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3 FUNDAMENTOS DA TEORIA DA RELEVÂNCIA

3.4 A TEORIA DA RELEVÂNCIA DE SPERBER & WILSON

3.4.2 Ambiente cognitivo mútuo e a formação do contexto

Há algum tempo, acreditava-se na existência do conhecimento mútuo, no qual o contexto era visto como informação conhecida tanto por locutor quanto por interlocutor. Contudo, Sperber & Wilson (1986; 1995) vão além dessa noção ao demonstrarem que o conceito de “conhecimento mútuo” é inadequado e que a noção de informação compartilhada é vaga. Essa hipótese impõe certeza quanto à reciprocidade de conhecimentos, a qual não pode ser garantida. É no curso da comunicação que uma suposição21 se torna manifesta, ou seja, aceita e inserida num contexto de suposições compartilhadas. Durante o ato comunicativo, algumas suposições se tornam mais ou menos manifestas para falante e para ouvinte. De acordo com Silveira & Feltes (2002), esse conjunto de suposições manifestas em diferentes graus constituem o ambiente cognitivo do indivíduo. Esse consiste em uma lista aberta de representações internas, como pensamentos, memória ou suposições, que podem ser estocadas na mente, usadas como premissas no processo inferencial e reutilizadas em cálculos mentais no processamento de diversos atos comunicativos. O ambiente cognitivo pode tornar- se mútuo caso as suposições se tornem manifestas para os interlocutores envolvidos. Portanto, a noção de conhecimento mútuo é substituída pela de ambiente cognitivo mútuo e manifestabilidade mútua, a qual pode ser compreendida também como manifestação potencial, perceptível ou inferível. Um ato de comunicação apenas torna manifestas as suposições que o falante pretendeu tornar manifestas e que estão evidentes suficientemente no ambiente; isso não faz a audiência, necessariamente, trazer à mente todas as suposições comunicadas.

Mesmo vivenciando as mesmas situações e construindo representações mentais do mundo em que convivem, duas pessoas não formulam as mesmas representações por causa da

maneira como percebem os ambientes físicos através de suas habilidades cognitivas. Ainda que compartilhem o mesmo ambiente físico, o ambiente cognitivo de cada indivíduo provavelmente será diferente. Nesse sentido, um fato é manifesto para um indivíduo num tempo dado se e somente se ele é capaz de representá-lo mentalmente e aceitar essa representação como verdadeira ou provavelmente verdadeira. Portanto, para ser manifesto, um fato deve ser percebido e inferido por um indivíduo (SPERBER & WILSON, 1995).

Não há como ter comprovação sobre o que é mutuamente manifesto para os interlocutores, mas o ambiente cognitivo dá as informações necessárias para a comunicação. Visto isso, ao lançar um estímulo ostensivo, o falante pretende modificar ou alterar o ambiente cognitivo do seu ouvinte, assumindo certo grau de mutualidade22. Aplicando-se esses aspectos à publicidade, pode-se mencionar que, ao arquitetar a criação de uma propaganda, o profissional dessa área deve ter o cuidado de lançar estímulos ostensivos para seu público-alvo de forma a provocar um processo inferencial que leve a uma interpretação similar à pretendida, tornando as suposições sobre o produto mutuamente manifestas tanto para anunciante como para público-alvo.

As noções de manifestabilidade mútua e de ambiente cognitivo mutuamente manifesto são fatores que servem para elucidar a construção de suposições que se tornam disponíveis durante o processo interpretativo. A partir dessa concepção, o contexto é definido como o conjunto de premissas utilizado para interpretar enunciados. É, por conseguinte, um construto psicológico, já que carrega informações mentalmente representadas, constituído de suposições do ouvinte sobre o mundo e que afeta a sua compreensão do enunciado. O contexto, então, não é fixado a priori e sua formação é aberta a escolhas, constituindo uma variável. Trata-se de uma tese contrária a de Grice (1975), para o qual o contexto é dado. Para Sperber & Wilson (1995), o contexto vai se formando enquanto novas informações se unem às velhas durante o ato comunicativo. Em outras palavras, uma informação nova é processada naquilo que já se conhece, construindo-se um novo contexto. Há um conjunto de crenças compartilhadas, mas não se pode explicar um ato comunicativo partindo-se do fato que há uma informação prévia, absoluta e certa a esse respeito para que esse ato seja entendido. Isso explica como se dá a formação e extensão do contexto de suposições nessa teoria.

Tomando como ponto de partida o esforço mental de atenção, memória e raciocínio para acessar o contexto, fatores determinantes para a relevância da informação a ser

22 Na subseção 3.4.3, tratar-se-á de descrever como o ambiente cognitivo de um indivíduo é alterado a partir da demonstração de como se constrói a interpretação de dada informação por meio do mecanismo dedutivo.

processada, Sperber & Wilson (1995) afirmam que, ao final de cada processo dedutivo o indivíduo tem disponível um conjunto particular de contextos acessíveis, parcialmente ordenados. Cada contexto (exceto o inicial) contém um ou mais contextos menores que estão contidos em um ou mais contextos maiores, e a ordem de inclusão corresponde à ordem de acessibilidade: à medida que as informações se tornam disponíveis elas se tornam acessíveis. Como o acesso se dá através das entradas lexicais ligadas a conceitos, um conceito presente na memória do indivíduo pode dar acesso a outra informação que, por sua vez, seria formada de outros conceitos que dão acesso a informações adicionais. O contexto acaba contribuindo diretamente para a relevância das informações, pois restringe a informação adequada. Se um conjunto de suposições pode incluir outras suposições inferíveis daquelas que o indivíduo já possui, é possível que as conclusões derivadas sirvam de premissas para as novas conclusões. Trata-se de um processo recursivo, em que se podem utilizar premissas iniciais na construção de diversas outras premissas em diferentes contextos. Essa intrincada rede informações estenderia as implicaturas e, conseqüentemente, o processo inferencial. Ao acessar e estender o contexto, o ouvinte é guiado pela busca da relevância, um processo natural, inato e não- observável.

A seguir, será exposto como se dá a formação de premissas no processo inferencial para desencadear conclusões implicadas, compreendidas aqui como a seleção de uma hipótese interpretativa. Isso é definido pela Teoria da Relevância como parte do mecanismo dedutivo inerente aos seres humanos, o qual parte de um cálculo não-demonstrativo e não-trivial para chegar à melhor interpretação possível.