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Cap 2.0 Um percurso possível

2.6 Ambigramas e Ideogramas

A busca de renovação formal na produção poética levou também a um contato mais próximo com a tradição oriental do ideograma, que reúne em si uma concisão extrema dos sentidos verbais. O princípio de condensação e o método ideogrâmico de compor através da justaposição direta de elementos em conjuntos geradores de novas relações, caracterizariam uma forma de comunicação mais afinada com o repertório poético contemporâneo, antidiscursivo e objetivo por excelência. Segundo Fenollosa, o conhecido estudioso da tradição poética ideogrâmica japonesa e chinesa, as relações são mais reais e mais importantes do que as coisas que elas relacionam; “nesse processo de compor, duas coisas que se somam não produzem uma terceira, mas sugerem uma relação fundamental entre ambas”.1 Essa afirmação é totalmente afinada com o conteúdo da Gestalt-theorie.

De acordo com Menezes2, a escrita chinesa caracteriza-se por grafias simples e grafias compostas. Nas grafias simples, existem os pictogramas e os ideogramas simples. Os pictogramas são representações figurativas estilizadas pela simplificação e que mantêm uma semelhança fisionômica com o objeto a que se refere. Já os ideogramas simples representam idéias e conceitos abstratos elementares por meio de diagramas, situando-se entre a convenção e a pictografia. Normalmente são utilizados para conceitos como movimento, posição, quantidade ou tamanho.

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FENOLLOSA, Ernest. Os Caracteres da Escrita Chinesa como Instrumento para a Poesia. in CAMPOS, Haroldo de. (org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. Edusp, SP, 2000, p. 116. 2

As grafias compostas é que utilizarão o chamado método ideogrâmico, onde ideogramas complexos são formados pela composição de dois ou mais caracteres. Uma grafia composta é formada pela união de um ideograma simples mais um pictograma. Mas a grande maioria dos ideogramas chineses é formada por um outro tipo de grafia composta, onde um ideograma complexo é conjugado a um ideograma simples, chamado de “radical”, que funcionaria como um detonador semântico. O ideograma complexo neste caso se transforma em um elemento fonético que define o significado através da indicação do som do ideograma formado. Esta composição ideogrâmica é chamada de “composto fonético”. Variando-se cada vez mais estes compostos fonéticos, convencional e arbitrariamente, derivam-se outros procedimentos combinatórios formadores de caracteres chineses. Estes processos derivados do ideograma composto é que irão determinar a composição ideogrâmica utilizada pelos concretistas, ainda que sua interpretação tenha gerado algumas divergências.

Em uma delas, a colocação lado a lado de dois caracteres criaria um significado global que surgiria da interseção dos seus significados individuais, utilizando a idéia de composição. Nesse caso aconteceria o processo da metáfora, onde significados são comparados para se demarcar uma área comum entre eles. No caso do ideograma a comparação é substituída pela proximidade entre caracteres. Uma segunda interpretação, feita por Eisenstein e Yu-Kuang Chu, é a de que “dois caracteres são colocados juntos para formar uma palavra que sugira uma terceira idéia”.3 Eisenstein utiliza aqui a noção de conflito como geradora de um terceiro conceito. Outra maneira de composição ideogrâmica é o da soma de significados, onde um caractere sofre uma

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adjetivação pela proximidade de outro caractere. As variações citadas de interseção, conflito e soma dentro do método ideogrâmico, entretanto, não interferem na noção de que a escrita ideogrâmica é fundamentalmente relacional e integrativa.

Haroldo de Campos dizia, talvez um pouco pretensiosamente, que “nenhuma poesia ocidental será tão ou mais ideogrâmica do que a poesia concreta brasileira e internacional, que pode ser descrita como o caso limite e a possibilidade extrema de composição nesta linha”. 4 Este caso limite poderia ser descrito, segundo Buschinger, como uma poesia cuja essência está em concentrar a tal ponto sua matéria verbal que, uma única palavra ocupando a superfície da folha de papel lhe seria suficiente5. Esta descrição parece calhar como uma luva para o caso dos heterogramas ambigramáticos, cuja principal força e qualidade de estranhamento se mostram exatamente no campo da síntese, sendo capaz de utilizar todas as três interpretações da escrita ideogrâmica citadas acima, dependendo da semântica empregada. O cuidado necessário para que se mantenham, simultaneamente, a legibilidade e a leiturabilidade das palavras utilizadas em um ambigrama, explora ao máximo os limites reconhecíveis do grafismo da letra, fundindo indissoluvelmente em uma única forma visual um polissigno que poderia ser facilmente qualificado como um ideograma ocidental.

Podemos dizer que o ambigrama possui um certo caráter ideográfico embutido em sua força visual. Pelo fato de mostrar em si as qualidades de um processo relacional, onde a figuralidade exaltante das qualidades puramente gráficas de um signo harmoniza-se com o sentido das palavras escolhidas pelo autor para nele existir, o ambigrama causa

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uma densificação no plano semiótico que o aproxima muito do ideograma oriental. As deformações expressivas apresentadas nas suas relações espaciais sutis o colocam em uma fronteira difusa, lugar no qual a palavra escrita testa os limites da sua própria existência. Usando uma imagem ideogrâmica barthesiana6, o ambigrama poderia ser visto como um potente condutor verbal de energia gráfica.

As origens de muitos ideogramas do oriente podem ser rastreadas em pictogramas que esquematizavam de forma gráfica objetos do mundo real (Fig. 2.49). Após muitos anos de uso e alteração essas formas foram se estilizando, de modo que suas referências originais já não são mais tão facilmente visualizadas, ganhando uma autonomia estética de quase puro grafismo (Fig. 2.50).

Fig. 2.49: Chinês arcaico inscrito em ossos com propósito divinatório, s/data.

Fig. 2.50: Evolução dos caracteres chineses. Na coluna da esquerda os pictogramas são representacionais, com 3000 anos de idade. À direita, os caracteres estilizados são atuais.

No caso do ambigrama, ao contrário, a evolução que parece estar ocorrendo em direção à forma gráfica pura está partindo da própria palavra escrita. Será que no futuro esse desenvolvimento levará ao surgimento de um ideograma ocidental que conterá o sentido de uma denotação múltipla na síntese harmoniosa de seus elementos? É uma hipótese interessante que abre um caminho que apenas começou a ser explorado. Não temos como saber até onde essa abordagem seria capaz de nos levar, mas indubitavelmente há um vasto campo de pesquisas a ser desbravado.

Uma parte dos ambigramas pesquisados faz uso de uma analogia estrutural, um isomorfismo da sua forma gráfica com o sentido das palavras que expressam. Assim a palavra espelho, por exemplo, pode ser construída propositadamente com uma simetria especular central, ou dois conceitos antitéticos serem unidos em uma síntese visual que procura demonstrar a indissolubilidade da sua conceituação. Há diferenças de intensidade nessas analogias visuais que dependem fundamentalmente de códigos

variáveis de percepção das homologias das formas empregadas. Ao contrário dos ideogramas originais, entretanto, os ambigramas fazem pouco uso de modelos miméticos da natureza, excetuando-se os ambicaligramas. Geralmente suas manifestações não fazem uso de uma iconicidade representacional, mas poderíamos chamá-la talvez mais adequadamente de uma correlação conceitual, um isomorfismo gestáltico ou de uma metáfora visual, se preferirem. As leis dinâmicas de transformação das linhas, espaços, cores e proporções dos ambigramas podem ser escolhidas e enfatizadas pelo autor com o objetivo de criar um objeto gráfico capaz de integrar múltiplas leituras simultâneas nos planos visual e semântico. A escrita então avança profundamente no domínio gráfico da sua nova e excêntrica figuralidade, procurando aperfeiçoar os seus mais adequados valores objetais.

Uma observação interessante que ressalta as qualidades ideográficas do ambigrama e que confirma a particularidade das suas propriedades características é que existem ideogramas orientais escritos na forma de ambigramas (Figs. 2.51 e 2.52). Propomos chamá-los de ambideogramas. O ritmo gestual das formas cursivas, harmoniosamente

Fig. 2.52: Anônimo, Grilo (Homograma de rotação, japonês), s/data.

estruturadas de modo a inserir a simetria em ideogramas orientais, torna os ambideogramas duplamente belos. Além da tradicional codificação de relações seletivamente estabelecidas de modo combinatório e associativo, estes ideogramas especiais exploram as especificidades da criação ambigramática, fazendo uso de inesperados recursos gráficos para conseguir o seu intento. Aos rastros da sua primeira origem mimética, agora estilizada, somam-se então aquelas correlações visuais gestálticas e metafóricas tão características dos ambigramas, amplificando o poder transformista e integrador de ambos.

O ambigrama amplia as possibilidades da letra e da palavra aproximando o texto e a figura, mas de um modo bem diverso do caligrama, onde a mancha gráfica do texto na página configura representações figurativas. No ambigrama há um adensamento informacional de grande riqueza onde se pode, por exemplo, dizer duas ou mais palavras diferentes com uma única e mesma forma. A letra como sinal permite a fixação das palavras, mas sua linha como desenho introduz um elemento de

ambigüidade que subverte e perturba a leitura convencional, forçando o leitor a ter uma participação visual mais ativa na compreensão e fruição do processo. O movimento do leitor no processo de compreender um ambigrama o obriga a manter uma relação sempre viva com a imagem, que gira sobre si mesma e espalha respingos de sentido na direção dos seus raios.

O ambigrama permite uma dissolução lúdica das antigas oposições antitéticas da nossa civilização alfabética, mas não custa lembrar, não no domínio verbal, e sim no visual corporificado da nova palavra. Ele é uma armadilha gráfica que consegue capturar uma forma que nem o puro discurso, nem o desenho por si só, são capazes de conseguir, conseguindo a resolução visual de tensões originadas em dicotomias semânticas insuperáveis à primeira vista. Há um deslizamento de leitura que permanece no limite da legibilidade da palavra, mantendo a mesma suspensa em um espaço transcendentalizante que causa um profundo choque no leitor. Poderíamos dizer que o ambigrama mais que diz as palavras que o compõem, numa dança harmônica entre a forma e o discurso. Na tessitura dos signos, mostra-se como um cruzamento quase perfeito entre a letra e a imagem, possuindo o que poderíamos chamar de dinamismo grafovérbico e gerando uma poesia que existiria primordialmente para ser vista.

É essa qualidade de se utilizar imagens materiais para sugerir relações imateriais que também aproxima os ambigramas do campo das artes plásticas, configurando quase que uma contradição nos termos: um híbrido fértil. Esse monstro, que aparece rompendo absolutamente com a normalidade constituída sem ser convidado, extrapola o aparente esgotamento das vanguardas concretistas e aponta para uma possível intensificação do interesse contemporâneo pela exploração plástica das palavras. Esse

interesse nunca deixou de existir na história das palavras, mas em nossa época parece encontrar um terreno excepcionalmente favorável para seu desenvolvimento. É importante que seja perseguida uma síntese harmoniosa que atualize o antigo e redimensione o novo, inscrevendo-se numa continuidade secular. Inesperadamente, nada será mais novo que o passado quando sensivelmente interpretado pela ótica do presente.

A busca de uma maior aproximação do ocidente com a produção poética ideogrâmica oriental parece tentar satisfazer a demandas peculiares do nosso tempo e lugar. Essas demandas, segundo Pierre Garnier7, sugerem que o poema deseja agora se tornar um objeto material porque o homem está se tornando cada vez mais consciente da espiritualidade que reside na própria matéria mesma dos objetos que o circundam. É interessante observar que essa mesma afirmação sobre a espiritualidade contida na matéria foi feita na Idade Média pelos seguidores da Alquimia. Como o trabalho artístico e literário desenvolve-se em dois caminhos, tanto pela materialização do espírito quanto pela espiritualização da matéria, parece que aqui reside um verdadeiro trabalho alquímico. Solve et coagula8.

7

SOLT, M.E. Concrete Poetry: A World View: The New Visual Poetry, Indiana University Press, 1968, p.1.

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