivem.
A integração com o ambiente e as relações interpessoais requerem que se estabeleça elo ou cumplicidade entre as pessoas, bem como interesse pelos assuntos em questão. Quanto maior a cumplicidade, maior a integração com o meio. Do mesmo modo, para o uso das faculdades intelectuais é necessário elevado nível de conexão consigo mesmas e com as situações ao redor.
Para um bom relacionamento social ou afetivo é imprescindível a capacidade intelectual para mediar os diálogos; melhor dizendo, a atenção, os registros das informações e a organização da expressão verbal e corporal.
Quanto mais afinidade existir entre as pessoas, melhor será a interpretação do que está sendo dito, possibilitando maior interação no diálogo. Isso fica evidente numa convivência longa e com profundos laços afetivos, como a de um casal. Basta um gesto ou um olhar, para que o outro se inteire do assunto.
A empatia favorece não só a aproximação como a comunicação entre as pessoas; meias palavras são suficientes
para interpretar e responder o assunto em foco. Pode-se dizer que quanto mais próxima a pessoa estiver do ambiente e daqueles que a cercam, mais ela exige das estruturas mentais para se situar nos assuntos e fornecer elementos para interação. Se por um lado os diálogos ficam mais simples, por outro a necessidade de elementos interiores como a memória e o raciocínio é aumentada.
A paixão é um exemplo do quanto a estreita aproximação com o externo aciona os mecanismos interiores. Esse sentimento se manifesta basicamente na mente, acionando freqüentes lembranças da pessoa "amada", tais como os últimos encontros, cada palavra pronunciada, tudo o que aconteceu com os dois e os planos para o próximo encontro.
Isso demonstra que se o envolvimento for forte, mas não profundo o suficiente, pode gerar um "colapso" psíquico, como a doença de Alzheimer, um mal que aflige pessoas que não conseguiram estabelecer um profundo elo com a realidade. É como se vivessem naquele entusiasmo da paixão, mas não estabelecessem profundo elo existencial com a vida. Apesar do tempo que viveram, não se sentiram profundamente integradas ao ambiente.
Esse profundo elo, na verdade, não é tanto com o ambiente, mas consigo mesmas, pois as pessoas afetadas por essa doença, geralmente, eram comunicativas, solícitas e bem- quistas pelos familiares. Comportavam-se de maneira simpática e feliz, conseguindo boa relação com os integrantes do grupo social e familiar. O que faltou foi a manifestação dos conteúdos interiores, tais como a sua natureza de ser, as peculiaridades, etc., nas relações e na vida em geral.
Pode-se dizer que não conseguiram conduzir a vida com base nas próprias características, transferir-se para o meio em que habitaram seu estilo, bem como realizar seus mais caros anseios.
É o caso das pessoas que foram muito enfáticas na preservação do próprio estilo; o exagero é o indício da falta de convicção em si mesmas. Esse comportamento é típico do
egocentrismo (concepção de que tudo gira em torno de si). A falta de fé em si, provoca o desejo de domínio sobre os outros e o excesso de cobranças.
Essa atitude, além de ser nociva para as relações interpessoais, e dificultar as conquistas existenciais, metafisicamente, colabora com o desenvolvimento do Alzheimer. Mas esse padrão de comportamento egocêntrico não é freqüente entre os portadores da doença. Por outro lado, quem cultiva essas atitudes nocivas a si e ao meio, pode, no futuro, sofrer desse mal. O maior número de casos são pessoas que conduziram sua vida com anulação e submissão.
Com a doença instalada, o prejuízo na capacidade de cognição (aprendizagem), dificulta a atuação da pessoa na realidade. Ela fica à mercê dos outros e alheia ao que se passa ao redor; dependente da orientação externa, pois comprometeu o próprio senso de atuação.
Os lapsos de memória prejudicam a interação com o ambiente, tirando da pessoa a competência para conduzir sua própria vida depois de uma longa trajetória existencial, na qual também não conseguiu dar um sentido próprio a sua atuação no cenário. Apesar de ter tido um bom desempenho e domínio sobre as situações pertinentes ao ambiente em que vivia, sobressaia-se na habilidade de estabelecer relações interpessoais; porém, não tinha boa relação consigo mesma.
A falta de habilidade de expressão e a significativa mudança na condição de vida requerem condutas de autoaceitação, inclusive das limitações impostas pela doença.
A postura de perceber a si mesmo e reconhecer a maneira de ser são fatores positivos que ajudam a minimizar a progres- são do Alzheimer.
Os aspectos metafísicos dessa doença proporcionam um conteúdo de reflexão para todos nós, quanto à maneira que estamos conduzindo nossa existência. Esses fatores de reflexão, que serão apresentados na seqüência, são de grande ajuda para os familiares do doente, que costumam ficar traumatizados pelo sofrimento de um ente querido e atemorizados pela indicação
genética que existe atualmente para essa doença, temendo sofrer do mesmo mal.
Alguns dos maiores presentes da vida são: ter a possibilidade de coordenação das faculdades interiores; viabilizar os próprios atributos para atuar na realidade; autodefinir-se enquanto pessoa; ter poder de se conduzir; ser o "senhor" de seu próprio destino; atuar com precisão no que compete a si mesmo. Nisso tudo, consiste o sentido da vida.
É importante encontrar uma maneira saudável para conduzir a vida: atuar no que compete a nós, respeitar os próprios limites, sem nos auto-agredirmos com exageros na atuação. Ao fazer a nossa parte dentro dos limites cabíveis para a ocasião, visto que tudo tem seu tempo oportuno, estaremos compondo uma trajetória existencial, construindo as possibilidades para o sucesso, sobretudo, conspirando para a realização pessoal.
A carreira profissional é edificada gradativamente por meio de um bom desempenho no cotidiano, seguido de especializações adquiridas no próprio exercício da profissão, bem como em cursos de aperfeiçoamento profissional. Mas não devemos perder a cumplicidade com as tarefas. Devemos nos manter motivados por se tratar de um ambiente onde nos realizamos enquanto profissionais. O dinheiro ganho no trabalho, por exemplo, possibilita usufruir os privilégios da vida.
Na vida, tudo é decorrente da nossa participação gradativa naquilo que compete a nós. Não precisamos de uma estratégia mirabolante de atuação no trabalho, somente registrar com as atuações precisas e competentes, que se dão com a presença e o interesse, ou seja, fazer o que sabemos, da melhor maneira possível.
Dedicar ao trabalho e aos familiares o que temos de melhor, nossa participação, criatividade, competência, etc., não significa que tenhamos de extrapolar, assumindo responsabilidades excessivas. Colaboração sim, obrigação não.
Afinal, é memorável viver em prol de algo que tenha um significado especial para nós naquele determinado momento. É preciso direcionar a vida de acordo com os próprios objetivos. Não se anular perante as expectativas que os outros fazem sobre o nosso desempenho e participação no meio. Ser o que somos, para que a vida possa sempre valer a pena.
Incluir-se nas relações familiares e afetivas e não se abandonar perante os outros determinam um bom desempenho na realidade, proporcionando boa qualidade de vida.
Isso é o que podemos fazer de melhor, para o bem viver; conseqüentemente, teremos a lucidez necessária para nos mantermos em qualquer fase da vida. Segundo a ótica metafísica, aquele que se cuida, terá sempre condições para o fazer; já aquele que se anula, poderá comprometer a valiosa capacidade de atuação no meio.
Enquanto algumas pessoas anseiam pelo poder e controle das situações existenciais, bem como da vida daqueles que as cercam, outras que vivenciam processos dolorosos, como a doença de Alzheimer, provam que a maior necessidade é a de controlar seus próprios mecanismos existenciais, dominar os processos mentais que organizam os fatores da manifestação no meio em que elas vivem.
O maior poder é o de sermos nós mesmos. Não basta apaixonar-se pela vida; é importante sentir-se integrado à realidade cotidiana.