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Amar demais um significado para o termo boylover

Os diversos relatos dessa comunidade permitem ver que algumas noções afloram mais que outras. A noção de boylover, por exemplo, aflora dentre um conjunto de noções possíveis, porque permite ancorar questões fundamentais para os pedófilos que circulam na

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comunidade. É com ela que a ideia de pedofilia enquanto doença ganha contorno; um contorno que tende a se distanciar da noção de patologia cunhada pelo saber médico. Em outras palavras, o termo boylover é utilizado pelos pedófilos da comunidade para delinear outra noção de patologia, formulada em seus próprios termos. Assim, veremos aqui que ser doente ganha o status de um sofrimento (doença) que se instaura pelo fato de ‘amar demais’.

Antes de qualquer coisa, é preciso observar que o termo boylover foi cunhado pelo movimento pró-pedofilia. Ele consiste em uma forma de alguns pedófilos organizados reivindicarem que seu interesse sexual por crianças possa vicejar como uma ‘orientação sexual’, ou seja, fora dos campos médico e jurídico; deixando assim de ser visto, respectivamente, como doença e crime). Alguns dos movimentos de pedófilos organizados

são Nambla75, Sociedade René Guyon (EUA), DPA76 (Dinamarca), Krumme 13 (Alemanha),

Martijan77, NVD78 (Holanda).

Ignorando essa ideia, os participantes dessa comunidade, sobretudo os pedófilos, buscam compreender e significar o termo de acordo com as informações às quais têm acesso.Disso resulta a criação de um conjunto de nuances semânticas. Estes significados também podem ser compreendidos como propostas que correspondem a seus projetos pessoais. Devido a isso, também são frequentemente confrontados entre si.

As discussões dividem a opinião dos pedófilos em diferentes pontos de vistas, mas dois deles são mais evidentes. O primeiro se aglutina em torno daqueles que defendem que o termo boylover se refere aos sujeitos que sentem atração sexual por crianças. O segundo, em torno daqueles que acreditam que o termo carrega o sentido de amor sem atração sexual.

Os que defendem que os boylovers não sentem atração sexual por crianças se orientam por uma tradução literal do termo. Consequentemente, traduzem boylover,do inglês, como “amor aos meninos”.A partir dessa tradução, passam a se opor ao grupo que entende o termo como um sinônimo de pedofilia, lodo de doença e agressão. A associação entre boylover e “amor aos meninos” se faz possível porque muitos afirmam que não sentem atração sexual por crianças e que suas aproximações beiram uma espécie de amor platônico. Para eles, esse amor se caracteriza numa espécie de devoção à criança. Nesse sentido, amar a criança aqui não significaria programar o intercurso sexual, mas sim um “bem querer”.

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Noth American Man/Boy Love Association

76 Danish Pedophile Association

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Vereninging Martijn

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Para esse grupo, os boylovers ou os “amantes de meninos”, em suma, são aqueles que não buscam o intercurso sexual nem sentem atração sexual por eles, mas que gostam de estar perto deles,protegê-los e criar laços afetivos com eles. Nessas condições, acreditam que o termo boylover ao circular na internet consiste na cunhagem de uma nova leitura; uma leitura mais próxima de sua condição, daquilo que sentem, como podemos ver nestes trechos:

é exatamente isso q o anjo protetor disse... somos todos boylover pq nao sentimos atração sexual por meninos apenas amor, mais a sociedade nunca vai aceitar isso... Luke

bom...eu ando circulando pelos fóruns que há na internet, e a opinião generalizada sobre o fenômeno Boylover é de que os Bls não sentem atração sexual, apenas afeto. Interpretações minhas:

-num sentido mais amplo, todos os pais, pediatras, professores e demais pessoas que trabalham com crianças são Bls.

-se os Bls não querem sexo, e sim afeto, e se esse sentimento for verdadeiro, será de grande ajuda para: filhos únicos, órfãos, crianças em depressão, etc.

resta-nos crer que eles sejam sinceros e ajam de acordo com os preceitos desse movimento crescente. Anjo

Estou tentando conviver com meu amor da forma + pura possível. Estou bem. Não sou nenhum bandido nem nunca fui como muita gente pensa. Não sou abusador. Sou um boylover que está carente e não tem como demonstrar o meu amor por enquanto. Amo muito, mas não tenho como viver meus sentimentos. Não estou fazendo comentário maldoso. Eu quero amar da forma que uma criança merece, pois eu amo e só desejo o bem para quem eu amo Anônimo

Diante dessa explicação, um outro sentido aparece. Alguns participantes evocam o sentido etimológico do termo pedofilia para dizer que boylover e pedofilia são sinônimos. Nesse sentido, pedofilia diz respeito a um amor (platônico) pelo menino e é originário do grego; boylover, por sua vez, é compreendido como um termo contemporâneo, emprestado do inglês para dizer a mesma coisa. Devido a tudo isso, professores, pediatras e cuidadores de crianças de forma geral são classificados como boylovers (e suas variações: childlover, girllover, teenlover, babylover).

Há, portanto, por parte de alguns participantes da comunidade, uma interpretação de que o termo boylover possa ser utilizado para significar algo que os diferenciam dos movimentos ativistas (pró-pedofilia) e que, ao mesmo tempo, se distingue do comportamento

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pedófilo, no sentido patológico. Para eles, boylover é uma renomeação do termo pedofilia que recupera o sentido grego original: paidos (criança) filos (amizade): pedofilia = amor às crianças.

Contudo, há o grupo que acredita que os boylovers sentem atração por crianças. Passam, assim, a defender mais acirradamente que esse termo foi cunhado com a intenção de ludibriar a sociedade. Tratar-se-ia de uma forma de pedófilos sem escrúpulos (abusadores) propagarem uma confusão e tentarem atingir seus objetivos sórdidos de atacar uma criança, como podemos ver em postagens como esta:

O movimento boylover é bastante contraditório e não é preciso muito esforço para ver que muitos de seus integrantes não tem o mínimo senso de ética e respeito ao próximo. (...) é comum nestes fóruns (sites de boylovers) tópicos e imagens que mais contribuem a ver o corpo de um menino como mero objeto de desejo, do que como um ser humano pleno, complexo e em formação. Para manterem-se numa possível "legalidade" evitam imagens pornográficas ou com nudez, mas é comum encontrarmos fotos que destaquem a anatomia infantil, ainda que com a criança vestida.

(...) O que muitos pretendem passar como amor trata-se na verdade de uma dificuldade muito grande em controlar os seus desejos mais sórdidos. Desculpem a expressão, mas os motivos que me levaram a abandonar tais fóruns foram justamente algumas declarações que me deixaram chocados. Obviamente tais declarações não são postadas nos fóruns públicos. Elas são realizadas em conversas privadas à medida que tomam confiança em você. Não pretendo julgar ninguém. Como diz o velho ditado: "cada cabeça uma sentença". Entretanto, não me sentia mais a vontade em fazer parte de um grupo onde alguns membros defendiam abertamente a livre relação sexual adulto-criança.

Sei que minhas palavras possam soar agressivas para muitos que estão lendo, especialmente àqueles que se consideram boylovers. A estes, tenho a dizer que não precisamos nos agregar em movimento que no fundo não passam de uma camuflagem de uma variação afetivo-sexual que existe desde que o ser humano ocupa nosso planeta. Refiro-me à pedofilia (...) Anônimo

Como podemos ver aqui, existe uma recusa do sujeito a se identificar com os movimentos pro-pedofilia. Mas existem participantes que resistem em serem identificados como doentes. Para isso, também usam do termo boylover cunhado pelos ativistas para negar a doença. Vejamos: “patologia é a puta q te pariu Sou um Boylover e a única questão envolvida aqui é AMOR! ENTENDEU SEU LIXO!!” Anônimo.

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Mais do que uma tentativa de diferenciação entre os que sentem atração sexual por crianças daqueles que não a sentem, há aqui uma tentativa de deslocamento do sentido de doença. Há pedófilos que se declaram boylovers para se afastar do discurso dos ativistas pedófilos, os boylovers,e paraseparar a ideia de amor à criança da ideia de patologia. Esses sujeitos consideram que a noção de pedofilia não contempla sua condição, manifestando uma insatisfação ou uma falta de correspondência entre aquilo que sentem e o que supõem ser a forma dada pelo conhecimento médico. Assim, o termo boylover passa a ser acionado como algo mais próximo de uma necessidade de estar por perto, de cuidar das crianças sem expectativa sexual,tal como os pais, pediatras, professores, dentre muitos outros.

A maioria dos pedófilos da comunidade distorce a definição médica de pedofilia. No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, a pedofilia é apresentada como uma atração sexual por crianças com ou sem contato sexual. Sem levar em conta a possibilidade de ler a pedofilia como algo sem contato sexual, esses pedófilos acreditam que os médicos consideram o abuso sexual (ou contato sexual) como algo integrante da patologia da pedofilia. Nesse aspecto, buscam se diferenciar da suposta definição médica. Sua doença consiste em amar incondicionalmente.

Note-se que no bojo das discussões estabelecidas no universo da comunidade existe um sentido que “escapa”. Há um descontentamento que aflora aqui e ali e que tende a desestabilizar o que os participantes acreditam ser aquilo que aflora do saber médico. Portanto, se para um grupo de pedófilos (que compõe movimentos organizados) ser boylover é, dentre outras coisas, militar a favor de uma orientação sexual, para outros, como alguns pedófilos dessa comunidade, ser pedófilo (ou seja, ser doente) é, sobretudo, não ser boylover (militante), mas se atribuir uma patologia que corresponde a um “amor platônico”. Em alguns aspectos, ser doente/pedófilo é muito mais negar a militância pró-pedofilia e se sentir doente, em função de um encantamento para com a criança.

Como foi observado, na semântica dada pela dinâmica das narrativas da comunidade, o sentido de patológico não é usado para autodesignação ou assunção da doença, mas mais essencialmente para dar sentido a uma espécie de amor que julgam diferente daquele dado na categorização médica. É nessa perspectiva que alguns pedófilos não consideram que as premissas médicas como suficientes à descrição do que sentem. Buscam, antes de qualquer coisa, retirar o componente de atração puramente sexual, que supõem estar prescrita no saber médico. Leiamos:

132 Na verdade o que eu descobri foi q definição de que eu era/sentia desde em torno de 7

anos ... Eu sabia que não estava seguindo padrão, mas não considerava errado meu sentimento...então por volta dos 11 anos li sobre pedofilia e me encaixei em alguns aspectos, outros não... mas eu tava começando a aceitar a única opção que existia pra mim...apesar de eu achar que era diferente por não pensar só sexualmente nos meninos. Anônimo

Vemos aqui que o participante aponta para uma noção de pedofilia que não se encaixar totalmente naquilo que se lê sobre elas. Nesse sentido, ele se identifica com a condição de doente, mas não aceita plenamente a ‘definição’. Ele não aceita a noção de atração sexual por crianças como única possibilidade de descrever o que sente.

Essa declaração não se configura como uma voz isolada na comunidade. A postagem de outro pedófilo segue o mesmo percurso. Ei-la:

Quando foi q vc percebeu sua patologia? Como encarou tal fato?

Percebi que tinha algo errado bem cedo, acho que com uns 9 anos. Via as crianças menores e não sabia o que sentia. Atribuía várias causas a isso, tentei me enganar até não ter para onde correr. Então veio a puberdade e não teve mais como. Com 13 anos acabaram-se as dúvidas. Procurei saber sobre o assunto, fikei até meio obcecado. Via as descrições de pedófilos, num tinha nada a ver comigo e ficava até aliviado, doce ilusão. Comecei a encarar naturalmente ‘me adaptei a adaptar’. Deixei de me importar. Anônimo.

Nessa postagem, o pedófilo afirma que não se identifica com a definição. Existe, então, uma pequena ‘recusa’ à noção médica de patologia, mas se reconhece que há um esforço para se adaptar a ela. Na postagem, o participante não permite saber o que o incomoda, mas revela uma insatisfação, uma não conformidade com a ‘definição’. Os participantes que se apresentam como pedófilos, Kidinho e Luke, também expressam algo semelhante. Vejamos:

me satisfaço sem tirar nenhuma "casquinha" maliciosa, a não ser estar perto, ouvir a voz e perceber coisas que só nós percebemos, enfim meu amor é eterno por ele se nunca vou me arrepender disso! Kidinho

133 agora naum é pq eu to apaixonado por eles q ia atraz pra fazer sexo naum é isso ia atraz

pra ficar perto deles ... Luke

Amar criança aqui não significa propagar o intercurso sexual, mas sim, mediante a utilização da linguagem do amor, aludir a uma espécie de “bem querer”. Contudo, após de ter uma pouco mais de clareza do significado dos movimentos pro-pedofilia, eles passam a dar ao termo boylover aquele sentido da militância e passam gradativamente a abandonar seu uso.

Vemos, portanto, que o termo boylover incorpora novos sentidos nos significados dado à pedofilia. Ainda que todo esforço empreendido para significar essa atração sexual resulte num retorno do sentido de patologia, as discussões em torno do termo boylover me permitiram ver com mais clareza o significado dessa doença para os pedófilos da comunidade. Assim, com ou sem atração sexual, a associação a um estado de cuidador, a um ‘querer bem’ bem exagerado, uma espécie de amor platônico, um estado de amar demais aflora; e, no dizer de muitos pedófilos, são essas as características que deveriam reger a sua condição de doente.

Contudo, a atração sexual por crianças não fica somente no campo das reflexões e das fantasias. Muitas postagens também indicam que suas atitudes ultrapassam o campo da pura atração e se concretizam em contatos sexuais efetivos. É sobre essa condição que passo agora a tratar.