2.1 Teorias e metateorias da informação
2.1.1 Ambientes complexos, relativos e variados das competências em
O ponto de vista instrumental acarreta pouca evolução teórica na pesquisa sobre competências em informação, seja como processo ou como produto (BUDD; LLOYD, 2014), sintetizado por Julien e Williamson (2010) em duas perspectivas: “Este é o caso se as competências em informação são definidas instrumentalmente, como é aparente em vários padrões nacionais de competências em informação e nas práticas instrucionais dos práticos, ou se é definida mais conceitualmente [...]” (JULIEN; WILLIAMSON, 2010, tradução nossa, grifo nosso).
Em movimento reparador, mediante os espaços deixados pela pesquisa tradicional, estabelecem-se abordagens sociocognitivas ou socioculturais: “[...] nome de uma família teórica mais do que uma teoria específica estreitamente definida” (BUDD; LLOYD, 2010, p. 3, tradução nossa), aplicadas em conjectura informacional cada vez mais complexa, relativa e variada, mediante a valorização do contexto em que ocorrem as práticas de informação: “Informação é social” e “[...] todas as habilidades informacionais dependem fortemente do entendimento claro do contexto no qual um indivíduo atua”. (HOYER, 2011, p. 13-14, tradução nossa).
A informação “[...] necessita de um contexto para ser compreendida” (FREIRE, G.; FREIRE, I., 2009, p. 101), o que pode ser exemplificado pelo fato de que as competências relacionadas à informação sempre adquirirem novas roupagens terminológicas – competência em computadores (computer literacy), competência em mídias (media literacy), dentre outras. A informação é contextual ou “relacional”, já que sua definição depende do contexto (GOZALEZ DE GOMEZ,
2003, p. 34). Para Wersig, na Ciência da Informação “ou qualquer coisa que este campo seja chamado”, não haverá uma teoria, mas uma estrutura de conceitos ou modelos científicos amplos e opiniões comuns reformuladas, entrelaçadas com suporte em dois aspectos: como foram desenvolvidos e de que modo podem ser relacionados com amparo em novos contextos caracterizadores da aplicação do conhecimento (WERSIG, 1993).
A perspectiva sociocultural, crescente a partir dos anos 2000, transmuta as tradicionais noções psicológica e cognitiva para o domínio social e cultural da informação. Segundo Budd e Lloyd (2010), esta abordagem tem origem nos: a) Estudos de Novas Competências (New Literacy Studies) e abordagens similares, fundamentados no conceito de prática social; e b) Estudos de Ciência e Tecnologia, especificamente no que se refere ao aspecto sócio-material dos fenômenos humanos, orientados pelo papel construtivo das tecnologias em influenciar o que há para ser aprendido e como deve ser aprendido. Desta convergência, entende-se que as novas competências não se restringem apenas à dimensão cognitiva (de natureza autônoma, e tratada no singular), mas à outras praticas incorporadas na contextura local (de natureza ideológica ou sociocultural – as quais incluem as relações de poder – sempre descritas no plural).
A associação entre a subjetividade humana e a atmosfera sociocultural revela “[...] a complexidade da natureza do pensamento, conhecer e ser informado” (BUDD, 2011). Budd (2011), em oposição ao predominante materialismo eliminativo, ou eliminativismo7, expressa postura investigativa mais compreensiva, fundamentada
nas variadas concepções (ou naturezas) da realidade humana (ou informacional). O gênero musical, por exemplo, possui natureza diferente do científico, e assim sucessivamente.
Nesses termos, o autor argumenta ser improdutivo dissociar os elementos não facilmente evidenciáveis da subjetividade humana do viés naturalista, objetivo e material da informação. Ambos – subjetividade e objetividade – são partes de um amplo projeto para a compreensão da natureza humana (BUDD, 2011), sendo mais oportuno “transcender” as variadas naturezas do fenômeno da informação com o intuito de complementação, e não de eliminação de uma ou outra abordagem, já que
7 Essas concepções de cunho objetivista desconhecem a existência de estados mentais não reconhecidos pelo
campo de estudo da neurofisiologia, isto é, que podem ser comprovados fisicamente (objetivamente), por meio de estados neuronais identificados no cérebro humano, e, portanto aptos a serem classificados como tal.
todas auxiliam no desafio de compreender os efeitos do ambiente na mente humana.
Corroborando, Jones (2008) convoca o campo da Ciência da Informação e Biblioteca para revitalizar-se por meio de
uma abordagem mais inclusiva ou holística que leve em consideração tanto o “objetivo”, como o encontramos pesquisado na ciência, quanto o ‘subjetivo’, que é central para os achados que fizemos nas humanidades [...] o objetivo e subjetivo como sendo integral para a operação de um processo, que, por sua vez, é operacionalizado em diferentes escalas de atividades (JONES, 2008, p. 484, tradução nossa).
Em competências em informação, esta tarefa aproximativa e transdisciplinar8
é assumida por Julien e Williamson (2010), que associa os tópicos “competências em informação” e “busca de informação” (information seeking), os quais foram, ao longo do tempo, desenvolvidos em diferentes frentes investigativas. O estudo de busca de informação está vinculado ao de “comportamento de informação9”
(information behavior), ou, como prefere Wilson (1997), “comportamentos de busca de informação” (information-seeking behavior), e, mais recentemente, aos de “práticas de informação” (information practice). O emprego da expressão “prática de informação” fundamenta-se na tentativa de fugir da ideia meramente behavorista, cognitivista e psicológica em torno da palavra “comportamento”, e da desatenção para o fato de que a informação e o conhecimento são constituídos com base em contexto sociocultural (FULTON; HENEFER, 2010). A “prática de informação” representa o viés social da informação, constituída mediante as interações humanas em comunidade (YU, 2011, p. 7).
Schartzki (2002 apud COX, 2012) explica que o “social” consiste de pessoas, artefatos, organismos e coisas, ligados por variados tipos de relacionamento (causal, espacial, intencional etc.), os quais são foco dos estudos de busca de informação – que intentam saber: “como as pessoas buscam e fazem uso de informação, os canais que eles empregam para ter acesso à informação, os fatores que inibem e motivam o uso de informação” (WILSON, 1997, p. 551, tradução nossa), ou, ainda,
8 Termo aplicado no sentido dado por Doucett (2011), que representa a estratégia de pesquisa que cruza as
fronteiras das outras disciplinas de modo a criar uma abordagem holística sobre a temática pesquisada.
9 É largo emprego, na literatura corrente, da dicção comportamento de informação, apesar de que este
construto possa estar [...] g a ati al e te i o eto, já ue a informação não se comporta; somente as pessoas PETTIGREW; FIDEL; BRUCE, , p. 44, tradução nossa)..
“como as pessoas necessitam, buscam, fornecem e usam informação em diferentes contextos, incluindo o local de trabalho e o da vida cotidiana”. (PETTIGREW; FIDEL; BRUCE, 2001, p. 44, tradução nossa).
Neste entendimento, o exclusivo reconhecimento de certas habilidades (cognitivas) de informação não é mais suficiente para a compreensão das competências em informação, as quais são influenciadas por um contexto social carregado de significado. Como “prática de informação”, por exemplo, há que se considerar a impossibilidade de mensuração direta das entidades que compõem o fenômeno informacional, por serem altamente relativas às outras entidades, cujo significado e valor depende e é atribuído em cada prática. No plano prático, ocorrem ações, cujo significado é determinado pela prática; e mais: mesmo considerando práticas de mesma natureza, uma ação em uma determinada prática pode significar algo completamente diferente em outra (COX, 2012). Assim, “o estudo da informação nas práticas sociais – em outras palavras, a exploração de como as atividades de informação são tecidas através das práticas sociais – poderia ser uma perspectiva altamente produtiva” (COX, 2012).
Corroborando, Budd e Lloyd (2014) descrevem as competências em informação como prática social em determinado lugar, interconectada com outras práticas através de redes de entendimento. Elas decorrem da interação entre as pessoas, informação e práticas de conhecimento do plano local, e no que conecta práticas e o que possibilita, ou impede, o desenvolvimento de uma prática, e em como as atividades e estratégias de informação são socialmente constituídas, moldadas e negociadas nas práticas.
Quando explicada ontologicamente, uma prática está associada a um local social, lugar onde coexistem variadas práticas e acordos. Ao ingressarem (legitimamente e de modo autorizado), as pessoas passam a entender como a vida social acontece, através das maneiras de conhecimento e de aprendizagem. Esta perspectiva investiga ainda como as coisas acontecem, e como um acontecimento emerge a partir do que é dito e feito, as quais estão entrelaçadas no lugar social. Um dos conceitos centrais é o de prefiguração (prefigurement), que indica que as práticas são prefiguradas (predeterminadas) por um processo de interação social, que origina dimensões complexas de aprendizado (BUDD; LLOYD, 2014).
Está incluído na valorização teórica do contexto sociocultural a teoria do embodiment (incorpodado), desenvolvida nas útimas décadas, e, mais
recentemente, do emplacement (situado). A primeira, que reinvindica a existência de modos de conhecer incorporado (embodiment), mediante a transposição do modelo cartesiano dualístico em curso até meados do século passado, que separa o corpo e mente da explicação de como conhecemos e como ocorre os nossos engajamentos de informação com o mundo (PINK, 2011). O antropólogo Thomas Csordas, fundamentado no filósofo Maurice Merleau-Ponty e o sociólogo Pierre Bourdieu, propôs o entendimento de que a nossa percepção não é legitimada pela distinção entre corpo e mente, isto é, de um lado, o corpo representado pelas experiências da cotidianidade através dos sentidos, e, do outro, o conhecimento racional.
Através do embodiment, o conhecimento não é restrito apenas na mente, mas está contido em práticas incorporadas – mediado pelo corpo humano (multisensorial) – que não podem ser expressas em palavras.
Pink (2011), seguindo Howes (2005), sinaliza a evolução da noção do embodiment (incorporado) para o emergente paradigma do emplacement (situado), unidade de ideia que sugere o interrelacionamento entre mente, corpo, e ambiente. Assim, as nossas experiências de informação constituem-se em experiências incorporadas, de modo que o aprendizado é mediado tanto pelas essências fixas – corpo biológico, a arquitetura de informação dos locais, as dimensões discursiva- cultural e material-econômica – quanto da consciência (BUDD; LLOYD, 2014; PINK, 2011), constituindo parte de uma configuração específica, ou complexa ecologia de pessoas e coisas (PINK, 2011). Este pensamento é expressado como uma nova possibilidade analítica para a compreensão de eventos e desempenho especializados.
Outro modo de estender o escopo do fenômeno informacional é pela noção de prática de informação, que comporta duas unidades de ideia – “pratica de informação” e “prática social de informação”. Cox (2012) esclarece que, embora a informação esteja intrínseca a quase todas as atividades humanas, nas quais são observáveis o uso, criação e busca de informação, raramente ela é o centro das atenções dos atores sociais. Deste modo, somente algumas práticas são informacionalmente orientadas (caracterizadas por buscas com objetivos bem- definidas, intencionais, mediante uma necessidade de informação pré-determinada) – denominadas práticas de informação – como as que ocorrem nos tradicionais sistemas de informação (bibliotecas, arquivos, museus).
Como prática social de informação, o fenômeno informacional não obedece à lógica da existência de uma necessidade de informação prederminada ao uso de fontes de informação disponívieis, que depende de ações racionalmente tomadas pelas pessoas. A ativação ou impulsão do fenômeno informacional é mais complexa, podendo ocorrer processos de buscas não intencionais e a descoberta da informação por acaso, as quais ocorrem em realidade dinâmica, fluida e descentrada, sendo ainda produto não apenas da interação dos humanos, mas também dos não humanos (LATOUR, 2012; LAW, 1992). Neste cenário, o elemento que agencia a informação e colabora para as ações de informação não é apenas a pessoa, mas inclui os não humanos. Esses últimos, por sua vez, são atores, e não apenas pura materialidade simbólica; eles possuem agência e agem em diferentes velocidades e acelerações, estabelecendo variadas conexões, a exemplo do que se observa na participação massiva das novas tecnologias de informação e comunicação nas interações sociais.
Atrelado ao processo cultural, o fenômeno informacional possui condição de alta mutabilidade, de quantidade quase infinita (KUPER, 2002). Como algo construído, a sua compreensão depende da sua desconstrução e reconstrução com base na sua heterogeneidade – reassociando componentes heterogêneos, agenciadores de informação (humanos e não humanos) e elementos responsáveis por movimentos singulares de segregação e reassociação.