• Nenhum resultado encontrado

O ambiente do Ensino Religioso na proposta de Carlos Roberto Jamil Cury

CAPÍTULO I: O ENSINO RELIGIOSO E SUAS AMBIVALÊNCIAS NA TESSITURA BRASILEIRA

4. AS CONTROVÉRSIAS ACERCA DO CONTEÚDO DO ENSINO RELIGIOSO

4.1. O ambiente do Ensino Religioso na proposta de Carlos Roberto Jamil Cury

A partir da modernidade, segundo alguns estudiosos, a religião adquire um novo status, ela deixa a esfera pública e se torna uma realidade de foro privado56, de modo que o poder temporal se desvincula da religião e o Estado adquire sua autonomia denominando-se laico, ou seja, não assume nenhuma religião como estatal. Entretanto, a laicidade não se contrapõe à religião, pois o fato de não haver uma religião oficial não implica que o Es- tado seja a-religioso57, isto é, que negue o direito aos seus cidadãos de professarem publicamente uma fé em particular.

O Brasil é um país laico, e a Carta Magna assegura a liberdade religiosa e considera crime a violação de qualquer espaço religioso, como afirmam os incisos VI, VII e VIII do artigo 5º, da Constituição de 1988:

VI - É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;

VII - É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assis- tência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

VIII – Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei58; Conforme a lei, tornam-se legítimos a qualquer movimento, seja ele de cunho religioso ou filosófico, o recrutamento de fiéis, a manifestação pública de suas convicções e o ensinamento de seus princípios religiosos e/ou filosóficos em seus próprios locais. Para Carlos Roberto Jamil Cury, tais disposições legais já seriam suficientes para que as religiões se manifestassem publicamente, de modo que não haveria necessidade de

56 MONTES, M. L., As figuras do sagrado entre o público e o privado. In: NOVAIS, F;

SCHWARCZ, L., História da vida privada no Brasil, 1998.

57

CURY, C. R. J., Ensino Religioso na escola pública: O retorno de uma polêmica recorrente. Revista brasileira de educação, n. 27, set/out/nov/dez 2004, p. 183.

58

inserir no âmbito escolar o Ensino Religioso. Entretanto, vale lembrar que quando se trata de Ensino Religioso escolar não se pode limitá-lo ao ensinamento de doutrinas59 ou a um meio de recrutamento de fiéis. Pois,

como já mencionamos anteriormente neste trabalho, a ambivalência do Ensino Religioso se encontra especificamente no fato de poder ser

compreendido como uma área de conhecimento ou como doutrinação60.

Cury não está equivocado ao afirmar que o Ensino Religioso en- trou na Constituição de 1934 por interesse do Estado em obter o apoio da Igreja, bem como esta também nutria o seu desejo de voltar a ter em mãos certo “domínio” sobre a sociedade. Entretanto, interesses políticos sempre estão por detrás de muitas iniciativas políticas, quer envolvam as Igrejas ou não. Contudo, reduzir o Ensino Religioso a um mero jogo de interesses polí- ticos entre Igrejas e Estado é privá-lo de sua condição de um conhecimento

humano produzido61. Vale lembrar que o mesmo interesse político também

se faz presente em outras instâncias da sociedade.

Numa tentativa de solucionar a contradição que surge entre a laicidade do Estado e a obrigatoriedade facultativa do Ensino Religioso es- colar, Cury propõe que este se mantenha no âmbito das Igrejas, ou seja, dentro de seus espaços particulares. Desse modo, não haveria inconstitu- cionalidade, uma vez que é vedado ao Estado, em qualquer uma de suas instâncias, “estabelecer cultos religiosos ou Igrejas, subvencioná-los, emba- raçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes re- lações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colabora- ção de interesse público”62.

59 A própria LDB 9.475/97 considera esse ensinamento no âmbito escolar como proselitismo

e o proíbe veementemente. Em seu passado não muito distante, o Ensino Religioso apresentava essa característica, contudo, hoje temos em vigor uma proposta bem diferente e contrária ao proselitismo de qualquer tradição religiosa ou sistema filosófico de vida.

60 Aplicado às escolas dos sistemas públicos, podemos falar de um Ensino Religioso com

base no estudo fenomenológico. Enquanto às escolas particulares, estas muitas vezes se orientam pelo ensino confessional. Embora não exista nenhuma obrigação, no que diz respeito ao cumprimento da legislação, por parte das escolas particulares, cabe a estas o critério de optar pelo modelo de Ensino Religioso que mais lhe aprouver.

61

FONAPER, Parâmetros Curriculares Nacionais, p. 35.

62

Segundo Cury, a afirmação de que o Ensino Religioso é parte in- tegrante da formação supõe que todos devam receber esta formação, que- rendo ou não, seja o cidadão religioso ou ateu, agnóstico ou indiferente. Para ele, tal afirmação fere o direito à diferença e à liberdade religiosa. En- tretanto, a mesma afirmação pode ser aplicada ao ensino de ciências, onde não se pressupõe a crença dos educandos e tampouco se pergunta se estes querem ou não aprender uma ou outra teoria. E, no entanto, não se vê em tal fato uma violação do direito à diferença e à liberdade religiosa do aluno, pois o que está em questão é o seu aprendizado e não questões de fé.

Outro elemento relevante que Cury aponta é o fato de o Ensino Religioso ser facultativo.

O caráter facultativo de qualquer coisa implica o livre-arbítrio da pessoa responsável por realizar ou deixar de realizar algo que lhe é proposto. Faculdade implica, pois, a possi- bilidade de poder fazer ou não, de agir ou não como algo inerente ao direito subjetivo da pessoa. Para que o caráter facultativo seja efetivo e a possibilidade de escolha se exerça como tal, é necessário que, dentro de um espaço re- grado como o é o das instituições escolares, haja a oportu- nidade de opção entre o Ensino Religioso e outra atividade pedagógica igualmente significativa para tantos quantos que não fizerem a escolha pelo primeiro. Não se configura como opção a inatividade, a dispensa ou as situações de aparta- mento em locais que gerem constrangimento63.

Para Cury, o caráter facultativo se configura como estratagema para salvaguardar o princípio da laicidade do Estado64, de modo a não cau-

sar uma incompatibilidade do Ensino Religioso. Nesse caso, segundo Cury, resolve-se o problema restringindo a educação religiosa aos espaços pró- prios das igrejas. Pois um Ensino Religioso dado nas Igrejas não impediria a existência de um ensino extraescolar mais pleno de sentido, pois:

A ausência de Ensino Religioso nas escolas não impede que a cultura religiosa (caridade), ministrada nos seus espaços próprios, se expanda para “um serviço desinteressado, humanamente desinteressado, ainda que inspirado na ideia de que o serviço é uma boa obra, que merecerá a glória do Senhor” e, nesse sentido, se aproxime

63

CURY, C. R. J., Ensino Religioso na escola pública: O retorno de uma polêmica recorrente. Revista brasileira de educação, n. 27, set/out/nov/dez, 2004, p. 189.

do senso de justiça da caridade laica que não pode “prometer nada, senão a satisfação da consciência”65

.

Uma vez que, segundo Cury, a liberdade religiosa é assegurada pela legislação e as próprias Igrejas dispõem de recursos próprios para exercerem a sua prática de culto e de doutrinação, não se faz necessário o ensino da cultura religiosa na escola. No entanto, podemos pontuar que a cultura religiosa não se reduz à prática da caridade, que é um elemento reli- gioso, mas não o único. E mesmo que se queira estabelecer uma diferencia- ção entre caridade cristã e leiga, para esta seria mais conveniente falar de valores humanos universais e não de caridade, pois ao contrário desta, os valores universais independem de religião, e podem ser praticados indepen- dentemente de qualquer esfera religiosa.

4.2. O Ensino Religioso e a formação moral das gerações segundo José