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3 LEVANTAMENTO EMPÍRICO

3.2 RESULTADO DOS TESTES

3.2.4 Ambiguidade

Uma questão que ainda não foi levantada pela literatura é a possibilidade de ambiguidade em relação a algumas construções que não apresentam concordância. De acordo com a nossa intuição, acreditamos que construções como (48) e (49) são ambíguas:

(48) Água é bom

(49) Carne de porco é gostoso

O dado em (48), para nós, poderia estar se referindo a uma situação envolvendo água (como, por exemplo, bebê-la) ou a uma propriedade da água. No caso de (49), também acreditamos que há possibilidade de dupla leitura, indicando que é gostoso comer tal carne e que a carne tem como característica ser algo gostoso. Com base em dados como esses, especulamos que, talvez, no PB, haja ambiguidade, e resolvemos testar se nossa intuição estaria de acordo com a intuição de outros falantes do PB por meio do teste 2.

Das vinte e oito construções analisadas, oito são construções que acreditamos serem ambíguas com a falta de concordância81. Essas construções podem ser visualizadas a seguir:

(50) a. Água é bom

b. Panqueca é gostoso c. Pimenta é bom

d. Passagem de ônibus era barato e. Comida já foi barato

f. Cobra é perigoso

g. Passagem de ônibus era caro h. A pimenta é bom

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Nas outras vinte construções, pretendíamos verificar extraposição, ligação anafórica etc., como será discutido no capítulo seguinte, assim como as sentenças do teste 1, que nomeamos de “pseudodistratoras”, uma vez que elas foram testadas exatamente para confirmar certos pontos em algumas propostas apresentadas pela literatura.

Para nós, nessas construções, os adjetivos podem estar se referindo tanto a características do sujeito quanto a situações, eventos/eventualidades envolvendo o sujeito, mas que não necessariamente é uma propriedade dele, ou seja, são os adjetivos que Foltran & Rodrigues (2013) afirmam selecionarem situação e indivíduo. Os resultados obtidos constam na tabela 7:

Tabela 7 – Resultado do teste de ambiguidade

Tipo de estrutura Propriedade Situação Ambas

Freq. % Freq. % Freq. %

Água é bom 12 (12/23) 52,17 6 (6/23) 26,08 5 (5/23) 21,73 Panqueca é gostoso 12 (12/18) 66,66 5 (5/18) 27,77 1 (1/18) 5,55 Pimenta é bom 17 (17/24) 70,83 2 (2/24) 8,33 5 (5/24) 20,83 Passagem de ônibus era barato 18 (18/20) 90 1 (1/20) 5 1 (1/20) 5 Comida já foi barato 13

(13/20) 65 6 (6/20) 30 1 (1/20) 5 Cobra é perigoso 13 (13/19) 68,42 4 (4/19) 21,05 2 (2/19) 10,52 Passagem de ônibus era caro 15 (15/21) 71,42 5 (5/21) 23,80 1 (1/21) 4,76 A pimenta é bom 4 (4/5) 80 0 (0/5) 0 1 (1/5) 20 Fonte: Elaborado pela autora.

Nota: ACV representa ausência de concordância visível; CV representa concordância visível e Freq. representa a frequência de aceitabilidade.

Ao observarmos os resultados da tabela 782, percebemos que os índices indicando ambiguidade não são altos (21,73%, 5,55%, 20,83%, 5%, 5%, 10,52%, 4,76% e 20%). Os maiores números, 22% e 20%, inclusive, indicam apenas 5 e 1 caso, respectivamente, em que o falante opta pela ambiguidade, o que não parece ser uma taxa significativa. No entanto, acreditamos que isso pode ter sido influenciado pelo fato de o comando não estar tão específico.

Pensamos na possibilidade de colocarmos a construção panqueca e indicar possíveis leituras, para que o falante pudesse marcar uma ou duas opções, caso achasse que se aplica, mas achamos que isso influenciaria o julgamento do falante, não obtendo o que de fato sua intuição aponta. Portanto, acreditamos que é

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Em cada construção, esperávamos que houvesse o total de 30 intuições, mas alguns falantes consideram algumas das construções estranhas ou inaceitáveis; outros colocaram observações que não dizem respeito à semântica e outros que se esqueceram de colocar a leitura em relação a algumas construções que consideraram aceitáveis. Por essas razões, resolvemos considerar apenas as construções que os falantes consideraram aceitáveis e que indicaram a(s) interpretação(ões).

necessário investigarmos uma melhor forma para verificarmos se há ou não ambiguidade. Além disso, achamos que talvez seja importante verificarmos esses casos (casos apenas sem concordância) com retomada de contexto. Entretanto, seria importante tentarmos encontrar contextos que não induzem leitura de situação ou propriedade.

Uma questão interessante que o teste 2 acabou apontando é que, mesmo com a falta de concordância, o maior índice de leitura é a de propriedade atribuída ao sujeito, com 52,17%, 66,66%, 70,83%, 90%, 65%, 68,42%, 71,42% e 80%, o que parece ir de encontro à ideia de Foltran & Rodrigues (2013) de que a falta de concordância indica que o adjetivo não está atribuindo uma propriedade ao sujeito, mas está indicando uma leitura de situação envolvendo o sujeito. No entanto, todos os falantes que indicaram haver possibilidade de falta de concordância apontaram, com outras palavras, um elemento não marcado com o qual o adjetivo parece concordar, mas que tem a ver com o sujeito, o que parece apontar que a ideia das autoras não está totalmente equivocada, pois o sujeito estaria concordando com um elemento implícito que é não marcado.

(51) a. Água é bom (= o líquido é bom)

b. Panqueca é gostoso (= o gosto é bom) c. Pimenta é bom (= o tempero é bom)

d. Passagem de ônibus era barato (= o valor era barato) e. Comida já foi barato (= o preço já foi barato)

f. Cobra é perigoso (= o animal é perigoso)

g. Passagem de ônibus era caro (= o valor era barato) h. A pimenta é bom (= o alimento é bom)

Os sujeitos em (51) não parecem ser os sujeitos das construções. Os adjetivos se referem a características do sujeito, mas que não é necessariamente o sujeito que está explícito, e sim algo como, por exemplo, um hiperônimo (é como se houvesse um elemento nulo com o qual o adjetivo concorda83).

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Em dados como o do teste 1, como ‘menina vaidosa é chato’, acreditamos que também seria possível uma leitura como “esperar menina vaidosa é algo chato”. Nesse sentido, é como se houvesse, além do infinitivo, um nome nulo na posição de predicativo desse tipo de sentença panqueca.

Apesar da ausência de concordância visível, essas construções se diferem das construções com adjetivos descritivos com falta de concordância (52a), porque permitem, por exemplo, paráfrase com infinitivo, como mostra (52b).

(52) a. *Ter/ver/brincar/olhar mostarda é amarelo b. Beber água é bom

Achamos, no entanto, que é necessário investigarmos melhor casos como os de (51) com retomada de contexto, uma vez que eles foram analisados aqui (no teste 2) em contextos out of the blue, a fim de verificarmos se essa leitura de propriedade se mantém nas construções sem concordância.

3.3 SÍNTESE DO CAPÍTULO

De modo geral, tentamos verificar quais eram as características das construções analisadas neste capítulo, observando o seu sujeito, o seu verbo copular e o seu adjetivo em função predicativa, e, com os resultados apresentados, podemos dizer que nossas intuições foram confirmadas, com exceção da ambiguidade, que ainda precisa ser melhor investigada, assim como o verbo no futuro do pretérito, que permite concordância, o que não era esperado por nós nos casos de adjetivos que selecionam indivíduo e situação, e o sujeito com o pronome ‘toda’, que apresentou um baixo índice de aceitabilidade em termos de falta de concordância, o que vai de encontro ao que esperávamos. Mas em relação ao que havia de divergente entre nossa intuição e a de outros autores, pudemos verificar que as nossas foram corroboradas.

No que diz respeito aos sujeitos, parece não haver restrição em relação ao tipo de sintagma nessa posição, podendo ocorrer nas construções sem concordância visível. Nesse sentido, o sujeito parece não influenciar (a não ser a diferença de julgamento entre o contexto pragmático e o contexto out of the blue). Sobre o verbo, percebemos que, se o verbo está no plural, ele favorece a concordância, e, nos casos com o verbo no futuro do pretérito mais o adjetivo que seleciona indivíduo, já esperávamos – e pudemos confirmar – não haver falta de concordância. Sobre o tipo de adjetivo, verificamos que adjetivos descritivos, que, por sua vez, são aqueles que selecionam apenas indivíduo, permitem a falta de

concordância em casos específicos, atribuindo uma propriedade ao sujeito, o que parece indicar ser uma construção diferente das outras, uma vez que também não permite paráfrase com infinitivo. Por fim, verificamos que, em contextos out of the

blue, parece haver possibilidade (pelo menos, em alguns casos) de falta de

concordância e estarmos atribuindo uma propriedade ao sujeito evidente.

Com os resultados apontados neste capítulo, podemos fazer uma apreciação de propostas que já foram realizadas sobre a construção predicativa com falta de concordância visível morfologicamente. Portanto, no próximo capítulo, apresentaremos tal discussão.