2 ESTUDOS ORGANIZACIONAIS, RECURSOS NATURAIS E O MEIO
2.4 SOCIEDADE E O MEIO AMBIENTE
2.4.1 Ambientalismo complexo multisetorial
Viola e Boeira (1990)abrem caminho para pesquisas empíricas com a abordagem do ambientalismo multissetorial. Conforme Viola e Leis (1991) os primeiros antecedentes do ambientalismo no Brasil são de caráter preservacionista e remontam a década de 1950 mas é com o aprofundamento das mudanças modernizadoras dos anos 70 que amplificam-se os espaços às questões ambientais. Neste período formativo do ambientalismo no Brasil dois atores se destacam: como dominantes as agências estatais de meio ambiente e como emergentes as associações ambientalistas.
Trata-se de um movimento bissetorial de relações complementares e contradições em que a problemática ambiental era recortada pelo controle da poluição urbano-industrial e agrária e pela preservação dos ecossistemas naturais. A progressiva disseminação da preocupação pública, interna e externa ao Brasil, com a deterioração ambiental transforma o ambientalismo num movimento multissetorial e complexo, na segunda metade da década de oitenta (Viola e Leis, 1995).
O que se viu na última década do século XX foi o acirramento da competitividade das empresas e, por consequência, dos países em nível global e a busca desenfreada por novos mercados consumidores, num grande movimento de concentração e centralização do capital e de uma nova divisão internacional do trabalho. A necessidade de competir tornou-se orgânica e transferiu-se das empresas para os Estados tornando-se também uma regra de convivência
entre as pessoas. Uma nova ética e novos valores operacionais tornam-se imperativos em face aos mecanismos de globalização (LEIS, 1999).
Tal movimento dificultou a articulação intersetorial harmônica do ambientalismo uma vez que desenvolveu-se de forma anômala no setor empresarial, mais como elemento da competitividade do que de uma mudança de consciência. Algumas frações do setor empresarial tendem a apoiar financeiramente organizações ambientalistas profissionais para assessorá-los, uma vez que, sendo exportadores para países avançados, têm de lidar com normas rigorosas de qualidade de produtos e processos, exigências quanto a reciclagem de materiais industriais e resíduos sólidos, etc.
Pode-se esperar que a partir da dinâmica internacional o ambientalismo multissetorial brasileiro poderá aumentar a responsabilidade do setor empresarial, orientando através do mercado, que em conjunto com os setores associacionistas e socioambientalistas, de orientação estatista e comunitária, poderão condicionar um modelo de desenvolvimento sustentável brasileiro. A hipótese que daí decorre é que as diversas vertentes do ambientalismo, a despeito da entrada do setor empresarial e político e da ainda não consumação do religioso, poderão constituir um movimento de grandes transformações civilizatórias (BOEIRA,2016; VIOLA,1990; LEIS, 1995).
O que prevalece hoje é mesmo a visão empresarial que prioriza a eficiência alocativa e defende o pressuposto que uma vez demandado pelos consumidores “verdes” o produtor protegerá o meio ambiente. Os defensores desse enfoque rejeitam o sistema de regulação estatal e as manifestações populares, fora do âmbito do mercado. Para poder legitimar esse ponto de vista, despolitizou o conceito de desenvolvimento sustentável e tem “colonizado” o tema do ambientalismo subvertendo-o a sua lógica (racionalidade instrumental), uma vez que é incapaz de atingir todas as dimensões da sustentabilidade: social, econômica, ecológica, espacial e cultural.
O ambientalismo teria completado seu ciclo ao passar por todos os setores, multiplicando e combinando “visões e atores em seu interior, ressignificando cada um deles dentro do conjunto, ao ponto de ser impossível explicar o resultado final como simples jogo de interesses” (Leis, 1999, p. 229).
Boeira (2016) resgata as interpretações do conceito de ambientalismo complexo- multissetorial ao longo da década de 1990, por diversos autores, a fim de reconhecer a complexidade inerente ao fenômeno ao qual o conceito se refere. O autor defende que a epistemologia da complexidade esteve desde o início na base do conceito de ambientalismo complexo-multissetorial. Um conceito que surgiu como proposta original no Brasil no início da década de 1990 e permitiu a compreensão da complexidade do fenômeno ambientalista, que envolve muitos setores e classes sociais. Por sua vez, o fenômeno ambientalista implica o surgimento de uma nova cultura, uma nova visão de mundo, uma nova forma de pensar a ciência.
Temas como espécies em extinção, resíduos domésticos e industriais, poluição do ar, educação sanitária e ambiental, entre outros, ampliam o leque de desafios às defesas ambientais. Não há uma linearidade de temas e estes tornam-se mais complexos, híbridos, acumulando-se, de tal forma que todos se encontram relacionados no final da década de 1980 e início da década de 1990. Esse processo acaba sobrecarregando principalmente setores das agências estatais, as ONGs ambientalistas e os pesquisadores dessas temáticas (BOEIRA, 2016).
Boeira (2016) analisa que o enfoque comunitário enfatiza a importância das chamadas organizações de base (grupos comunitários e ONGs) na transição para uma sociedade sustentável. Desconfia do Estado e do mercado como alocadores de recursos. Estes deveriam ser subordinados à sociedade civil. Este enfoque valoriza as iniciativas locais e regionais, além do princípio da equidade social sobre o princípio da eficiência alocativa, o que “lhe dá um componente utopista, aproximando-se em algumas dimensões da minoria revolucionária. Este enfoque está presente com muita força nas ONGs do terceiro mundo e em escala mais reduzida nas do primeiro mundo” (VIOLA; LEIS, 1992, p. 80).
A concepção de ambientalismo complexo-multissetorial de 1990 ganhou passado e um presente que se influenciaram mutuamente: à medida que se compreendia a história das ideias dos atores ambientalistas, novas percepções sobre a dinâmica contemporânea emergiam ao longo dos anos. A realização da Rio-92 despertou um ânimo extraordinário – tanto para pesquisas quanto para as ações políticas articuladas nos-e-entre os setores. O ambientalismo não só avançou multissetorialmente, mas também transetorialmente, constituindo-se como um fenômeno cada vez mais complexo e desafiador para todos os que buscavam compreendê-lo. (BOEIRA,2016, p. 17)
Logo, a visão do ambientalismo complexo multissetorial alerta para estudos e pesquisas ambientais realizadas de forma monodisciplinar e unilateral, e por muitas vezes incentivam a tomada de decisão governamental. Por outro lado, o ambientalismo entre empresários ganhou impulso com o avanço da ideologia neoliberal e globalização dos mercados, gerando cooptações de lideranças dos movimentos sociais e de ONGs ambientalistas. Estes movimentos opostos podem estimular percepções polarizadoras (BOEIRA, 2016).