3 O AUTISTA E O AMBIENTE CONSTRUÍDO
3.2 AMBIENTE ESCOLAR
Está previsto na Constituição Federal de 1988 que a educação é um direito de todos os cidadãos e tem como intuito o “[...] pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988, p.123).
Ainda, é tratado como dever do Estado, no artigo 208, o oferecimento de um “[...]
atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988, p.124). Mesmo que essa não seja uma realidade, a educação deve ser disponibilizada de maneira igualitária a todas as pessoas.
Para a inclusão de crianças com necessidades específicas no ambiente escolar é fundamental a eliminação de barreiras arquitetônicas. É importante que os projetos não obedeçam apenas às normativas, como a NBR 9050, que menciona sobre a acessibilidade, mas que também levem em consideração as necessidades de cada indivíduo, no âmbito físico e psicológico (ALBUQUERQUE et al., 2019).
O ambiente tende a ser mais confortável quando pensado e ajustado de acordo com as necessidades dos usuários. Se este ambiente é utilizado por diversas pessoas, como no caso das escolas, e for projetado levando em consideração um "homem ideal", certamente não atenderá a todos os alunos e servidores, sendo assim, é necessário que na concepção do projeto leve-se em conta a diversidade dos que usufruirão do local (CAMBIAGHI, 2019).
Documentos como a Declaração Mundial de Educação para Todos e a Declaração de Salamanca, serviram de influência na criação de novas políticas públicas visando a educação inclusiva (BRASIL, 2008). De acordo com a Declaração de Salamanca, em 1994, um dos princípios da Educação Especial é que:
[...] escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras.[...] Muitas crianças experimentam dificuldades de aprendizagem e portanto possuem necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua escolarização. Escolas devem buscar formas de educar tais crianças bem-sucedidamente, incluindo aquelas que possuam desvantagens severas. (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, p.3).
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) defende a inclusão de alunos no ensino regular com algum tipo de deficiência, transtorno global do desenvolvimento (transtorno do espectro do autismo), altas habilidades ou superdotação. Além disso, tal política assegura diversos direitos aos alunos no que tange sua inclusão na escola. No âmbito arquitetônico, garante que o ambiente seja acessível a eles, considerando desde os meios de transporte até os mobiliários (BRASIL, 2008).
Serra (2004) discorre sobre a diferença entre inclusão e integração, visto que um aluno integrado na escola precisa se adaptar ao ambiente que já está estruturado, enquanto a inclusão assegura aos alunos que o espaço físico estará redimensionado e preparado para eles, entretanto, o que mais se encontra são adaptações.
Visando a inclusão de todos, é de extrema importância a aplicação de conceitos de Desenho Universal nos ambientes construídos. Ele propõe que o espaço seja utilizado de maneira democrática pelos diferentes tipos de usuários e que todos, sejam eles crianças, adultos e pessoas com algum tipo de limitação, tenham possibilidades igualitárias no uso do local (BERNARDI, 2007).
Dentro da perspectiva da educação inclusiva, é proposto pela educação especial ao público-alvo um atendimento especializado de maneira concomitante ao ensino regular, cujo objetivo é complementar a formação desse aluno, tornando-o mais independente e autônomo, tanto no ambiente escolar quanto na sociedade, para tanto em muitos locais são utilizadas as Salas de Recursos Multifuncionais (BRASIL, 2008).
3.2.2 Atendimento Educacional Especializado (AEE) - Salas de Recursos Multifuncionais
O Atendimento Educacional Especializado (AEE) possui como objetivo tornar o ensino mais acessível, descartando as barreiras, através da elaboração dos recursos pedagógicos, levando em consideração a necessidade específica de cada aluno. Esse ensino feito no contraturno do ensino regular oferece “[...] programas de enriquecimento curricular, o ensino de linguagens e códigos específicos de comunicação e sinalização, ajudas técnicas e tecnologia assistiva, dentre outros.” (BRASIL, 2008, p.16).
O atendimento especializado é feito de maneira individual, podendo no máximo atender dois alunos de vez em um ambiente da escola organizado com materiais pedagógicos, mobiliários adequados, recursos de acessibilidade e instrumentos específicos para o público alvo (DUTRA; SANTOS; GUEDES, 2010). Tais ambientes recebem o nome de Salas de Recursos Multifuncionais (Figura 4).
Figura 4 - Sala de Recurso Multifuncional
Fonte: Primeira Hora (2018)
Geralmente esses atendimentos especiais são realizados em ambientes adaptados, moldados de acordo com as necessidades dos alunos que a escola atende. Cada estudante possui suas próprias dificuldades e potencialidades no processo de aprendizado, sendo assim, junto com o auxílio do profissional, é importante que o espaço físico se comporte como um facilitador no desenvolvimento sócio-cognitivo
dessas crianças. Entretanto, nem todas as escolas dispõem de salas de recursos amplas que comportam diversas atividades.
A implantação dessas salas nas escolas é realizada através de manuais desenvolvidos pelo MEC. No entanto, nesses documentos não são especificadas referências quanto a dimensão do espaço físico ideal para o atendimento dos alunos. No conteúdo dos manuais é abordada apenas a acessibilidade na entrada, a presença de banheiros acessíveis na escola e a existência de mobiliários adequados.
Nas instruções disponibilizadas nos manuais para a elaboração do espaço das salas de recursos multifuncionais não são considerados aspectos do conforto ambiental, como iluminação, ruídos e ergonomia, os quais interferem no aprendizado e concentração dos alunos. Além disso, também não são abordadas as características físicas destes espaços, como a presença de cores e texturas. A análise e abordagem qualitativa dessas salas são muito importantes, uma vez que influenciam diretamente na relação usuário-ambiente, e podem auxiliar ou prejudicar o desenvolvimento de um indivíduo com TEA.