2. REVISÃO DE LITERATURA
2.2. AMBIENTE TERAPÊUTICO
Em relação ao ambiente terapêutico, Costenaro (2001, p. 92) o considera
como ambiente terapêutico de cuidado, aquele local que apresenta condições estruturais e funcionais que permitam a realização do trabalho profissional com segurança, responsabilidade, eficácia e resolutividade no atendimento das necessidades dos recém-nascidos e dos profissionais que ali trabalham (COSTENARO, 2001, p. 92).
Tendo como base a definição citada de Costenaro (2001), especificamente referindo-se a Unidades de Internação Pediátrica, estendemo-la a toda e qualquer unidade de atendimento à criança e/ou adolescente e ao adulto. Para que seja considerada um ambiente terapêutico, deve ter condições físicas, organizacionais e práticas que possibilitem a efetivação do trabalho profissional com segurança e competência, devendo flexibilizar/adaptar esse ambiente, de acordo com as necessidades da criança e dos profissionais que ali atuam.
Não podemos conceber ambiente terapêutico, se não envolvermos, também, o bem estar do profissional, SER que cuida de outro SER humano.
Portanto, segundo a hipótese que elaboramos como norteadora deste trabalho, as unidades hospitalares que atendem crianças e/ou adolescentes carecem da
necessidade de criação de uma equipe de atendimento à criança e/ou adolescente que englobe o pessoal de saúde e o pessoal da escola, bem como se acredite ser esta mesma equipe um grupo ampliado de atenção à saúde da criança e/ou adolescente, pois todos, pessoal “da saúde” e “da escola”, estão atendendo à saúde biopsicossocial da criança e/ou adolescente.
Consideramos que os caminhos que traçam a vida de uma criança nem sempre acontecem conforme o esperado. Algumas intercorrências mudam aspectos relevantes, prejudicando o seu desenvolvimento harmonioso, e a hospitalização está entre essas intercorrências (SEIBEL ; SANCHES, 1992).
Leifer ressalta que “[...] as respostas da criança são influenciadas pelas diferentes fases do seu crescimento e desenvolvimento, tornando a doença uma experiência traumática que, ocorrendo, pode afetar a personalidade em formação (LEIFER, 1995, p. 377)”.
A equipe que cuida da criança e/ou do adolescente no hospital tem um papel fundamental em relação ao seu bem-estar e recuperação, principalmente a equipe de enfermagem que permanece com eles 24 horas.
Para Lananda (1995, p. 29),
[...] a relação humana, o encontro do enfermeiro com o paciente em nível hospitalar ou em qualquer instituição de saúde, é desencadeada pela doença. Essas situações mais ou menos dolorosas, traumatizantes e limitadoras da existência podem ser superadas através da integração social e da adoção de um estilo de vida saudável e próprio. Nesse processo, pode estar inserida a enfermagem e a instituição hospitalar, sendo vistos, cada vez menos, como asilo e mais como uma resposta transitória na vida dos seres humanos.
Nesse sentido, a enfermeira e também Mestra em Educação, Costenaro (2001, p. 57), docente do Curso de Enfermagem e Nutrição da UNIFRA, em pesquisa para obtenção do título de doutora em Filosofia de Enfermagem , Tese esta defendida na Universidade Federal de Santa Catarina, demonstrou a possibilidade de transformação nas formas tradicionais de tratar, ao buscar a implementação de “ambiente terapêutico de cuidado ao recém-nascido internado em unidade de tratamento intensivo neonatal”. Essa autora afirma: “a filosofia da enfermagem deve primar pela pessoa na sua singularidade psicológica e espiritual e não apenas pelo corpo biológico” (ibid., p. 57).
Conforme Lananda (1998, p. 30)
[...] se os olhares dos integrantes se cruzam; se ouvidos do enfermeiro captarem um gemido; se as mãos procurarem sossegar a agitação do medo e se a boca questionar o doente”, o cuidado realizado pelo enfermeiro realmente existe e transcende o que os olhos estão vendo.
O ambiente, pois, contribui para a construção do sujeito, e isto supõe a existência de relações de troca, de mínimo compartilhamento, em que cada indivíduo presente possa expor suas necessidades, dúvidas, anseios e, juntos, todos possam refletir e buscar soluções para seus problemas.
De acordo com Wallon (1996), “a emoção é contagiante”. Se envolvermos uma criança numa atividade prazerosa, que a faça sorrir, outras crianças se influenciarão com esse estado de alegria e também passam a sorrir; do mesmo modo, o choro de um único bebê num berçário, por exemplo, pode fazer também outros chorarem e até estressar a equipe que cuida dos bebês, na ânsia de tentar acalentá-los.
Segundo o mesmo autor, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa, quanto do conhecimento. A sua teoria da emoção tem uma nítida inspiração darwinista, pois
ela é vista como o instrumento de sobrevivência típico da espécie humana. Se não fosse pela sua capacidade de mobilizar o ambiente, no sentido das suas necessidades, o bebê humano pereceria. O choro atua de forma intensa sobre a mãe: é esta a função biológica que dá origem a um dos traços característicos da expressão emocional, sua alta contagiosidade, seu poder epidêmico (WALLON, 1972, p. 56).
Wallon considera a sua teoria fundamentalmente social, porque “ela fornece o primeiro e mais forte vínculo entre os indivíduos”. Esse autor afirma que “os adultos, no convívio com as crianças, estão permanentemente expostos ao contágio emocional. A ansiedade infantil, por exemplo, pode produzir no adulto próximo também angústia, ou irritação” (WALLON, 1972, loc.cit.)
Mesmo que não fale, é importante saber escutar o pequeno paciente. Facilitar a verbalização dos que falam e valorizar suas queixas. Muitos problemas podem ser sanados e evitados a partir dessa inter-relação. Observa-se, entre os profissionais de saúde, em especial naqueles que lidam com a criança, que a falta de vínculo afetivo entre eles e o paciente provoca, na maioria das vezes, um “abandono” do
paciente como pessoa, restringindo-se as ações profissionais a procedimentos terapêuticos. É urgente reverter essa situação.
Damásio (2000, p. 55) afirma, sobre a emoção, que
sem exceção, homens e mulheres de todas as idades, culturas, níveis de instrução e econômicos têm emoção, atentam para as emoções dos outros, cultivam passatempos que manipulam suas emoções e em grande medida, governam suas vidas buscando uma emoção, a felicidade, e procurando evitar emoções desagradáveis. [...] existe algo acentuadamente característico no modo como as emoções vincularam-se às idéias, valores, princípios e juízos complexos que só os seres humanos podem ter, e é nessa vinculação que se baseia nossa sensata percepção de que a emoção humana é especial. A emoção humana não diz respeito apenas aos prazeres sexuais ou ao medo que podemos ter de cobras. Diz respeito, também, ao horror que sentimos ao testemunhar o sofrimento e satisfação de ver a justiça sendo feita [...].
As relações de troca, de parcerias compartilhadas permitirão a valorização da participação ativa da criança e/ou do adolescente no seu processo de recuperação da saúde. Dessa forma e de acordo com o que já foi exposto, estamos propondo que se possibilite atenção específica ao seu processo de construção cognitiva formal, também no período de hospitalização, como parte integrante do respeito ao sujeito, em processo de tratamento da saúde.
Segundo Haeussler (1998), professora titular da Universidade Católica do Chile, a concepção que se tem de si mesmo, vai-se formando gradualmente, através do tempo e das experiências vividas pelos sujeitos:
el concepto de si mismo se va formando gradualmente a través del tiempo y de las experiencias vividas por el sujeto. Hay algunas que por su intensidad o significación tienen más valor de programación que otras: son las experiencias positivas o negativas que los adultos recuerdan de su infancia; ellas explican en forma importante lo que las personas se dicen de si mismas (HAEUSSLER, 1998, p. 17 ).
Portanto, uma experiência enriquecedora contribui para uma percepção positiva que se vai formando de si próprio, enquanto que uma experiência negativa se constitui num obstáculo para esse processo, isto é, para a formação de uma percepção satisfatória que se tem do seu próprio valor.
Moysés, mestra em Psicopedagogia e doutora em psicologia educacional (Universidade Federal Fluminense), ressalta que
Circunstâncias externas desfavoráveis, como as existentes nos orfanatos, podem ajudar a consolidar autoconceitos negativos. Bastam alguns conteúdos concretos negativos para contagiar os demais. O contrário também poderá se dar quando as condições são favoráveis (MOYSÉS, 2001, p. 30).
Essa citação faz inferir que, assim como os orfanatos, o hospital ou a escola, podem se constituir num ambiente inóspito para a criança, se forem ambientes desfavoráveis que dificultem a sua auto-construção positiva.
Spitz (1986) assim descreveu o quadro de “depressão anaclítica” em crianças privadas do vínculo com sua mãe durante alguns meses:
[...] tornam-se inicialmente choronas, perdem peso, não têm apetite, seu desenvolvimento neuropsicomotor se retarda ou estaciona, e terminam por mostrar-se indiferentes ao meio ambiente. Este é o quadro que também se encontra no “hospitalismo” ou separação prolongada da criança da sua família, não só em hospitais, mas também em creches ou orfanatos (SPITZ , 1986).
Coopersmith (1967 apud HAEUSSLER, 1995), em estudo acerca da autoestima, trabalhando com uma amostra de 1947 crianças de dez anos de idade, determinou quatro fatores altamente significativos para a autoestima:
A aceitação, preocupação e respeito recebidos pelas pessoas.
A história de êxitos e a posição (status) que a pessoa tem na comunidade. A interpretação que as pessoas fazem de suas experiências; como essas
experiências são modificadas pelas aspirações e valores que elas têm. A maneira que têm as pessoas de responder à avaliação.
Moysés (2001, p.18) faz uma diferenciação entre autoconceito e autoestima, considerando que
[...] os estudos sobre autoconceito ganharam corpo nas décadas de 1970 e 1980. No âmbito conceitual, coube às pesquisas e aos escritos de W. Brookover, Stanley Coopersmith, William Purkey, entre outros, oferecer os subsídios que balizaram, por muito tempo, as investigações nessa área. Formou-se, assim, um certo consenso de que o autoconceito é a percepção que a pessoa tem de si mesma, ao passo que a auto-estima é a percepção que ela tem do seu próprio valor.
Portanto, o sentimento de valor que acompanha a percepção que temos de nós próprios se constitui na nossa auto-estima.
Coopersmith (1967, pp. 4-5) define autoestima como sendo
[...] a avaliação que o indivíduo faz, e que habitualmente mantém, em relação a si mesmo. Expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação e indica o grau em que o indivíduo se considera capaz, importante e valioso. Em suma, a auto-estima é um juízo de valor que se expressa mediante as atitudes que o indivíduo mantém em face de si mesmo. É uma experiência subjetiva que o indivíduo expõe aos outros por relatos verbais e expressões públicas de comportamentos.
O hospital, através de uma equipe formada por profissionais da escola e da área de saúde, poderá facilitar à criança e/ou adolescente o desenvolvimento de um auto-conceito positivo e, consequentemente autoestima positiva, apesar da desvantagem do seu problema de saúde, através da promoção de um ambiente de aprendizagens significativas que lhe permita avançar aprendendo. Segundo Alves (2000, p. 57),
a criança, embora longe do seu ambiente familiar, como no caso da hospitalização, não perde a sua identidade, porque a sua “memória cultural” estará presente, garantindo a sua necessidade de carinho e amor. Os sentidos se constroem a partir das vivências cotidianas, desde o nascimento, em permanente interação com o meio ambiente e a linguagem.
Portanto, atender a criança e/ou adolescente hospitalizado, exige o reconhecimento deste como ser único, individual, pertencente a uma família, ambiente domicilar e comunidade, com características próprias. Ressaltamos Ceccim (1999, p. 42), o qual afirma que,
se o relacionamento com a doença infantil, ou mesmo com a criança enferma, é mediado pela emergência de atenção às demandas biológica e psicológica da criança, uma outra dimensão destaca-se à escuta pedagógica do desenvolvimento infantil: a dimensão vivencial. Essa dimensão conta-nos das expectativas de cura, sobrevida e qualidade de vida afetiva, de retorno às atividades anteriores e de continuidade dos laços com o cotidiano. Assim, a inclusão do atendimento pedagógico na atenção hospitalar, inclusive no que se refere à escolarização, vem interferir nessa dimensão vivencial porque resgata os aspectos de saúde mantidos, mesmo em face da doença, enquanto respeita e valoriza os processos afetivos e cognitivos de construção de uma inteligência de si, de uma inteligência do mundo, de uma inteligência do estar no mundo e inventar seus problemas e soluções.
O atendimento da criança e/ou adolescente no hospital, por uma equipe pedagógica, formada por profissionais da área de saúde, em união com o professor, possibilitam a construção dos conhecimentos desses pacientes, facilitando a aceitação da doença e consequentemente adesão ao tratamento, bem como proteção do seu desenvolvimento e êxito nas aprendizagens, além de facilitar a sua reinserção à escola após a alta hospitalar.
2.3. ATENDIMENTO PEDAGÓGICO DA CRIANÇA E/OU ADOLESCENTE, NO