2.4 INTIMIDADE
2.4.2 Ambiente para compartilhamento do conhecimento
A importância da criação de um ambiente onde o conhecimento possa ser compartilhado, aprendido e construído é reforçado por Choo (2006) em sua segunda arena do uso estratégico da informação, a da Construção de Conhecimento. Esta arena é representada, segundo o autor, pela capacidade de criar, organizar e processar a informação, criando um ambiente propício ao aprendizado e a consequente geração do conhecimento. O desafio para as organizações é, além de construir o
conhecimento, saber utilizá-lo e, por meio dele, desenvolver novos processos, produtos, serviços e capacidades.
Segundo Wasko e Faraj (2000), com frequência, os membros de uma organização são relutantes em trocar conhecimento, pois o consideram um bem particular de sua propriedade ou da organização que trabalham, impedindo o compartilhamento com outros membros ou outras organizações. Entretanto, um grupo que trabalha sem a troca sistemática de conhecimento de seus integrantes perde a capacidade de complementação inerente ao grupo pela sua diversidade de formação e percepção, o que afeta o resultado a que se propõe. Para Basaglia et al. (2010), a integração de conhecimento no nível de análise do grupo é considerada uma capacidade central que permite aos grupos alcançarem seus objetivos.
Para Bogenrieder e Nooteboom (2004), o compartilhamento de conhecimento requer uma capacidade de absorção mútua entre os membros de um grupo e, quando não está presente, precisa ser construída com intensivo ‘trabalho conjunto’.
A expertise não deve ser guardada no nível individual, ao contrário, é necessário integrar o conhecimento individual ao conhecimento do grupo para que esse se beneficie com isso. A vantagem do conhecimento do grupo emerge do novo conhecimento que é resultado da interação entre os membros do grupo, e não simplesmente de ganhos individuais no conhecimento de membros do grupo isolados (TIWANA; MCLEAN, 2005).
Para Basaglia et al. (2010), esse movimento da expertise do nível individual para o grupal é reforçado quando há a percepção compartilhada de valores e normas pelos membros de um grupo de trabalho, o que favorece a circulação de informações entre esses indivíduos, aumenta a habilidade de integração do conhecimento e influencia o desempenho do grupo de trabalho.
No estudo da estrutura de um grupo, Bogenrieder e Nooteboom (2004) estabelecem quatro aspectos para fortalecer os vínculos entre seus membros: intensidade, frequência de interação, abertura de comunicação e duração dos vínculos. Fortes vínculos permitem o compartilhamento de experiências, o que reduz a distância cognitiva. Vínculos densos, fortes e duráveis, com dependência mútua, permitem o monitoramento próximo de conduta, o desenvolvimento de empatia e de identificação como base para a construção da confiança em um mútuo dar e receber (reciprocidade).
Reforça assim a necessidade da criação de um ambiente que permita a interação entre os indivíduos, sua integração e comunicação
capazes de gerar fortes vínculos. Desenvolver esse ambiente requer uma visão de futuro compartilhada com toda organização (MOGGI; BURKHARD, 2005), onde esteja clara a importância do capital intelectual (RODRIGUES et al., 2009 e NORTH; PRESSER, 2011) e o valor (PINTO, 2009) do compartilhamento de conhecimento como processo da aprendizagem de grupo (WILSON et al., 2007) e da GC. Dessa forma é incentivado o olhar objetivo de todos os empecilhos da troca do conhecimento (TIWANA, 2002), superando-os de forma estruturada com metodologia que valorize o aperfeiçoamento e o
amadurecimento das relações interpessoais por meio do
desenvolvimento de interações mais íntimas, do orgulho de grupo, da atração interpessoal, do comprometimento com o relacionamento e da afeição interpessoal que, conforme Rosh et al. (2012), caracterizam a intimidade de grupo.
É importante conscientizar-se que a GC está muito mais relacionada à cultura da organização do que ao uso de tecnologia. Podem-se nutrir os hábitos, os valores, as atividades que representem o bom uso do conhecimento, incluindo seu compartilhamento, criação e disseminação. A partir desse ponto é que a tecnologia pode alavancar o conhecimento. Uma cultura de compartilhamento que aceite, para a resolução de problemas, o debate e o conflito. Onde é possível que erros e sucessos, problemas, omissões e desastres sejam compartilhados e não penalizados ou escondidos (TIWANA, 2002).
A tecnologia possivelmente não trará todas as soluções às questões em GC. Esta dissertação apresenta, como complemento à tecnologia, a importância do aperfeiçoamento das relações interpessoais por meio do desenvolvimento da intimidade para o compartilhamento de conhecimento e para a criação de um ambiente mais aberto à troca transparente de conhecimento.
Com uma cultura mais amadurecida, a TIC é ferramenta eficiente para o uso, difusão, armazenagem e recuperação do conhecimento. Wasko e Faraj (2000) afirmam que a TIC, na forma de sistemas de GC, tem sido proposta como uma ferramenta eficaz para apoiar o compartilhamento de conhecimento. Estes sistemas são usados como dispositivos de comunicação para conectar indivíduos, promover a integração e unir especialistas aos que investigam e necessitam do conhecimento.
Na criação desse ambiente é preciso destacar que o processo de
compartilhamento de conhecimento é potencializado pelo
desenvolvimento da intimidade entre os membros do grupo de trabalho, no qual, conforme Zayonc (2006), pode florescer a admiração e a
afeição, o que amplia o processo cognitivo de aprendizagem. Para que isso ocorra é preciso que haja proximidade entre as pessoas. É preciso que haja a relação humana próxima, onde sejam percebidos pelos sentidos de uma pessoa as nuances emocionais da outra ao compartilhar uma informação ou conhecimento. Por esta razão, o desenvolvimento de um ambiente mais afetivo para o compartilhamento e a aprendizagem deve ser construído de forma que promova a integração mais íntima, a discussão e a exposição verbal e presencial dos membros de um grupo, superando medos e crenças individuais. O que é reforçado por Nonaka et al. (2000) ao conceituarem o espaço ‘Ba’ como contexto compartilhado (tempo e espaço) no qual conhecimento é compartilhado, criado e utilizado por meio da interação.
A construção de um ambiente propício à aprendizagem e a geração de conhecimento, onde os membros de um grupo possam compartilhar de forma efetiva os conhecimentos, precisa respeitar e valorizar os aspectos emocionais do processo de compartilhamento e da subjetividade humana.
Para isso sugere-se compreender o desenvolvimento da intimidade no grupo, bem como seus elementos.