3. PLOTINO E OS GNÓSTICOS, DAS AFINIDADES AO CONFLITO, À LUZ DE
3.1 Plotino e o Neoplatonismo
3.1.1 Amônio Saccas, precursor do Neoplatonismo
De acordo com Giovanni Reale (1994c, p. 403), embora com Numênio de
Apaméia, o grande neopitagórico, se tenha alcançado o limiar do neoplatonismo, é
somente com Amônio Saccas, que tal escola filosófica se inicia.
Amônio Saccas20 é uma das personalidades mais obscuras de toda a história da
filosofia grega. Tal como Sócrates, nada escreveu, comunicando, sua mensagem,
através da palavra viva que brotava da comunhão reservada entre mestre e discípulo.
Nasceu e cresceu em uma família cristã de Alexandria, vindo a abandonar, depois, o
Cristianismo. Floresceu no reinado de Cômodo (180-192), tendo levado uma vida
retirada, longe das láureas, ao lado de um pequeno número de seguidores, aos quais
ensinou que a filosofia é não apenas um exercício da inteligência, mas, também e,
sobretudo, um exercício de vida e uma ascese espiritual. Esta percepção de Amônio,
acerca da filosofia, terá grande repercussão em Plotino, tanto que a escola, deste último,
em Roma, caracterizava-se pelo clima “de recolhimento espiritual, onde as conversas, as
discussões e as meditações, até as mortificações, preparavam para uma iniciação que
deveria conduzir à vida em Deus” (BRUN, 1991, p. 19).
20
O termo “Saccas” derivaria, para alguns, do fato de Amônio ter trabalhado como estivador ou “carregador de sacos” no porto de Alexandria, antes de se dedicar à filosofia. Para outros, o qualificativo denotaria uma relação com o clã Sakhya, do norte da Índia, do qual proviera o Buda Sakhyamuni.
Embora Amônio Saccas não tenha gozado do status de celebridade em seu
tempo, certamente era portador de excepcionais atributos, tanto no nível intelectual,
quanto no espiritual. Se assim não fosse, um homem do porte de Plotino, que se
enfadara de inúmeros mestres da época, com ele não teria permanecido, como aluno e
discípulo, por longos onze anos.
Ainda nos dias atuais, a filiação espiritual de Amônio Saccas permanece um
mistério, divergindo, os estudiosos, fortemente, quanto a isto. Heinemann o vê como um
grande filósofo grego; para Seeberg, Amônio era um adepto do hinduísmo ou um
missionário hindu; Dörrie o considera um pitagórico capaz de realizar milagres;
Langerbeck, por sua vez, vislumbrou, no mestre de Plotino, um teólogo cristão. O
grande helenista Dodds, mais comedido, preferia qualificar Amônio Saccas como uma
enorme sombra (CLOTA, 1989, P. 50).
Malgrado isto, Amônio Saccas nos é apresentado, pelos testemunhos antigos,
conservados pelo neoplatônico Hierócles de Alexandria e por Nemésio, bispo de Emesa,
como tendo sido um filósofo que, a par de conseguir conciliar Platão e Aristóteles,
soube transmitir aos seus discípulos (dentre eles Plotino, Orígenes e Herênio, os mais
ilustres dentre todos), uma filosofia livre do espírito da polêmica vã e das vaidades
intelectuais. Ele teria operado esta purificação, na condição de theodidaktos, de alguém
instruído por Deus, e através de “um elevar-se divino ao que é verdadeiro na filosofia”
(REALE, 1994c, p. 407). Parecia, ademais, nutrir uma viva admiração pelos brâmanes,
sentimento, este, que, segundo parece, transmitiu a Plotino21 (BRUN, 1991, p. 18).
21
Assevera Jean Brun (1991, p. 22), porém, que, no estado atual dos estudos, não é possível afirmar a efetiva influência do Oriente sobre o pensamento de Plotino. Para ele, ainda que aproximações entre os aludidos pensamentos sejam cabíveis, descabe falar, forçosamente, em influências daquele, neste. Entretanto, parece ilustrativo o esclarecimento de Émile Bréhier (1999, p. 121-122): “segundo Estrabão, a partir da época de Augusto, ter-se-iam estabelecido contínuas relações entre o mundo ocidental e a Índia, por Alexandria, o Nilo e o Golfo Arábico. [...] Os curiosos não deixavam de informar-se sobre os
Josefina Maynadé (1970, p. 27), traça, poeticamente, um perfil do fundador do
Neoplatonismo, ao nos informar que
Amônio era um iniciado na ciência hermética e possuía a verdade das almas despertas, por seu dom inato. A ave real de seu pensamento voava por regiões siderais e contemplava, serena, o plano no qual se debatiam tantos milhares de crenças, tantos fragmentos da mesma divindade mutilada. Ele possuía o segredo da verdade antiga e moderna, mais velha do que o mundo e eternamente jovem como a primavera.
Segundo a tradição antiga, Amônio fazia derivar toda a realidade a partir de
Deus. Ele aproveita a doutrina platônica do Deus artífice (que, não tendo sido gerado de
qualquer matéria pré-existente, governa a estrutura do universo visível e invisível),
dando-lhe tonalidades criacionistas22. Assim, basta a vontade de Deus para produzir a
subsistência das coisas, sendo que, através da união entre a natureza física e a realidade
incorpórea, Ele produziu um cosmos dotado de plena perfeição, a um só tempo duplo
(porque sensível e supra-sensível) e uno (REALE, 1994c, p. 407). Plotino se oporá a
este Deus que cria o mundo por um ato de vontade, mas defenderá, contra os gnósticos
(que consideravam o mundo como obra de um demiurgo mau), a idéia de um cosmos
perfeito.
O cosmos amoniano teria três planos hierárquicos: a instância das realidades
celestes e os deuses; a das realidades intermediárias, ou seja, aquelas constituídas pelas
naturezas etéreas (ou aéreas) e pelos anjos ou demônios bons, que serviam de intérpretes
e mensageiros das mensagens divinas para os homens; e a das realidades íntimas, a
saber, as almas humanas, os homens e os animais terrestres.
costumes e as idéias do seu país [a Índia]. [...] Os costumes dos brâmanes e dos ascetas do bosque constituem um tema tratado extensamente”.
22
Amônio, nascido em berço cristão e, tendo vivido na mesma Alexandria de Filo, certamente conhecia a doutrina da criação.
Ademais, Amônio advogava a incorporeidade da alma. Mais do que isso
entendia, ele, que a alma não se encontra, espacialmente, no corpo, como se este fosse
um mero recipiente. A alma tinha, com o corpo, uma relação de cunho ontológico, isto
é, na medida que o princípio (a alma) produz e governa o principiado (o corpo). Neste
sentido, a alma não está no corpo, mas age nele. Somente se pode admitir a assertiva “a
alma está no corpo”, no mesmo sentido da afirmação “Deus está em nós”, vale dizer,
enquanto Deus, princípio da qual derivamos, nos vivifica, rege e governa.
Observa, assim, Giovanni Reale (1994c, p. 409) que Amônio Saccas mostrou
ineditismo, em alguns pontos, com relação às concepções das escolas filosóficas de seu
tempo. Com efeito, Amônio teria sido portador de uma novidade, com relação aos
médio-platônicos, ao tentar unificar os diversos planos do ser, já que, segundo sua
concepção, o cosmos é, a um só tempo, duplo e uno; na hierarquia dos seres criados,
cada instância é causa da seguinte, havendo um primeiro princípio causador de tudo.
Com relação ao pensamento dos neo-pitagóricos, também teria sido portador de uma
concepção original, ao entender o processo de derivação da realidade como criação.
Porém, a maior reverberação do pensamento de Amônio nas estruturas do
edifício plotiniano, talvez tenha sido a doutrina da íntima união (ou hénosis) entre o
incorpóreo e o corpóreo. Segundo esta, a unificação do homem com o divino nada mais
seria do que a expressão de uma finalidade, de um telos, previsto pela Lei imprescritível
e maior, que governa toda a realidade.
Inobstante isso, o pensamento de Plotino não é uma mera derivação das
concepções de Amônio Saccas. As fontes antigas não registram, neste, duas teorias que
Vida de Plotino, que seu mestre “era personalíssimo e inovador na sua visão da doutrina dos outros; de resto, no método de pesquisa, alinha-se ao espírito23 de Amônio”.