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6. ASPECTOS METODOLÓGICOS E CONTEXTO DE ESTUDO

6.2 Contexto do estudo e trabalho de campo

6.2.1 Ambulatório

O ambulatório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto em 2012 realizou 477.852 mil atendimentos médicos e 94.081 atendimentos não médicos (enfermagem, pedagogia, odontologia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e serviço social). Em 2012 a Especialidade de Coloproctologia realizou 3.346 atendimentos e foram 396 internações na Clínica de Coloproctologia e a Clínica da Coloproctologia Oncológica realizou 2.590 atendimentos ambulatoriais.

Em 2014 realizou 632.365 mil atendimentos médicos e 139.741 mil atendimentos não médicos (enfermagem, pedagogia, odontologia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e serviço social). Em 2014 a Especialidade de Coloproctologia realizou 3.433 atendimentos e foram 441 internações na Clínica de Coloproctologia e a Clínica da Coloproctologia Oncológica realizou 3.561 atendimentos ambulatoriais. Houve um aumento significativo entre estes dois períodos, principalmente em decorrência da regulação dos atendimentos no SUS.

Apresentamos um fluxograma nos diferentes níveis de atendimento à saúde no SUS para pessoas com estoma intestinal por CCR.

Figura 1 – Fluxograma de atendimento

O atendimento no ambulatório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, na Especialidade de Coloproctologia para as pessoas com doença oncológica é realizado às quintas-feiras a partir das 12:30h e atende em média 45 pacientes/dia, destes em média cinco são pessoas com estoma intestinal. Como a maioria é procedente de cidades da região, eles chegam em ônibus municipais antes das 7:00h e ficam aguardando até às 12:30 horas para a consulta e os ônibus retornam para suas cidades às 18 horas ou assim que todas as pessoas são atendidas.

Estas pessoas ficam aguardando nas adjacências do hospital, nos gramados, nas cadeiras, praças e restaurantes. Para entrar no ambulatório, há uma fila para apresentação do cartão de agendamento comprovando a consulta. Em seguida, se dirigem para o balcão de atendimento da especialidade, onde há uma nova fila para a entrega de seus cartões e então se dirigem ao corredor para aguardar o atendimento médico. Há cadeiras no ambulatório, mas não são suficientes para todos, pois neste mesmo corredor de espera, além desta especialidade, há outras que realizam o atendimento neste mesmo dia.

Os prontuários previamente separados pelo Sistema de Arquivo Médico (SAME) e são encaminhados pela equipe de enfermagem para o corredor onde a equipe médica realiza os atendimentos. Há priorização para os atendimentos para

as pessoas acamadas e idosos, e posteriormente, os atendimentos são realizados por ordem de chegada. Em cada corredor há um banheiro feminino e um masculino.

A maioria dos pacientes é idosa e devido ao quadro clínico, apresenta fadiga, permanece com acompanhantes que também ocupam essas cadeiras, tornando o ambiente cheio, barulhento, abafado e cansativo. As macas ficam nos cantos dos corredores, juntamente com os cadeirantes. As pessoas ficam ansiosas pela consulta, com expectativas em relação ao resultado, prognóstico e isso torna a espera longa. O quadro clínico aumenta o cansaço durante a espera, há preocupação com os ruídos intestinais e necessidade de desprezar o conteúdo da bolsa coletora, pois dentre aquelas que aguardam o atendimento, poucas possuem estoma.

Apesar de queixarem-se um pouco da demora, ressaltaram que estar ali era um privilégio para elas em função da burocracia para chegar neste hospital terciário e por este ser altamente conceituado.

A coleta de dados foi realizada de fevereiro a julho de 2013, totalizando 23 semanas de trabalho de campo, sendo que a pesquisadora frequentava o ambulatório no dia das consultas da Especialidade de Coloproctologia e imprimia a lista de atendimento do dia. No sistema do Hospital, acessava a ficha operatória destas pessoas e certificava aquelas que atendiam aos critérios de seleção da pesquisa, resultando em um ou nenhum paciente, e posteriormente as procurava no ambulatório.

Com a nossa participação no Grupo de pesquisa e extensão e a realização do estágio Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE), um ano antes do trabalho de campo, já tinha contato com os possíveis participantes, uma vez que a pesquisa envolvia pessoas com estoma intestinal com um ano até um ano e meio de pós-operatório.

Quando iniciamos a coleta de dados em fevereiro de 2013, havia uma lista de aproximadamente 18 pessoas, que atendiam os critérios de seleção e que haviam sido atendidos pelos membros do Grupo de pesquisa e extensão. Para minha surpresa, somente uma pessoa poderia participar da pesquisa, pois desta listagem, nove pessoas haviam falecido e os familiares de oito pessoas não permitiram a participação na pesquisa, alegando falta de condições físicas pela fadiga oncológica.

Então passamos a frequentar as quintas-feiras, o ambulatório da especialidade de Coloproctologia e já havia se passado quase dois meses e o

número de participantes que aceitaram participar da pesquisa, eram somente três. Então solicitamos ao HCFMRP-USP, em março de 2013, uma listagem de todos as pessoas que no primeiro semestre de 2012 haviam sido submetidos à cirurgia por esta especialidade.

Na listagem obtida, constavam 170 pacientes, que haviam realizado algum tipo de tratamento cirúrgico no período de 05/2011 a 05/2012 e assim foi verificada a ficha operatória de cada um. A maioria havia ido ao óbito, o que resultou em quatro possíveis participantes.

Continuamos a frequentar o ambulatório e como não conseguimos mais participantes para a pesquisa, resolvemos incluir pessoas, com pouco menos de um ano de pós-operatório e conseguimos mais seis participantes.

Em julho de 2013, havia realizado entrevistas com 13 participantes, sendo duas entrevistas cada uma, além de outros encontros nos retornos ambulatoriais e realização de exames. Mediante análise do trabalho de campo, consideramos que os dados eram suficientes para o alcance dos objetivos deste estudo.

No contato inicial, foi feito uma avaliação para verificar as condições clínicas destas pessoas para realizar o convite, com explicação dos objetivos, assegurados o sigilo e anonimato. Mediante o aceite de participação, foi agendado entrevista no domicílio dessas pessoas, por favorecer a livre expressão, em um ambiente tranquilo e conhecido pelo participante do estudo, por acreditarmos que neste ambiente a pessoa sentiria maior segurança, além de permitir a observação e participação nas atividades cotidianas.

Alguns participantes moravam em outras cidades e por passarem o dia todo no hospital, aguardando a consulta ou quimioterapia, ou mesmo a chegada do ônibus no final do dia para retornarem as suas residências, preferiram que as entrevistas fossem realizadas no hospital, assim aproveitavam melhor o seu tempo. Então, a pesquisadora os encaminhava para um lugar reservado para realizar a entrevista.

Além da avaliação clínica, foi realizada avaliação cognitiva com a utilização do instrumento Mini Exame do Estado Mental (MEEM).

O MEEM é um importante instrumento de rastreio de comprometimento cognitivo, utilizado amplamente no mundo e com boa aplicabilidade em ambiente hospitalar e ambulatorial, além de ser um teste rápido e de simples aplicação. Foi desenvolvido por Folstein et al. (1975) e adaptado para a população brasileira por

Brucki et al. (2003). Destacamos que a pesquisadora recebeu treinamento prévio por profissional capacitado para aplicar o instrumento.

O MEEM avalia as funções cognitivas: orientação temporal espacial; registros; atenção e cálculo; lembrança ou memória de evocação; e linguagem. Os participantes aptos prosseguiram com a próxima etapa da entrevista.

O instrumento tem escore máximo de 30 (anexo V) e todas as questões são realizadas na ordem listada e podem receber resultado imediato somando os pontos atribuídos a cada tarefa completada com sucesso, sendo possível escore final total, assim que a última atividade é concluída.

Avaliação do escore obtido

Pontos de corte – MEEM (Brucki et al. (2003) 20 pontos para analfabetos.

25 pontos para idosos com um a quatro anos de estudo. 26,5 pontos para idosos com cinco a oito anos de estudo.

28 pontos para aqueles com 9 a 11 anos de estudo. 29 pontos para aqueles com mais de 11 anos de estudo.

Quadro 1 – Pontuação MEEM. Ribeirão Preto, 2016.

No quadro observamos que a faixa etária era entre 43 e 80 anos, com média de idade de 62,2 anos e que a menor pontuação final do MEEM foi de 22 pontos pelo P8, que era analfabeto, e a maior pontuação obtida foi 30, pelo P13, que possuía 11 anos de estudo e 29 pontos pelo P9, que tinha 12 anos de estudo. Todos atendem a relação pontos/anos de estudo, proposto pelo instrumento.

Para obtenção de dados sociais, clínicos e terapêuticos, da experiência da pessoa no primeiro ano de seguimento ambulatorial, além das questões para a entrevista em profundidade, foi elaborado um instrumento de coleta de dados (Apêndice I), que foi construído com questões norteadoras para a entrevista, que foram:

“Como está sendo o primeiro ano de sua vida, após a cirurgia e a colostomia?”; “Como vê a sua vida neste tempo de seguimento aqui no ambulatório?”;

“Quais os novos desafios que você tem enfrentado nesta fase de sua vida?”; “O que você precisa ou acredita que facilitaria nesta fase de sua vida?”

Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, com a permissão dos participantes, além dos registros em um diário de campo como ideias e reflexões da pesquisadora durante o trabalho de campo.